
Howdy!
Você pode não concordar com as pautas dos grevistas, as táticas utilizadas, os dois-ou-três que jogaram tijolos, os três-ou-quatro que “provocaram”, quem parou-o-trânsito-e-te-fez-chegar-atrasado-no-trabalho, os rumos do movimento estudantil, e a representatividade das assembléias.
Chame de baderneiros, comunóides folgados, gente que não quer estudar e não dá valor à vaga que tem, massa de manobra de partidos esquerdistas radicais, depredadores de patrimônio público, contraventores da constituição, ou qualquer outro jargão do gênero.
Apesar d’eu discordar diametralmente, é um direito teu pensar assim. Direito, percebe?! De se expressar, de reivindicar, de chamar atenção pro que tu acha importante, de exigir que haja a possibilidade de debate, ou de simplesmente ficar revoltadinho porque os gritos de “alguéns” pelo que acham importante atrapalharam teu dia-a-dia e tua aulinha no ICB.
Mas apoiar tal ato ditadorial? Achar que vale tudo para preservar a “ordem”? Que é válido utilizar sprays de pimenta e bombas de efeito moral como instrumentos políticos?
É cuspir em cima de toda forma de liberdade que existe - ou que deveria existir. Não é “apenas” um crime, não é só porque faz todos aqueles que um dia já lutaram e/ou morreram pelo direito de se manifestar se revirarem nos caixões - ou cemitérios clandestinos.
É você, ser humano (?), achar que tudo bem um outro ser humano APANHAR e ser PERSEGUIDO porque ele defende algo com o qual você não concorda e de alguma forma fez com que você se sentisse prejudicado. APANHAR e ser PERSEGUIDO. Daí pra ser assassinado/torturado porque discorda é um passo. Pequeno, eu diria.
A foto e o texto são tão bons, que me senti obrigado a replicar. Principalmente porque o que mais me assusta nesta história são os comentários web afora parabenizando a ação policial.
De novo, a Lua
Cheguei em casa mais cedo, desci com o telescópio e tirei algumas fotos da Lua com os equipamentos que tenho em mãos.
Usei o método afocal com uma Nikon Coolpix L1 e um newtoniano de 200mm. Basicamente isso siginifica que encostei a lente da câmera na ocular e tirei fotos. Para melhorar um pouco as imagens, habilitei o modo macro e coloquei a compensação de exposição em -2, por causa do brilho forte da Lua.
Estas duas primeiras fotos eu tirei usando uma ocular de 32mm. Clique nas fotos para vê-las em uma resolução maior:
Esta, mais aproximada, foi tirada através de uma ocular de 9.5mm:
Agora estou tentando identificar todas as crateras e mares que aparecem nas fotografias.
A Lição de Bob
Em 1965, Bob Kennedy, irmão do presidente dos Estados Unidos, visitou a PUC, Pontifícia Universidade Católica, do Rio. Um grupo de estudantes o encostou na parede: “Como explica o racismo no seu país?”.
Bob saiu-se bem, perguntou para a moçada:
“Não vejo nesta reunião um negro sequer.”
Bob foi assassinado três anos depois. A PUC de São Paulo levou trinta anos para ter os primeiros alunos negros, 200 bolsistas indicados pelo movimento negro.
Fonte: Os Negros #5 - Resistência e Rebeliões II; Caros Amigos Editora
Logorréia
Aviso: estou centralizando todos os posts sobre literatura e afins no blog logorreia.com.br.
DIY: Óculos 3-D
Esses dias encasquetei que queria ter um par de óculos 3-D, daqueles antigos e que parecem ter saído de um clip do Devo. Fui atrás de folhas de acetato translúcidas nas cores vermelho e ciano, mas não encontrei. Comprei papel celofane azul e vermelho, mas o resultado foi péssimo: a tinta usada para colorir o celofane prejudicava a nitidez da imagem.
Hoje, na sala de trabalho, encontro duas caixinhas de Tic Tac em cima do meu teclado: uma vermelha e uma azul. Era um desses insights do Claudio que sempre dão certo. Na hora já carregamos uma imagem anaglífica no Flickr, seguramos as caixinhas na frente dos nossos olhos e comprovamos que realmente funcionava.
Sendo assim, aqui está um modelo caseiro de óculos 3-D, feito com cartolina e embalagens vazias de Tic Tac nos sabores Extra Forte e Cereja Extra Mint. O tom das lentes não é exatamente igual ao utilizado nos óculos comercializados (você encontra no Mercado Livre 4 unidades por R$10 + frete), mas é próximo o suficiente para causar a sensação de profundidade das imagens 3-D:
Depois de construir o seu, é só fazer algumas buscas na internet (anaglyph, 3d, etc.) e brincar com o conteúdo disponível. Eu recomendo a visualização deste vídeo e desta foto. Importante: lembre-se de posicionar a lente azul para o olho direito.
As embalagens vazias usadas para este modelo foram gentilmente cedidas pelo Claudio e pelo Santiago que, sabe-se lá por qual motivo, não jogam fora depois de comerem todas as balinhas.
Fotografias da STS-125
O Bad Astronomy postou hoje sobre as fotos que o astrofotógrafo Thierry Legault tirou do Sol:
As silhuetas que vimos na foto acima são nada mais do que o ônibus espacial Atlantis e o telescópio Hubble durante a STS-125!
Na foto a seguir, podemos ver Atlantis transitando em frente ao sol antes de “apanhar” o Hubble:
Para tirar estas fotos, Theirry usou um telescópio de 13cm e uma câmera capaz de tirar 16 fotos com tempo de exposição de 1/8000. Sensacional!
Puzzle de Lewis Carroll
Hoje parece ser o dia. O Neto e eu estávamos na Saraiva, tomando refrigerante e folheando um livro com a obra completa de Lewis Carrol, quando topo com este poema/puzzle e fico encasquetado:
PUZZLE
(To Mary, Ina, and Harriet or “Hartie” Watson.)WHEN .a.y and I.a told .a..ie they’d seen a
Small ..ea.u.e with .i…, dressed in crimson and blue,
.a..ie cried “’Twas a .ai.y! Why, I.a and .a.y,
I should have been happy if I had been you!”Said .a.y “You wouldn’t.” Said I.a “You shouldn’t -
Since you can’t be us, and we couldn’t be you.
You are one, my dear .a..ie, but we are a .a..y,
And a.i…e.i. tells us that one isn’t two.”
Logo de cara o Neto matou as três primeiras palavras: .a.y, I.a e .a..ie são Mary, Ina e Hartie, as pessoas para quem Carroll está dedicando o quebra-cabeça. Depois de ler e reler várias vezes, eu pensei que talvez as próximas palavras sejam creature, wings e fairy (para ..ea.u.e, .i… e .ai.y). Mas o resto simplesmente não sai. Já pesquisei no Google e, sinceramente, não sei se existe uma solução. Talvez a graça esteja em ter “variáveis” no meio do poema.
Alguém sabe se este puzzle tem resposta? Ou então, alguém se arrisca a terminar de solucioná-lo?
UPDATE: Achei a solução. Se você não conseguiu resolver sozinho e quer dar uma espiada na resposta, ela está aqui. Mas antes, vale a pena se esforçar. Faltaram só duas palavras na nossa tentativa. :-)
Sator arepo tenet opera rotas
Lendo sobre palíndromos na internet, encontrei este que é bastante curioso: Sator arepo tenet opera rotas. A frase, em latim, foi traduzida no site como Sator [a man's name] holds the handles of the plow in plowing. Em português ficaria Sator segura as guias do arado ao arar. Na Wikipedia a tradução é diferente:
Sator - semeador
Arepo - nome próprio
Tenet - ele segura
Opera - trabalha, esforça, cuida
Rotas - rodas
Duas possíveis traduções, de acordo com o artigo, são: O semeador Arepo segura as rodas com esforço e O semeador Arepo guia com suas mãos (trabalha) o arado (rodas).
Um palíndromo é uma frase que pode ser lida tanto da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda. O interessante deste palíndromo é que, além disso, as primeiras letras de cada palavra formam a primeira palavra, as segundas letras de cada palavra formam a segunda palavra, e assim vai.
Desta forma, organizado em um quadrado, é também possível ler a mesma frase verticalmente. Este palíndromo é mundialmente conhecido como o Quadrado de Sator:

Quadrado de Sator
O registro mais antigo deste palíndromo foi encontrado nas ruínas de Herculano, cidade soterrada sobre as cinzas do Monte Vesúvio no ano 79.
Como bem notado pelo Caio, o Quadrado de Sator também é associado ao cristianismo, à numerologia e à magia, mas pelo bem da sanidade pública, prefiro ressaltar o palíndromo apenas pela sua curiosidade lingüística.
Isso me lembra também uma lição que envolve o soneto 129 de Shakespeare, que foi apresentado e explicado esses dias em uma das aulas da Oficina de Textos Literários que estou cursando:
The expense of spirit in a waste of shame
Is lust in action: and till action, lust
Is perjured, murderous, bloody, full of blame,
Savage, extreme, rude, cruel, not to trust;
Enjoyed no sooner but despised straight;
Past reason hunted; and no sooner had,
Past reason hated, as a swallowed bait,
On purpose laid to make the taker mad.
Mad in pursuit and in possession so;
Had, having, and in quest to have extreme;
A bliss in proof, and proved, a very woe;
Before, a joy proposed; behind a dream.
All this the world well knows; yet none knows well
To shun the heaven that leads men to this hell.
Roman Jakobson notou que no primeiro verso do soneto, as palavras shame, expense e spirit formam a pronúncia do nome Shakespeare. O pensador russo também percebeu que se trocarmos well por Will (diminutivo de Willian) nos últimos dois versos conseguimos uma nova leitura do soneto.
Moral da história: palíndromos e anagramas são coisas para doidões!
Ler ou não ler?
Há uns dois meses, comprei um DVD com uma encenação de Hamlet pelo Teatro Oficina. A sinopse dizia que esta versão do Zé Celso, “embalada por bossa-nova, batuque, samba e rock”, não tinha perdido “a força dramática”, mas sim colocado em evidência a “contemporaneidade do texto e intensidade do tema”.
Eu nunca tinha lido Shakespeare. Não sei ao certo a razão, mas desconfio que seja por causa dessa aura de erudição que atribuem a ele, como se a sua obra fosse intocável, difícil de ler. Mas eu tinha comprado este DVD, o material parecia bom e, na minha cabeça analítica, eu precisava ler antes a peça para poder compreender melhor as “experimentações” que o Teatro Oficina tinha feito. Comprei então a edição de Hamlet publicada pela L&PM, traduzida por Millôr Fernandes e que custa dez reais em qualquer livraria ou banca de revista.
Comecei a ler meio desconfiado e, algumas páginas depois, eu já estava rindo, adorando a leitura. No começo cheguei até a desconfiar da tradução do Millôr, pensando que o tom humorístico do texto era culpa da tradução. Conferi com o original e gostei mais ainda da tradução. Hamlet é trágico, mas nem por isso é aborrecido. E tem seus momentos de humor, sim!
Li Hamlet rapidinho e, no outro dia, já comprei A Megera Domada (The Taming of the Shrew), também traduzido pelo Millôr. Desta vez eu tive um pequeno problema: graças ao uso da peça em uma novela da Rede Globo, o Petrúquio aparecia para mim com a cara do Eduardo Moscovis. Mesmo assim, foi recompensador ler Shakespeare de novo.
É claro que existe profundidade na obra de Shakespeare. Existem diversos trabalhos acadêmicos que provam isso, alguns até explorando a personalidade e a sanidade de alguns personagens, como pude constatar no Abril de Shakespeare. Mas as peças de Shakespeare também servem para aqueles que procuram apenas entretenimento, afinal, ele escrevia suas peças para o povo.
Depois, fui fisgado pelos Sonetos. A culpa foi do La République des Livres, que publicou um artigo sobre a dedicatória misteriosa que a obra traz. Li alguns dos sonetos online, novamente comparando traduções e o texto original, e depois cheguei a listar todos as obras do bardo que eu espero ler. Mas antes de prosseguir com as leituras, eu precisava encarar Ham-Let, a montagem em DVD que eu havia comprado.
Aproveitei uma manhã de sábado e comecei a assistir o primeiro disco. A primeira impressão positiva que eu tive foi da disposição do palco e da platéia, tudo meio misturado, sem aquela separação arcaica de público e espetáculo. A peça também começa com um prelúdio, incluindo o nascimento performático do príncipe, como se estivessem passando um filme em fast forward até o ponto da primeira cena do livro, onde os guardas avistam, pela primeira vez, o fantasma do rei assassinado.
A segunda impressão positiva foi a mistura de elementos pop e contemporâneos, como rock, blues, projeção de vídeo e legendas, personagem com a cara do Sílvio Santos e algumas descontextualizações. Além disso, a peça não tem pudores e está cheia de nudez, homoerotismo e até masturbação, tudo com o devido close durante as filmagens. Outra surpresa que eu não esperava encontrar era o Pascoal da Conceição, o Dr. Abobrinha do Castelo Rá-tim-bum, interpretando Polônio, o pai de Ofélia.
Depois de 1:58h, a primeira parte acabou. Quando coloquei o segundo disco, minha cabeça explodiu: ainda restavam mais três horas de filme! Ham-Let é uma peça com cinco horas de duração! Tive que esperar uma semana para ter tempo livre e poder assistir o segundo disco. Valeu cada segundo, valeu cada centavo dos R$ 29,90 que paguei no DVD.
Além da peça, o primeiro disco traz dois extras que não perdi tempo em assistir: uma entrevista com Zé Celso, passeando com o elenco pelas ruas de São Paulo com direito a vinho e bexigas verdes, e um documentário sobre a trajetória do Teatro Oficina, com depoimentos de Zé Celso, Marcelo Drummond e Camila Mota. Por causa desses extras, li O Rei da Vela.
Com um DVD, dois pocket books, uma palestra e a internet, eu aprendi e confirmei que:
- Nunca devemos nos curvar diante da “elitização” de uma determinada obra ou autor, principalmente no teatro;
- Precisamos ignorar nossos preconceitos quando o assunto for arte. Experimentar primeiro, reclamar depois;
- Nunca é tarde para “descobrir” o Teatro Oficina. O Oficina é um patrimônio, ou um anti-patrimônio, muito valioso;
- A sensação de descoberta e de estranhamento ao ler um livro, é impagável;
- Uma coisa leva à outra;
- Ler Shakespeare é sensacional!
Rabiscado
Minha mãe esperava uma menor, meu pai ainda não viu, meu irmão e meus amigos gostaram muito. Eu adorei. E sim, dói. Principalmente na região próxima à articulação do joelho.
Acho que não tem muito o que explicar sobre a tatuagem. O mar e a caravela estão cheios de significados e metáforas que todo mundo conhece. Só adicionei uma contelação no céu, a Mons Mensae. Esta constelação do hemisfério sul foi criada e batizada pelo astrônomo francês Lacaille porque ele a observava de cima da Table Mountain, a primeira e única montanha que subi até hoje. E apesar de ser a mais fraca das 88 constelações, pedi para adicioná-la também para representar a astronomia amadora.
A idéia agora é fazer outra, do mesmo tamanho, na panturrilha esquerda; um farol. Mas por enquanto vou cuidar bem desta e pensar no dinheiro e na disposição para passar mais duas horas de agulhadas na pele. Para referência, quem me tatuou foi o Paulo Cequinel, do estúdio Ink Sapiens.
Aproveitando, uma história de marujo. O Kapil, couch surfer de Cape Town que estava em Curitiba, me avisou várias vezes: a ship with no name means bad luck. Dito e feito, batemos o carro na volta. Só lembro de ter visto uma moto em alta velocidade e depois sentir a batida na porta do passageiro, aonde eu estava sentado. Só tive alguns cortes superficiais e bem pequenos na mão direita, mas foi bem impactante, literalmente, ver uma moto vindo rapidamente na minha direção.
Felizmente ninguém teve ferimentos graves, nem mesmo o motoqueiro. Ele só teve cortes no braço esquerdo, mas já recebeu alta do hospital. Dos males, o menor. Dos azares que poderíamos ter, tenho certeza de que foi o menor.













