Voltando à Terra

Tomei antidepressivos, pela primeira vez, por volta de 15 ou 16 de junho de 2007. Não que eu me apegue a detalhes, mas é que esse evento aconteceu um dia antes de outro evento importante: show do Tom Zé no Teatro da Caixa, em Curitiba. Não fosse o medicamento, tenho certeza de que não poderia ter assistido ao show com tanto deleite.

Tomar esse tipo de medicamento é uma experiência engraçada. A primeira sensação que estranhei — além dos inúmeros bocejos ao longo do dia — foi algo que só consigo explicar por analogia. Depois de dois comprimidos antes de dormir, acordei com a sensação de que algo que fazia parte do inferno da minha cabeça havia desaparecido repentinamente. Porém, eu continuava sentindo a sua presença, por mais ausente que estivesse. Algo que, na minha ignorância, sempre me pareceu semelhante à descrição da Síndrome do Membro Fantasma: amputado, mas ainda presente.

Com o tempo, essa sensação desapareceu. Os medicamentos foram essenciais na conquista de uma vida mais tranquila e saudável. Graças a essa ajuda consegui realizar feitos que, apesar de comuns e banais, se tornariam um verdadeiro martírio caso fossem “a seco”. Entre eles estão milhares de quilômetros viajados em carro ou avião, ir e voltar do trabalho sem ataques de ansiedade, dormir melhor, exorcizar uns diabinhos etc. Claro que, além do remédio, eu também tive minha participação no processo, enfrentando aquilo que eu achava ser necessário.

Porém, como o acidentado que precisa momentaneamente de muletas, chega uma hora em que aquele apoio acaba se tornando mais incômodo do que útil. Agora, depois de cinco anos, chegou a hora de tentar largar os “tarjinhas” e, por incrível que pareça, isso tem me levado a uma fase bastante agradável de redescobertas. Pelo menos por enquanto.

Para começar, me sinto com muito mais energia. Não tenho sonolência durante o dia, acordo de bom humor e, às vezes, até antes de soar o alarme do despertador. Tenho aproveitado o pique extra para me dedicar a projetos pessoais que sempre tive vontade de fazer. Me arriscaria a dizer que algumas mudanças anteriores já podiam ser interpretadas como sintomas de que tudo ia bem, como sair de Curitiba e até “casar”.

Em contrapartida, tenho sentido umas esquisitices que, talvez, estejam associadas com a ausência dos remédios. A mais incômoda delas começou dois dias atrás: uma espécie de “glitch óptico-cerebral”: inesperadamente, sinto um tremelique, um desconforto, um tilt na região dos olhos e atrás deles. Isso causa uma pequena tontura que passa logo, mas que se repete com uma frequência detestável.

David Foster Wallace diz em um de seus textos que antidepressivos são bacanas, mas são bacanas assim como viajar para um outro planeta tão habitável quanto a Terra pode ser bacana: bacana, mas não será a boa e velha Terra. Obviamente, ele tinha experiências muito mais complexas e devastadoras para falar sobre isso, nada que possa ser comparado à baixíssima dosagem de medicamento que eu tomava. Mesmo assim, essa retomada de energia tem sido tão boa que eu consigo visualizar bem a ideia de retornar ao planeta natal. Só espero que a aterrissagem não seja ruim.

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Quantos apocalipses formam alguém?

O Apocalipse deveria ter acontecido no último dia 21. Não que eu esteja lamentando o fato de termos chegado a 2013. Afinal, seria ingrato da minha parte reivindicar essa tragédia pouco tempo depois de ter sobrevivido a ela. O que afirmo na primeira frase é que muitos acreditavam que o mundo não passaria de meados de dezembro, e, se levarmos isso em conta, podemos nos considerar sortudos, já que deuses, calendários maias e desastres naturais resolveram nos poupar mais uma vez.

Mais uma vez, sim, pois não faz muito tempo que me lembro de ter sobrevivido ao fim do mundo que, supostamente, deveria ter acontecido na transição do ano de 1999 para 2000.

E não foram só esses dois. Houve também uma terceira ocasião – não me lembro a data – que deveria ter servido como prelúdio para o armagedom. Na minha memória ainda está fresca a imagem de minha avó, religiosa como sempre, alertando aos primos e a mim sobre os três dias de trevas pelos quais passaríamos. Mas nada feito: o sol nasceu normalmente.

Hoje, me sinto ainda mais sortudo. E o motivo não é o fato de ter passado ileso por três previsões de fim dos tempos. A razão é muito melhor: a Internet me avisa que já sobrevivi a nada menos do que 60 apocalipses! Com apenas um ano de idade, por exemplo, tive que passar pelo meu primeiro fim do mundo frustrado, previsto para acontecer em 1981, de acordo com um tal de Chuck Smith.

Isso sem contar os apocalipses pessoais, que o autor do site não tem conhecimento. Houve, por exemplo, aquela noite em que nosso ônibus de viagem foi sequestrado por assaltantes de banco. Ou então aquele mês em que passei na UTI por causa de erro médico. Ou o telefonema no meio da noite anunciando a minha primeira perda de um ente querido.

E apesar de todas as possibilidades de apocalipses pelas quais já passei, ainda há muito o que temer. Segundo o mesmo site, o planeta pode ser devastado logo em 2013, de acordo com  um missionário que já errou duas vezes a data para o retorno de Cristo.

Porém, neste primeiro dia do ano, o único sinal do Apocalipse que me atormenta – além da imprevisibilidade da vida – é o fato de que todo este texto foi escrito e postado a partir de um tablet, usando um teclado virtual e sem feedback tátil e que leva a qualquer texto um verdadeiro hecatombe de erros de digitação.

Se a linguagem escrita pode ser parte daquilo que ajuda a moldar a História e a realidade, podemos dizer que, na era pós-PC, este pequeno experimento de postagem fora de um computador convencional pode demonstrar que o mundo já está dando indícios  do seu rim, (deleta), sim, (deleta), fim.

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Meio ano em São Paulo

Já faz mais de seis meses que tenho morado em São Paulo. Nesse período, posso dizer que consegui alguns avanços nos pontos que eu pensava em melhorar saindo de Curitiba.

Primeiro, estou em uma cidade que me proporciona mais oportunidades, seja no trabalho ou no estudo. Não troquei de emprego, mas na mesma empresa tenho realizado tarefas que em Curitiba seriam mais difíceis, como a cobertura de eventos de tecnologia.

Também vim para cá com a intenção de voltar a estudar, mas hoje já posso dizer que desisti da ideia. Minha rotina aqui tem sido muito mais amalucada do que era antes e eu não sei se consigo conciliar emprego e uma nova faculdade morando longe de ambos. Parece mais desgastante do que eu estou disposto a enfrentar no momento.

Outro ponto que motivou minha mudança é a cena cultural paulista, que é maior e com mais diversidade do que a de Curitiba. Infelizmente, tenho aproveitado como posso, ou seja, dentro das condições confortáveis de tempo e dinheiro. Por isso, perco programas bacanas todos os dias. Mas ainda assim tem sido muito recompensador.

É claro que também saí de Curitiba por causa de alguns diabinhos internos que sempre me incomodaram e, felizmente, tenho conseguido exorcizar boa parte deles aqui. Apesar de às vezes ser dolorido, tenho me sentido cada vez melhor neste “exílio voluntário”.

Em meio a tudo isso, aprendi e percebi alguns detalhes da vida paulista que me parecem dignos de nota:

  1. Se estiver no trem da Linha 9, não se preocupe: ninguém peidou perto de você e muito menos tem cocô na sola do seu sapato: o que fede é o Rio Pinheiros;
  2. Tenha sempre uma cédula de R$ 2 na carteira para o caso de encontrar algum livro interessante nas máquinas de “pague-o-quanto-quiser” que ficam nas estações de metrô;
  3. O preço da comida na hora do almoço é proporcional ao seu conforto, ou seja, quanto mais perto o restaurante está do seu escritório, mais caro ele custará; quanto maior a preguiça, maior o prejuízo;
  4. Na estação Berrini, da Linha 9, há um frequente e insuportável cheiro de peixe frito pela manhã que costuma revirar o meu estômago;
  5. Máquinas de doce costumam vender chocolates de qualidade aceitável por R$ 1. Isso faz você engordar;
  6. Passagens aéreas para Curitiba por R$ 50 são ótimas, a não ser que o voo saia de Guarulhos às 6h. Sem metrô e ônibus que te levem em tempo hábil até lá, o táxi custará quase três vezes o valor da passagem aérea;
  7. Quando as escadas rolantes da estação Pinheiros estão paradas é porque algo de errado acontece com o metrô;
  8. Táxi com passageiro e luminoso aceso pode ser parado pela polícia, já que esse é um sinal combinado para pedir ajuda em caso de sequestro ou roubo. Foi o que me contou um taxista;
  9. Às vezes, o ônibus leva o dobro de tempo que você leva para fazer o mesmo trajeto a pé; e
  10. A ocupação popular e artística do espaço público em locais como a Av. Paulista e o CCSP é incrível e acho uma pena que algo semelhante não ocorra com tanta intensidade na capital paranaense.
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Rapidinhas sobre DFW e pornografia

Faço parte do grupo de pessoas que conheceu David Foster Wallace (DFW) por volta de 12 de setembro de 2008, quando o escritor resolveu dar fim à sua vida. Por enquanto, “Breves Entrevistas com Homens Hediondos” é o único livro dele publicado no Brasil e é leitura recomendadíssima. Impossível ficar indiferente a contos como “Para sempre acima” e “A pessoa deprimida”.

Mas foi lendo “Consider the lobster” que descobri que tenho uma certa birra com autor. Explico: quase gozo com os textos dele, mas tendo a me decepcionar quando o trabalho é de não ficção e envolve as opiniões pessoais de DFW.

A primeira birra com esse livro vem logo no começo, com uma peça que tinha tudo para me conquistar: “Big Red Son”, artigo sobre o “Oscar” da indústria pornográfica norte-americana, o AVN Awards.

Apesar de ser engraçado e de relatar detalhes deliciosos sobre o background do entretenimento adulto dos EUA, o tom de superioridade na escrita de DFW me incomoda um pouco. Basicamente, não ando mais com paciência para piadas de auto-afirmação ou sobre palavras mal pronunciadas.

Originalmente, o artigo foi publicado na revista Premiere e assinado sob os pseudônimos de Willem R. deGroot e Matt Rundlet. Repercurtiu a ponto de ganhar respostas da AVN sobre alguns erros e incongruências.

[Em tempo, "Big Red Son" não me broxou tanto quanto "Authority and American Usage", que foi detonado no blog Languagehat]

Kayden Kross, porn star e fã de DFW

Um dos problemas de “Big Red Son”, na minha opinião, é o autor tratar a indústria toda como um bando de pessoas completamente idiotas e abaixo dele. E é claro que ele pegou alguns exemplos que cabem muito bem nessa categoria, como o famoso Paul F. Little, conhecido internacionalmente como Max Hardcore.

[Se você acha a pornografia mainstream de mau gosto e misógina, você terá vontade de esquartejar o Max Hardcore ao ver os filmes dele. Basicamente, o sujeito levou tudo de ruim da indústria a um patamar insuportável e, por isso, é odiado e amado por muitos.]

Mas há quem fuja dessa amostra de pessoas detestáveis. Um bom exemplo é a atriz Kayden Kross, que recentemente foi parar em uma matéria da CNN sobre o uso do Twitter por estrelas pornôs, posando ao lado de um livro do autor. Na rede de microblogs, ela se descreve como “ateísta reformada” e que “acredita em coisas ilógicas e sem respaldo científico a respeito de David Foster Wallace”.

Depois de algumas mensagens na wallace-l, ficou impossível não perguntar para Kross se ela leu “Big Red Son”. Surpreendentemente, obtive resposta:

Extra: gírias da indústria pornográfica

Apesar de eu achar que o tom de “Big Red Son” é uma de superioridade vertical irritante, DFW continua me agradando com os pormenores enciclopédicos que só ele sabe agregar a um texto. Há quem ache isso um defeito ou pedantismo imperdoável, mas para mim é o que torna tudo mais divertido.

O melhor “bônus” desse artigo, na minha opinião, é o vocabulário com gírias usadas pelos profissionais da indústria pornográfica. Basicamente, o ator viril é chamado de woodman e, nesse caso, os melhores são aqueles que não esperam muito pela wood (ereção).

O pior que pode acontecer a um woodman é ter um wood trouble e, quando isso insiste em permanecer, eles recorrem a um ato chamado de fluff, que é nada menos do que um fellatio realizado longe das câmeras, para que o ator volte pronto para a cena. Algumas produções mais caras possuem até uma classe de profissionais dedicadas a esse serviço: as fluff girls.

Normalmente, as fluff girls são B-girls em potencial, ou seja, atrizes de segundo ou terceiro escalão que recebem muito menos do que as estrelas principais e que se submetem às piores cenas da película. Isso, obviamente, com o objetivo de um dia se tornarem reconhecidas e bem remuneradas.

Quando um filme possui cenas de sexo anal e vaginal, ele é conhecido como Tush ‘n’ Bush. Já skeet serve tanto como verbo quanto como substantivo e diz respeito ao orgasmo masculino e ao material expelido durante o ato. Money shot é a filmagem bem sucedida da ejaculação de skeet e uma cena girl-girl, como é de se esperar, diz respeito ao sexo sáfico, que costuma estar previsivelmente presente nas produções destinadas ao público masculino heterossexual.

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Resumindo, não gosto de me decepcionar ideologicamente com autores pelos quais tenho adoração. Isso me lembra, por exemplo, o racismo de Monteiro Lobato ou o apoio ao nazismo de Ezra Pound. No fundo, é claro que obra e autor nem sempre devem se misturar, mas explicar isso para a minha cabeça de bagre é bem difícil. Prova é a leitura de “Consider the Lobster”, interrompida meio que a contragosto. Mas pretendo voltar ao livro mesmo assim, já que me sinto mal deixando algo pela metade.

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Whiteman é paulista

Dentro da Land Rover, ironicamente branca, o motorista não apenas parecia fisicamente com Whiteman, personagem de Robert Crumb, como também agia de maneira assustadoramente semelhante. Bastou o pedinte — que possuía uma deformação facial terrível — se aproximar da janela para que o carro arrancasse imediatamente, mesmo com o sinal fechado, invadindo a faixa de pedestre e deixando pedinte, deformidade e qualquer outro tipo de ameaça para trás.

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Bônus: desabapho poético

“São Paulo (…), o trânsito e a polícia já não me assusta como o preço do pingado. Dez aqui, vinte ali…” — Miró

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Non ducor, duco

Hoje começa minha penúltima semana em Curitiba. Como milhares de outras pessoas deste país, resolvi que devo tentar a vida em São Paulo. As razões são muitas, mas acho que podem ser resumidas em duas: a) quero uma cidade que me ofereça mais opções; e b) preciso acabar com a minha paz para tentar ficar em paz. Parece confuso, mas eu juro que faz sentido. Sendo assim, parto no dia 7. E que dê tudo certo.

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A ciganofobia do homem instalado

Como o homem instalado tem ódio de quem se move, de quem não tem residência fixa, emprego permanente e os cambaus, perseguem, espancam, expulsam dos lugares os que se atrevem a passar. Simplesmente passar. Puta que os pariu! Homens-pregos. A gente da viagem traz alegria, emoção, poesia, sonho… Porém (e sempre tem um porém), é justamente o que o homem instalado teme. Isso tudo perturba os hábitos seguros da sua rotina, o imobilismo do seu dia-a-dia. Um bando de vagabundos passando. Só por passar perturba a vidinha da comunidade. Provoca estremecimentos. A buceta da mulherada fica molhada, o caralho mole dos homens fica arrepiado… É por aí. Com certeza é por aí que se abalam as estruturas dos acomodados. Eles se defendem da liberdade com organizações, constituintes, leis, Estado, polícia, tudo o que fortalece um sistema político fixo de poder. E de repente um bando de vagabundo… são culpados. Culpados. Culpados. As inquietações… as velhas esperanças… as imaginações… essas coisas afloram. Ódio aos culpados…

O assassinato do anão do caralho grande — Plínio Marcos

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Leitura de bolso: “Dinossauros”, de David Norman

 Dinossauros, de David Norman

Passei os últimos dias lendo mais um livro da L&PM. Desta vez, um volume da série Encyclopædia sobre os animais que dominaram o nosso planeta até 65 milhões de anos atrás.

Eu nunca havia me dado ao trabalho de procurar algo um pouco mais sério sobre paleontologia. Confesso que achei a experiência tão confortante quanto ler sobre o universo: qualquer problema pessoal (e da condição humana) se torna insignificante perante a natureza (ou o cosmo), que simplesmente não se importa comigo, com você ou com qualquer espécime de Homo sapiens.

De certa forma, isso pode ser encarado como uma constatação desmotivadora. Mas o fato é que, apesar de tudo, nossa espécie tem lá sua importância. Surgimos há cerca de 500 mil anos e, desde então, tentamos entender o mundo em que vivemos. A tarefa é complicada e deve se prolongar por mais alguns milhões de anos, antes da nossa extinção. Mesmo assim, já fizemos descobertas incríveis e algumas delas dizem respeito aos antigos habitantes de nosso planeta.

O nascimento dos dinossauros

Iguanodons do Palácio de Cristal, em Londres

Iguanodons do Palácio de Cristal, em Londres (Fonte: Wikipedia)

Faz menos de 200 anos que começamos a colecionar e analisar fósseis de “dinossauros”, termo criado em 1841 pelo britânico Richard Owen para se referir ao grupo recém-descoberto de “répteis” extintos. Desde então, muita coisa mudou. O próprio Owen foi capaz de presenciar seus estudos serem refutados e, ainda hoje, um modelo completamente errôneo de iguanodon está exposto no Palácio de Cristal, em Londres. Mais do que uma escultura, aquele “lagartão” pode ser encarado como uma homenagem permanente ao esforço humano empregado para entender algo até então desconhecido.

E o iguanodon é fundamental nos primeiros capítulos do livro, já que é por meio do estudo sistemático dos fósseis desse animal que a paleontologia começa a surgir. Vale a pena comparar os esboços do animal propostos por Owen (e de seu rival Gideon Mantell) com o de Louis Dollo, cientista de Bruxelas que pode contar com novos fósseis e mais criatividade do que seus antecessores, já que reconstruiu o esqueleto do animal baseando-se em espécimes modernos de crocodilos e pássaros. Para isso, Dollo também levou em consideração os estudos de outro britânico famoso da época: Charles Darwin, nome que dispensa link para artigo de apresentação na Wikipedia.

Sherlock Holmes seria um ótimo paleobiologista

Sinosaureopteryx: note a penugem ao longo da coluna

Sinosaureopteryx: note a penugem ao longo da coluna (Fonte: Wikipedia)

Norman chega a citar o morador da Baker Street duas ou três vezes ao longo do livro e, de fato, há muita semelhança entre o trabalho do consultor investigativo e de cientistas que estudam fósseis de dinossauros. Basicamente, ambos precisam reconstruir cenários a partir de uma cena encontrada: com a análise dos restos de esqueletos milagrosamente conservados por milhões de anos, pesquisadores tentam descobrir como a criatura se locomovia, qual era a sua dieta, se o espécime era macho ou fêmea e até quão aguçados eram o olfato, visão e audição daquele animal.

E o estudo não se limita aos fósseis. Cientistas também analisam pegadas de dinossauros preservadas ao longo das eras e, com base nelas, é possível deduzir se o animal subia ou descia o morro, se estava correndo ou caminhando lentamente, qual era o tamanho de seus passos etc. Até mesmo cocô fossilizado é objeto de estudo. Dentro dos chamados cropólitos é possível encontrar restos de ossos de pequenos animais e plantas, que ajudam a desvendar mistérios sobre a alimentação dos dinos.

Fóssil incrível: protoceratops e velociraptor lutando

Fóssil de protoceratops e velociraptor lutando (Fonte: The Dinosaur Toy Blog)

Foi com essa linha de pensamento e com a descoberta de novas espécies, como o Deinonychus e o Archaeopteryx, que os dinossauros foram finalmente posicionados na escala evolutiva, ocupando um lugar entre os répteis e as aves. Mais tarde essa hipótese foi confirmada com fósseis ainda mais incríveis, que conseguiram preservar as marcas de penas e outros tipos de cobertura corpórea, como o do Sinosauropteryx.

O registro fossilizado desse dinossauro “chinês” é fantástico, mas não chama tanto a atenção quanto o da imagem acima: um protoceratops e um velociraptor que morreram simultaneamente, durante um combate. A descoberta é tão famosa que rendeu até brinquedo, devidamente catalogado pelo The Dinosaur Toy Blog.

Mais e mais curiosidades

Representação de um hadrossauro pintada por Heinrich Harder, em 1916

Representação de um hadrossauro pintada por Heinrich Harder, em 1916

Ao longo do livro, que custa menos que R$ 15, é possível encontrar exemplos de diversos registros como esses, além de dados curiosos que podem ajudar a impressionar alguém durante um encontro romântico. Experimente, por exemplo, contar para a “vítima” que os temíveis tiranossauros sofriam de gota, doença que também atinge muitas pessoas. Ou então que a dieta dos hadrossauros tornava-os mais propensos a terem câncer.

Se isso não trouxer a pessoa amada para os seus braços, pelo menos a leitura servirá como semente aleatória para a sua criatividade, principalmente se o assunto não estiver relacionado com o dia a dia. Na pior das hipóteses você acaba escrevendo um post besta para o seu blog.

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4 pérolas de Marisa Lobo, a psicóloga cristã

Faz pouco tempo que tive contato com o perfil de Marisa Lobo, psicóloga formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, moradora de Curitiba e, principalmente, defensora da família brasileira. Já tive, inclusive, a oportunidade de trocar alguns tweets com ela, que se demonstrou muito disposta a responder não só a mim, mas a outras dezenas de pessoas que participam da rede de microblogues.

Navegando pelas páginas que Marisa mantém na internet, encontrei mensagens e posts escritos por ela e que parecem dignos de algum comentário, mesmo que breve. Sendo assim, chega de blablabla e vamos ao que interessa: correr o risco de ser apenas mais um escarnecedor do mundão.

1. Homofobia é medo do igual: não existe

Pequeno bate-papo com Marisa Lobo

De todos os argumentos que tentam invalidar o preconceito contra não heteros, esse é, de longe, o mais fraco de todos. De acordo com a psicóloga cristã, se “homo” quer dizer “igual” e “fobia” significa “medo”, homofobia não existe, pois ninguém tem “medo do igual” ou “do comum”. Parece tolo que alguém acredite nisso, mas o fato é que já vi a mesma ofensa à inteligência alheia sendo repetida por outras pessoas.

Por isso, nunca é demais lembrar da polissemia, ou seja, a capacidade de uma palavra ou expressão ter mais de um significado. Se o argumento de Marisa Lobo estivesse correto, por exemplo, os dicionários seriam ainda mais grossos. Quer um exemplo? Teríamos que mudar o nome do pé de manga ou do tubo de borracha usado para regar plantas, pois a palavra “mangueira” não poderia ser usado em dois contextos diferentes.

Resumindo, não importa o que a palavra queria dizer originalmente, mas sim os muitos significados que ela ganhou ao longo ano. A língua vive.

2. Darwin se arrependeu antes de morrer

Darwin se arrependeu, diz Marisa

Mais uma afirmação equivocada. Antes, porém, um adendo: como Marisa não especifica o que diz a respeito de Darwin, assumo que ela esteja se referindo ao mito de que o naturalista britânico tenha se arrependido em seu leito de morte e se convertido ao cristianismo.

Pois aqui vai, doutora: Darwin era religioso e chegou até mesmo a estudar a teologia anglicana. Conhecia a bíblia muito bem. O que o afastou do cristianismo não foram, simplesmente, os estudos científicos ou a morte de sua filha Annie. O próprio naturalista assume que a perda de sua fé foi um processo gradual e complexo.

De qualquer forma, Darwin não se dizia ateu, mas agnóstico. E sobre o arrependimento em seu leito de morte, não passa de lorota. O filho do cientista, Sir Francis Darwin, já desmentiu a história em 1918.

3. Homossexualidade é disfuncional

A homossexualidade é disfuncional, pois não procria

A homossexualidade é disfuncional, já que não cumpre a função de procriação. Fiquei muito triste com esse tweet. E digo mais: foi pelos meus pais. Eles foram casados durante 30 anos e só tiveram dois filhos. Já que o sexo heterossexual serve para procriar, como argumenta Marisa em seu blogue, imagino que meus pais tenham transado apenas duas vezes nesse período. O que talvez explique o gosto deles por telenovelas e programas de auditório.

Problemas familiares à parte, fico preocupado com a formação científica ou percepção de mundo da psicóloga. Para começar, acho que é impossível contar o número de gays, lésbicas e bissexuais com filhos que existem no mundo. Pasmem: não heteros também procriam. Além disso, a homossexualidade não é um comportamento exclusivo do ser humano e está presente em mais de 400 espécies de animais, que vão de bisões a pinguins. Por isso, é muito provável que a homossexualidade tenha, sim, uma função. Se é que isso importa para fins de convívio social e direitos civis.

4. Verbete não catalogado: homofobia

O trecho a seguir foi copiado — com os devidos desvios gramaticais e ortográficos — de um post do blogue da psicóloga autora de três livros:

Não eu, não sou homo fóbica, na verdade nem sei direito o que esta palavra, que não existe em nosso dicionário, significa. Banalizaram a mesma. Se for analisar como se lê, homofobia é violência contra homens, não necessariamente homens gays, mulheres lésbicas.


Bom, o verbete se encontra no “pai dos burros” de bolso que tenho aqui (Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 3ª edição). E, por sinal, a palavra está definida como:

ho.mo.fo.bi.a: s.f aversão à homossexualidade e a homossexual

Sendo assim, se o problema for só a falta de um bom dicionário, coloco o meu à disposição da psicóloga. Inclusive, posso enviar pelo correio sem custo algum. Que tal?

Eu poderia continuar a rebater bobagens, principalmente quando ela replica argumentos completamente esquisitos a respeito de supostos “privilégios” que a comunidade LGBT tem tentado conquistar. Mas como meu senso de humor tem limite, fiquemos com apenas mais uma indignaçãozinha: PORRA, DILMA! NÃO QUEIMA O FILME, COMPA!

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Vacantia campi, uma criatura em extinção

Bando de Vacantia campi em seu habitat natural

Bando de Vacantia campi em seu habitat natural

Ameaçadas de extinção, as vagas de estacionamento público (Vacantia campi) têm como habitat natural os centros urbanos, locais onde quase não têm sido mais avistadas. Em regiões menos movimentadas, como bairros domiciliares e zonas rurais, ainda é possível observá-las com mais frequência, embora essa situação também esteja mudando.

A domesticalização de automóveis (Veiculum potissimum) e motocicletas (Duabus rotis) está diretamente ligada à diminuição da vaga, já que, dentro da cadeia alimentar das grandes cidades, essas criaturas se comportam como predadores vorazes da espécie ameaçada. Entre os problemas relacionados com essa atividade predatória desigual está, por exemplo, o impacto ambiental e mental causado pela diminuição do espaço público.

O desequilíbrio causado pelo extermínio da Vacantia campi também é preocupante. Como a diminuição da espécie está relacionada com a superpopulação de Veiculum potissimum e Duabus rotis, não demorará muito para que o ecossistema entre em colapso e os predadores passem a competir entre si, levando a uma drástica redução da própria comunidade.

Infelizmente, essa parece ser a única solução para o reaparecimento de bandos de Vacantia campi nas capitais brasileiras. Pesquisadores e cientistas ainda não conseguiram encontrar uma forma de favorecer o equilíbrio entre essas espécies, mas estudos avançados indicam que a inserção de um agente externo — a Birota urbana, conhecida popularmente como bicicleta — pode colaborar para o desenvolvimento positivo do ecossistema.

Outras maneiras de combater a extinção da vaga seria a criação, preservação e inserção de Automatum publica (pop.: transporte público) no mesmo habitat da espécie, além, é claro, do investimento em educação ambiental, que pode ajudar as próximas gerações de humanos a conviverem harmoniosamente com outras criaturas.

Enquanto isso, uma nova espécie (Vacantia captivitatis) tem sido criada em cativeiros apelidados de estacionamentos. Ao atingirem certo grau de maturidade, essas criaturas são alugadas temporariamente por donos de Veiculum potissimum e Duabus rotis. Tal atividade tem ajudado a suprir a ausência de Vacantia campi nos centros das cidades, mas o combate à extinção da vaga está apenas começando.

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