A ciganofobia do homem instalado

Como o homem instalado tem ódio de quem se move, de quem não tem residência fixa, emprego permanente e os cambaus, perseguem, espancam, expulsam dos lugares os que se atrevem a passar. Simplesmente passar. Puta que os pariu! Homens-pregos. A gente da viagem traz alegria, emoção, poesia, sonho… Porém (e sempre tem um porém), é justamente o que o homem instalado teme. Isso tudo perturba os hábitos seguros da sua rotina, o imobilismo do seu dia-a-dia. Um bando de vagabundos passando. Só por passar perturba a vidinha da comunidade. Provoca estremecimentos. A buceta da mulherada fica molhada, o caralho mole dos homens fica arrepiado… É por aí. Com certeza é por aí que se abalam as estruturas dos acomodados. Eles se defendem da liberdade com organizações, constituintes, leis, Estado, polícia, tudo o que fortalece um sistema político fixo de poder. E de repente um bando de vagabundo… são culpados. Culpados. Culpados. As inquietações… as velhas esperanças… as imaginações… essas coisas afloram. Ódio aos culpados…

O assassinato do anão do caralho grande — Plínio Marcos

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Leitura de bolso: “Dinossauros”, de David Norman

 Dinossauros, de David Norman

Passei os últimos dias lendo mais um livro da L&PM. Desta vez, um volume da série Encyclopædia sobre os animais que dominaram o nosso planeta até 65 milhões de anos atrás.

Eu nunca havia me dado ao trabalho de procurar algo um pouco mais sério sobre paleontologia. Confesso que achei a experiência tão confortante quanto ler sobre o universo: qualquer problema pessoal (e da condição humana) se torna insignificante perante a natureza (ou o cosmo), que simplesmente não se importa comigo, com você ou com qualquer espécime de Homo sapiens.

De certa forma, isso pode ser encarado como uma constatação desmotivadora. Mas o fato é que, apesar de tudo, nossa espécie tem lá sua importância. Surgimos há cerca de 500 mil anos e, desde então, tentamos entender o mundo em que vivemos. A tarefa é complicada e deve se prolongar por mais alguns milhões de anos, antes da nossa extinção. Mesmo assim, já fizemos descobertas incríveis e algumas delas dizem respeito aos antigos habitantes de nosso planeta.

O nascimento dos dinossauros

Iguanodons do Palácio de Cristal, em Londres

Iguanodons do Palácio de Cristal, em Londres (Fonte: Wikipedia)

Faz menos de 200 anos que começamos a colecionar e analisar fósseis de “dinossauros”, termo criado em 1841 pelo britânico Richard Owen para se referir ao grupo recém-descoberto de “répteis” extintos. Desde então, muita coisa mudou. O próprio Owen foi capaz de presenciar seus estudos serem refutados e, ainda hoje, um modelo completamente errôneo de iguanodon está exposto no Palácio de Cristal, em Londres. Mais do que uma escultura, aquele “lagartão” pode ser encarado como uma homenagem permanente ao esforço humano empregado para entender algo até então desconhecido.

E o iguanodon é fundamental nos primeiros capítulos do livro, já que é por meio do estudo sistemático dos fósseis desse animal que a paleontologia começa a surgir. Vale a pena comparar os esboços do animal propostos por Owen (e de seu rival Gideon Mantell) com o de Louis Dollo, cientista de Bruxelas que pode contar com novos fósseis e mais criatividade do que seus antecessores, já que reconstruiu o esqueleto do animal baseando-se em espécimes modernos de crocodilos e pássaros. Para isso, Dollo também levou em consideração os estudos de outro britânico famoso da época: Charles Darwin, nome que dispensa link para artigo de apresentação na Wikipedia.

Sherlock Holmes seria um ótimo paleobiologista

Sinosaureopteryx: note a penugem ao longo da coluna

Sinosaureopteryx: note a penugem ao longo da coluna (Fonte: Wikipedia)

Norman chega a citar o morador da Baker Street duas ou três vezes ao longo do livro e, de fato, há muita semelhança entre o trabalho do consultor investigativo e de cientistas que estudam fósseis de dinossauros. Basicamente, ambos precisam reconstruir cenários a partir de uma cena encontrada: com a análise dos restos de esqueletos milagrosamente conservados por milhões de anos, pesquisadores tentam descobrir como a criatura se locomovia, qual era a sua dieta, se o espécime era macho ou fêmea e até quão aguçados eram o olfato, visão e audição daquele animal.

E o estudo não se limita aos fósseis. Cientistas também analisam pegadas de dinossauros preservadas ao longo das eras e, com base nelas, é possível deduzir se o animal subia ou descia o morro, se estava correndo ou caminhando lentamente, qual era o tamanho de seus passos etc. Até mesmo cocô fossilizado é objeto de estudo. Dentro dos chamados cropólitos é possível encontrar restos de ossos de pequenos animais e plantas, que ajudam a desvendar mistérios sobre a alimentação dos dinos.

Fóssil incrível: protoceratops e velociraptor lutando

Fóssil de protoceratops e velociraptor lutando (Fonte: The Dinosaur Toy Blog)

Foi com essa linha de pensamento e com a descoberta de novas espécies, como o Deinonychus e o Archaeopteryx, que os dinossauros foram finalmente posicionados na escala evolutiva, ocupando um lugar entre os répteis e as aves. Mais tarde essa hipótese foi confirmada com fósseis ainda mais incríveis, que conseguiram preservar as marcas de penas e outros tipos de cobertura corpórea, como o do Sinosauropteryx.

O registro fossilizado desse dinossauro “chinês” é fantástico, mas não chama tanto a atenção quanto o da imagem acima: um protoceratops e um velociraptor que morreram simultaneamente, durante um combate. A descoberta é tão famosa que rendeu até brinquedo, devidamente catalogado pelo The Dinosaur Toy Blog.

Mais e mais curiosidades

Representação de um hadrossauro pintada por Heinrich Harder, em 1916

Representação de um hadrossauro pintada por Heinrich Harder, em 1916

Ao longo do livro, que custa menos que R$ 15, é possível encontrar exemplos de diversos registros como esses, além de dados curiosos que podem ajudar a impressionar alguém durante um encontro romântico. Experimente, por exemplo, contar para a “vítima” que os temíveis tiranossauros sofriam de gota, doença que também atinge muitas pessoas. Ou então que a dieta dos hadrossauros tornava-os mais propensos a terem câncer.

Se isso não trouxer a pessoa amada para os seus braços, pelo menos a leitura servirá como semente aleatória para a sua criatividade, principalmente se o assunto não estiver relacionado com o dia a dia. Na pior das hipóteses você acaba escrevendo um post besta para o seu blog.

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4 pérolas de Marisa Lobo, a psicóloga cristã

Faz pouco tempo que tive contato com o perfil de Marisa Lobo, psicóloga formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, moradora de Curitiba e, principalmente, defensora da família brasileira. Já tive, inclusive, a oportunidade de trocar alguns tweets com ela, que se demonstrou muito disposta a responder não só a mim, mas a outras dezenas de pessoas que participam da rede de microblogues.

Navegando pelas páginas que Marisa mantém na internet, encontrei mensagens e posts escritos por ela e que parecem dignos de algum comentário, mesmo que breve. Sendo assim, chega de blablabla e vamos ao que interessa: correr o risco de ser apenas mais um escarnecedor do mundão.

1. Homofobia é medo do igual: não existe

Pequeno bate-papo com Marisa Lobo

De todos os argumentos que tentam invalidar o preconceito contra não heteros, esse é, de longe, o mais fraco de todos. De acordo com a psicóloga cristã, se “homo” quer dizer “igual” e “fobia” significa “medo”, homofobia não existe, pois ninguém tem “medo do igual” ou “do comum”. Parece tolo que alguém acredite nisso, mas o fato é que já vi a mesma ofensa à inteligência alheia sendo repetida por outras pessoas.

Por isso, nunca é demais lembrar da polissemia, ou seja, a capacidade de uma palavra ou expressão ter mais de um significado. Se o argumento de Marisa Lobo estivesse correto, por exemplo, os dicionários seriam ainda mais grossos. Quer um exemplo? Teríamos que mudar o nome do pé de manga ou do tubo de borracha usado para regar plantas, pois a palavra “mangueira” não poderia ser usado em dois contextos diferentes.

Resumindo, não importa o que a palavra queria dizer originalmente, mas sim os muitos significados que ela ganhou ao longo ano. A língua vive.

2. Darwin se arrependeu antes de morrer

Darwin se arrependeu, diz Marisa

Mais uma afirmação equivocada. Antes, porém, um adendo: como Marisa não especifica o que diz a respeito de Darwin, assumo que ela esteja se referindo ao mito de que o naturalista britânico tenha se arrependido em seu leito de morte e se convertido ao cristianismo.

Pois aqui vai, doutora: Darwin era religioso e chegou até mesmo a estudar a teologia anglicana. Conhecia a bíblia muito bem. O que o afastou do cristianismo não foram, simplesmente, os estudos científicos ou a morte de sua filha Annie. O próprio naturalista assume que a perda de sua fé foi um processo gradual e complexo.

De qualquer forma, Darwin não se dizia ateu, mas agnóstico. E sobre o arrependimento em seu leito de morte, não passa de lorota. O filho do cientista, Sir Francis Darwin, já desmentiu a história em 1918.

3. Homossexualidade é disfuncional

A homossexualidade é disfuncional, pois não procria

A homossexualidade é disfuncional, já que não cumpre a função de procriação. Fiquei muito triste com esse tweet. E digo mais: foi pelos meus pais. Eles foram casados durante 30 anos e só tiveram dois filhos. Já que o sexo heterossexual serve para procriar, como argumenta Marisa em seu blogue, imagino que meus pais tenham transado apenas duas vezes nesse período. O que talvez explique o gosto deles por telenovelas e programas de auditório.

Problemas familiares à parte, fico preocupado com a formação científica ou percepção de mundo da psicóloga. Para começar, acho que é impossível contar o número de gays, lésbicas e bissexuais com filhos que existem no mundo. Pasmem: não heteros também procriam. Além disso, a homossexualidade não é um comportamento exclusivo do ser humano e está presente em mais de 400 espécies de animais, que vão de bisões a pinguins. Por isso, é muito provável que a homossexualidade tenha, sim, uma função. Se é que isso importa para fins de convívio social e direitos civis.

4. Verbete não catalogado: homofobia

O trecho a seguir foi copiado — com os devidos desvios gramaticais e ortográficos — de um post do blogue da psicóloga autora de três livros:

Não eu, não sou homo fóbica, na verdade nem sei direito o que esta palavra, que não existe em nosso dicionário, significa. Banalizaram a mesma. Se for analisar como se lê, homofobia é violência contra homens, não necessariamente homens gays, mulheres lésbicas.

Bom, o verbete se encontra no “pai dos burros” de bolso que tenho aqui (Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 3ª edição). E, por sinal, a palavra está definida como:

ho.mo.fo.bi.a: s.f aversão à homossexualidade e a homossexual

Sendo assim, se o problema for só a falta de um bom dicionário, coloco o meu à disposição da psicóloga. Inclusive, posso enviar pelo correio sem custo algum. Que tal?

Eu poderia continuar a rebater bobagens, principalmente quando ela replica argumentos completamente esquisitos a respeito de supostos “privilégios” que a comunidade LGBT tem tentado conquistar. Mas como meu senso de humor tem limite, fiquemos com apenas mais uma indignaçãozinha: PORRA, DILMA! NÃO QUEIMA O FILME, COMPA!

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Vacantia campi, uma criatura em extinção

Bando de Vacantia campi em seu habitat natural

Bando de Vacantia campi em seu habitat natural

Ameaçadas de extinção, as vagas de estacionamento público (Vacantia campi) têm como habitat natural os centros urbanos, locais onde quase não têm sido mais avistadas. Em regiões menos movimentadas, como bairros domiciliares e zonas rurais, ainda é possível observá-las com mais frequência, embora essa situação também esteja mudando.

A domesticalização de automóveis (Veiculum potissimum) e motocicletas (Duabus rotis) está diretamente ligada à diminuição da vaga, já que, dentro da cadeia alimentar das grandes cidades, essas criaturas se comportam como predadores vorazes da espécie ameaçada. Entre os problemas relacionados com essa atividade predatória desigual está, por exemplo, o impacto ambiental e mental causado pela diminuição do espaço público.

O desequilíbrio causado pelo extermínio da Vacantia campi também é preocupante. Como a diminuição da espécie está relacionada com a superpopulação de Veiculum potissimum e Duabus rotis, não demorará muito para que o ecossistema entre em colapso e os predadores passem a competir entre si, levando a uma drástica redução da própria comunidade.

Infelizmente, essa parece ser a única solução para o reaparecimento de bandos de Vacantia campi nas capitais brasileiras. Pesquisadores e cientistas ainda não conseguiram encontrar uma forma de favorecer o equilíbrio entre essas espécies, mas estudos avançados indicam que a inserção de um agente externo — a Birota urbana, conhecida popularmente como bicicleta — pode colaborar para o desenvolvimento positivo do ecossistema.

Outras maneiras de combater a extinção da vaga seria a criação, preservação e inserção de Automatum publica (pop.: transporte público) no mesmo habitat da espécie, além, é claro, do investimento em educação ambiental, que pode ajudar as próximas gerações de humanos a conviverem harmoniosamente com outras criaturas.

Enquanto isso, uma nova espécie (Vacantia captivitatis) tem sido criada em cativeiros apelidados de estacionamentos. Ao atingirem certo grau de maturidade, essas criaturas são alugadas temporariamente por donos de Veiculum potissimum e Duabus rotis. Tal atividade tem ajudado a suprir a ausência de Vacantia campi nos centros das cidades, mas o combate à extinção da vaga está apenas começando.

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Sobre a produção de um pornô curitibano

imagem via http://fetaolympus.com/

É famoso o apreço que o povo de Curitiba tem pela província, chegando a defender as pretensas virtudes da urbe a um nível praticamente agressivo. E, como é de conhecimento de todos, há muita sexualidade na agressão. É por isso, por exemplo, que pessoas disfarçam as próprias perversões com violência, afastando para longe de si o foco das atenções.

Mas apesar das tentativas de disfarce, todos sabem que a mais europeia das capitais possui, por debaixo dos panos, a sexualidade outrora desencanada dos índios brasileiros. Na Rua Cruz Machado, por exemplo, funciona uma espécie de Red Light District e, sob as copas das árvores da Getúlio Vargas, atuam travestis do tipo exportação. No Passeio Público, enquanto as crianças se encantam com os bichos enjaulados, os senhores pais cortejam cortesãs nos bancos do minizoo.

Obviamente, é preciso lutar contra a repressão da sexualidade do povo de Curitiba. O que se propõe, então, é uma exploração dessa situação de maneira positiva, de forma que seja possível guiar a cidade a uma sensualidade mais liberal. E já que o mercado de produtoras pornográficas ainda é muito fraco na capital, há grandes chances de que, com um pouco de investimento, a indústria ganhe sua forma e a cidade venha a ter os seus próprios “jeremys” e “saints”.

A priori, “Leite Quente” parece ser o melhor título para o primeiro pornô legitimamente curitibano. Além de ambiguamente jocosa no contexto sensual, a frase que melhor descreve o tal sotaque dos pinherais também pode ser usada como bordão durante as transas: “Quer leite quente, guria?”. Tudo phalado, é claro, da forma como se escreve.

Outros regionalismos também podem ser explorados. Caso a produtora decida investir no pornô desviante, por exemplo, pode usar como figura de linguagem o “pão com duas vinas”, um dos lanches preferidos das bandas de cá. E se uma cena acontecer dentro do ambiente escolar, é aconselhável que se faça repetidas menções à palavra “penal”.

Ainda pensando na linguagem empregada pela produção, é necessário que o roteirista seja capaz de reconhecer e de traduzir, com muita destreza, a brevidade ou ausência de diálogos entre desconhecidos. Porém, a representação da (falta de) cordialidade curitibana não deve ser tão fiel, ou corre-se o risco de arruinar o “clima” necessário para as cenas de sexo.

A filmagem de transas casuais em elevadores, por exemplo, deve ser evitada a todo custo. É de conhecimento geral que moradores e moradoras da capital paranaense não dispensam simpatias em ambiente tão hostil. Também devem ser cortadas expressões como “bom dia”, “obrigado” e “por favor: quanto mais seco o diálogo, melhor. Sempre sem arruinar o clima, claro.

O “efeito cebola” também pode ser aproveitado em longas cenas de striptease. As muitas camadas de roupas devem ser retiradas aos poucos, à medida que a situação começar a esquentar, como uma clara referência às bruscas mudanças climáticas que enchem o povo de blusas, japonas e botas.

O maior problema que essa nova indústria poderia encontrar — além do tempo ruim que impediria filmagens externas — é a temida autofagia curitibana. Por mais que alguns aleguem que esse seja um empecilho já superado, a verdade é que o sucesso do vizinho ainda é visto com desconfiança entre os cidadãos daqui.

Sendo assim, o processo de divulgação de um pornô legitimamente curitibano passará, necessariamente, por duas etapas: primeiramente, a obra venderá como água. Afinal, além do sexo, o filme também aborda o maior fetiche da cidade, que é a própria cidade. Depois, quando o público perceber que a produção é curitibana e que ela começa a ganhar o eixo RJ-SP, passará a desdenhá-la.

Infelizmente, a produção terá que contornar essa situação de alguma forma. Não será fácil, mas com perseverança e dedicação, a produtora voltará a ter o prestígio que merece na capital, principalmente depois do terceiro ou quarto lançamento bem recebido pela imprensa nacional ou estrangeira.

Entre trancos e barrancos, venceremos: já passou da hora de mostrar para o mundo que Curitiba também pode ser quente!

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Hercólubus: o planeta-cometa de V.M. Rabolú

Cartazes promocionais do livro de V.M. Rabolú

Cartazes promocionais do livro de V.M. Rabolú

Quem vive em Curitiba já deve ter visto, pelas bancas do centro, cartazes sobre “Hercólubus ou Planeta Vermelho”, livro de V.M. Rabolú que alerta sobre a ameaça de um planeta-cometa que há de se chocar contra nós.

Dia desses, Raquel me emprestou a cópia dela e prometi que faria uma resenha. Contudo, não sei se darei conta do trabalho. Essa obra, apesar de pequena, pode ser analisada sob tantos pontos de vistas que, por mais que eu me esforce, sei que estou fadado a falhar.

Sendo assim, gostaria de pedir para o estimado leitor e a querida leitora que, indiferentemente do meu texto, se dê ao trabalho de solicitar uma cópia do livro e tirar suas próprias conclusões. O envio é gratuito.

O ser interno do autor

V. M. Rabolú

V. M. Rabolú

A página da Wikipedia sobre o autor do livro é pequena e possui poucas informações. Mas a partir dela descobrimos que V.M. Rabolú é o “pseudônimo” de Joaquin Enrique Amortegui Valbuena: agricultor e ocultista colombiano.

Note que eu não gosto de usar aspas desnecessariamente. Aquelas, do parágrafo anterior, foram muito bem pensadas. Explico: Rabolú era discípulo de Samael Aun Weor, fundador do gnosticismo samaelino. Mas Weor é, na verdade, o nome do ser interno de Victor Manuel Gómez Rodríguez.

Me falta conhecimento ocultista para poder falar mais sobre essa particularidade. Talvez por isso eu tenha achado o detalhe tão artístico, assemelhando-se muito aos seres internos que habitavam Fernando Pessoa, por exemplo, poeta notavelmente e paradoxalmente místico e cético.

Paradoxal, inclusive, pode ser um dos adjetivos que permeiam o texto de Rabolú. Em alguns trechos, o autor — ou o seu ser interno — se contradiz em questão de poucas palavras, chegando inclusive a expor um pouco de ódio nessa mensagem de paz.

É possível traçar mais detalhes da característica psicológica do autor, mas temo ser leviano ao considerar essas suposições como componentes reais e não recursos estilísticos de um escritor que, porventura, queira apenas explorar o limite tênuo que há entre ficção e realidade, sendo que essa última é moldada de maneira ficcional por nosso cérebro real.

Narração febril e concisa

Em Rabolú, "choque de civilizações" ganha novo sentido

Em Rabolú, "choque de civilizações" ganha novo sentido

Nas poucas palavras que compõem a introdução da obra, Rabolú explica que escreveu o livro enquanto estava “deitado numa cama sem poder levantar nem sentar-me”. Mesmo assim, venceu a doença ou indisposição que o acometia e redigiu, com muito esforço, a mensagem que compõem esse livro, dedicando-a à Humanidade, sempre com H maiúsculo.

O tom inicial é de extrema desolação. Rabolú anuncia a existência de Hercólubus, planeta com tamanho de 5 a 6 vezes maior do que Júpiter. Depois, o autor fala sobre o descaso que cientistas e terrícolas fazem do astro que vem em direção ao nosso lar.

É impossível não se lembrar de Melancholia, último filme de Lars von Trier. Mas basta comparar as datas de lançamentos de ambas as obras para saber quem foi que inspirou a quem: a primeira edição de Hercólubus foi lançada em 1998 e a película de Trier chegou aos cinemas apenas neste ano (2011).

O narrador, que ataca de maneira peçonhenta a ciência e as potências mundiais terrícolas, chega a detalhar passos do processo de aproximação do astro invasor em nossos Sistema Solar. Faz, contudo, não com o propósito de aterrorizar, mas de prevenir, já que sofre de angústia pela “pobre Humanidade”.

Teria Trier se inspirado no livro de Rabolú?

Teria Trier se inspirado no livro de Rabolú?

No geral, a narração é concisa e sem detalhes técnicos que possam explicar ou aprovar a veracidade dos fatos. Rabolú se atém ao alarme e, de maneira quase desordenada, febril, interrompe o assunto sobre o planeta vermelho e passa a descrever a vida e a sociedade de Vênus e Marte, seguindo depois para algumas reflexões sobre a morte e as técnicas de desdobramento astral.

Não fica clara a forma como esses temas se interligam, mas é possível deduzir que o desdobramento é uma das maneiras de se preparar para o inevitável choque de Hercólubus contra a Terra.

Vênus e Marte: sociedades bolsonaristas

Vênus e Marte, nossos vizinhos

Vênus e Marte, nossos vizinhos

Graças a esse desdobramento astral, Rabolú mantém contato com seres extraterrestres, tendo já visitado as sociedades de nossos vizinhos: Vênus e Marte. O escritor diz não ter “palavras para descrever a sabedoria, a cultura e a vida angélica que levam esses seres”.

Porém, ainda perturbado pela incerteza que divide realidade e ficção, me sinto um pouco preocupado com esses povos. Logo no início de sua descrição, Rabolú faz questão de ressaltar que em Vênus não existem “barrigudos”, emendando logo em seguida que também não se vê “pessoas desfiguradas”.

Como se não bastasse, o narrador faz questão de dizer que em tal planeta também não há “fornicação como aqui, pois os terrícolas são piores do que as bestas”. Nesse ponto, notei uma espécie de reminiscência da culpa cristã em relação ao sexo, que se confirma quando Rabolú afirma não existir  ”degenaração sexual como há aqui, que já até os senhores padres estão casando homossexuais, porque o homossexualismo neles não existe. São homens verdadeiros e mulheres verdadeiras”.

Cupido, Marte e Vênus, por Paolo Veronese

Cupido, Marte e Vênus, por Paolo Veronese

É claro que não podemos usar o termo “homossexual” — criado pela medicina terrícola para definir supostos desvios de conduta — em uma sociedade tão alienígena. Mas me preocupo pelo ponto de vista de Rabolú.

A vida em Marte é muito parecida com a de Vênus, segundo o autor. Em ambas, a terra é um bem comum e lá não existe o conceito de posse, de “eu tenho algo”. Também não são necessários passaportes e permissões para fazer algo ou ir a algum lugar do planeta. Se em Vênus os habitantes usam uniformes, em Marte usam também escudos e capacetes: mas não praticam a guerra entre eles, apenas contra o mal. Infelizemnte, Rabolú não define, em momento algum, o que é o mal.

A morte e o desdobramento astral

De acordo com o autor, quem sonha faz um desdobramento astral involuntário

De acordo com o autor, quem sonha faz um desdobramento astral involuntário

O capítulo sobre a morte é bastante confuso. Temo não ter a devida formação ou conhecimento para falar a respeito dele. O conceito de alma é traduzido aqui como “Chispa Divina” e o ser humano é comparado a uma árvore. A partir daí, a febrilidade do narrador se torna hermética demais. Resta em minha mente apenas o apelo que se deve fazer quando algum defeito se manifestar por meio da mente, do coração ou do sexo: “Minha Mãe, tira-me este defeito e desintegra-o com a tua lança”.

Para a prática do desdobramento astral, Rabolú recomenda a entoação de alguns mantrans, como LA RA S e FARAON. É possível conferir o cantar correto no site da Associação Alcione.

Conclusão metalinguística

Terminei a leitura com a sensação de que li uma obra carregada de referências a si própria, sendo inclinado a considerá-la como um exercício de ficção ou escrita criativa, cujo tema principal é o humor.

Não digo isso como quem quer ridicularizar o livro e seus seguidores, mas me baseando em um detalhe que pode acabar passando despercebido por alguns. Na última capa, V.M. Rabolú escreve:

O que afirmo neste livro é uma profecia a muito curto prazo, porque me consta o final do planeta, conheço-o. Não estou assustando, senão prevenindo, porque tenho angústia por esta pobre Humanidade, já que os fatos não se fazem esperar e não há tempo a perder em coisas ilusórias.

São as últimas palavras que, ao meu ver, denunciam o inteligente teor humorístico da obra. É como se Rabolú, para nos ensinar que não devemos perder tempo com “coisas ilusórias”, tivesse nos apresentado uma profecia que é, por si só, totalmente ilusória. A graciosidade dessa metapiada é o que torna o livro tão singular.

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Holga 120N e filme P&B ISO 200

No álbum acima você encontra as 12 poses do filme de 120 mm, ISO 200, que usei com a Holga 120N durante o mês de setembro. Não há nada que se aproveite realmente, mas pode servir de referência para saber como se parecem as fotos tiradas com essa câmera. O triste mesmo continua sendo a hora de pagar: revelação, copião e digitalização custaram quase R$ 40.

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Brasil Colônia, Pokémon e testículo de jacaré

Imagem da primeira edição do livro

Imagem da primeira edição da História de Gândavo

Tenho lido um livro que, apesar de importante, parece pouco conhecido do brasileiro. Se trata de História da província de Santa Cruz, relato de Pero de Magalhães de Gândavo, escrito 76 anos após a chegada de Cabral em nossa terra.

O fato de ser uma obra quinhentista já a torna rara, mas a idade não é só o que conta. Esse é considerado o livro que “inaugurou a historiografia e a geografia brasileira”. Claro que existem relatos anteriores a esse, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, mas Gândavo foi o primeiro a escrever com a visão de um historiador.

Porém, não é à toa que o texto é pouco conhecido. Depois de ter sido publicado, em 1576, por Antônio Gonçalves — primeiro editor de Os Lusíadas —, o livro foi convenientemente esquecido pela política de segredo da coroa portuguesa. A ideia era evitar que estrangeiros tivessem acesso às informações valiosas sobre a nova província.

Capa da edição da Jorge Zahar Editor, que estou lendo

Capa da edição da Jorge Zahar Editor, que estou lendo

Foi só em 1837, com a publicação da tradução francesa do historiador Henri Ternaux, que o texto voltou a ser popular, tornando raros os exemplares de 1576, que logo foram adquiridos por bibliófilos.

A edição que tenho em mãos, e que conheci nessas horas matadas dentro da Biblioteca Pública do Paraná, é de 2004 e foi publicada pela Jorge Zahar. Além das notas e da introdução à obra, o texto passou por uma adaptação para os leitores de hoje, feita por Sheila Moura Hue e Ronaldo Menegaz.

E a leitura tem rendido pesquisas paralelas bem divertidas. Depois de passar pela história do descobrimento e de descrever a geografia, as capitanias e os governos de então, Gândavo trata das plantas e dos animais da província. E é aí que a leitura fica divertida. Pelo menos para um leigo como eu.

Plantas e frutas

A mandioca, domesticada pelos índios, abre o capítulo sobre as plantas

A mandioca, domesticada pelos índios, abre o capítulo sobre as plantas

Obviamente, o capítulo é aberto com a raiz que aqui “se come em lugar de pão”: a mandioca. O autor fala da domesticação da planta pelos índios e ressalta diversas formas de preparo do tubérculo, mesmo das espécies “peçonhentas”.

Depois, ressalta que aqui temos uma planta que acreditava ter vindo de São Tomé e que muitas pessoas se sustentam da fruta que ela dá. “É mui tenra e não muito alta, não tem ramos, senão umas folhas que terão seis ou sete palmos de comprido”. É a banana, que Gândavo diz ter “feição de pepinos e criam-se em cachos”.

Yes, we have banana!

Yes, we have banana!

Na nota aprendi o nome tupi: pacova, que significa “folha de enrolar”. Aliás, as folhas ganham destaque nos relatos de outros autores da época, que alegam serem tão frescas que servem para acalmar a febre de doentes que se deitam sobre elas.

E o capítulo prossegue. São descritas castanhas, cajús,  algumas árvores, os cheirosos ananases (abacaxis), que nascem como alcachofras e cheiram muito bem (“em tupi, nanã, cheira-cheira”), e termina falando da dormideira, por causa da característica curiosa de fechar as folhas sempre que alguém toca nela.

Os animais ou A parte em que cito Pokémon

Aaawwnn!

Aaawwnn!

Para começar, algo que eu desconhecia: o único bicho domesticado pelos índios foi o pato-do-mato. Cavalos e gados foram trazidos de Cabo Verde, pelos portugueses. E depois de falar sobre animais de carne saborosa, como a capivara, Gândavo cai em um dos bichos mais legais: a anta, conhecida em tupi como tapir.

(Tentarei não mencionar dados sobre o pênis do animal, que vi quando era criança, num passeio ao zoológico de Curitiba. Enfim, foco!)

O que me chamou a atenção foi a etimologia da palavra anta, que uma nota diz ser de origem árabe. Eu tentei rastrear pela internet, mas o mais perto que cheguei foi da palavra “Lamt”, indicada pelo blog Origem da Palavra. Procurei no dicionário Hans Wehr, mas não encontrei nada parecido. Problema de transliteração, talvez. Para piorar, o artigo árabe da Wikipedia se refere ao animal como “tabirat”, que parece uma variação de “tapir”. Se alguém souber de uma referência mais concreta, me conte, por favor.

Drowzee, o comedor de sonhos

Drowzee, o comedor de sonhos

Lendo mais sobre a anta, aprendi que no folclore japonês elas possuem a habilidade de comer o sonho das pessoas. Portanto, como sagazmente percebeu a querida Bruna Fujie, não é à toa que o pokémon Drowzee se alimenta dessa forma.

Depois de alguns elogios às carnes da paca, da cutia e do tatu, de afirmar que a onça é um tigre e de tirar sarro da preguiça (“ainda que ande quinze dias aturados, não vence a distância de um tiro de pedra”), Gândavo também fala do tamanduá e de algumas espécies de macacos. Inclusive, conta que os micos-leões-dourados morrem durante a viagem quando tentam levá-los para fora do Brasil.

O autor também fala das cobras, inclusive com dados fantásticos sobre algumas delas, que teriam grandes asas ou a capacidade de se regenerar. Mas a grande revelação vem da descrição dos “lagartos mui grandes” que, provavelmente, seriam os jacarés.

Gândavo conta que os testículos desses bichos “cheiram melhor que almíscar, e a qualquer roupa que os chegam fica o cheiro pegado por muito dias”. Para mim, o fato é inédito. O Pe. Fernão Cardim vai além e diz que o esterco do bicho também é bom para manchas oculares.

As aves (extintas) de Santa Cruz

No capítulo sobre as aves, achei curiosa a citação dos galos do Peru, que com o passar do tempo passaram a ser chamados apenas de perus.

Mas o que entristece é tomar conhecimento dos anapurus. Eram papagaios grandes, de muitas cores e que viviam no sertão. Se acostumavam tanto ao ambiente doméstico que chegavam a se reproduzir sem problemas em cativeiro. Cada exemplar de anapuru valia de dois a três escravos. E, por tudo isso, a espécie foi extinta e o pássaro multicolorido nunca foi identificado pelos pesquisadores modernos.

Bestas dos mares

O monstro morto na capitania de São Vicente

O monstro morto na capitania de São Vicente

Gândavo também fala dos peixes de Santa Cruz, dando especial atenção a um mamífero aquático, o peixe-boi. Engraçado saber que eles comiam o animal nos dia em que a igreja determinava ser para se alimentar de peixes. Elogiavam a carne, diziam que se parecia tanto com a da vaca que até causava algum desconforto moral comê-la nesses dias santos.

Agora, começarei o capítulo em que ele descreve um monstro marinho morto na capitania de São Vicente, em 1564. É o bicho da imagem aí de cima. Mas como o livro é pequeno, com cerca de 180 páginas, não entrarei em detalhes para não tirar a graça da leitura que você pode querer fazer.

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Tentativa de podcast: Geek Out!

Já faz alguns meses que alguns amigos e eu resolvemos começar um podcast com temática geek/nerd. Na verdade, até parece mais um bate-papo público, com direito a muita falação de bobagens e piadinhas infames. De qualquer forma, este post é para avisar que, depois de alguns contratempos, conseguimos, finalmente, publicar um segundo episódio Beta.

Ainda estamos pegando o jeito, tentando melhorar a qualidade do áudio e da forma como abordamos os assuntos, mas acho que já está, pelo menos, minimamente aceitável. Porém, como disse, o Geek Out! ainda está em fase Beta. Então, se por acaso você acabar escutando esses 40 minutos de falatório, deixe um comentário dizendo o que achou e o que poderia ser melhorado.

Nós agradecemos!

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It’s Bloomsday!

ReJoyce!

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