Tomei antidepressivos, pela primeira vez, por volta de 15 ou 16 de junho de 2007. Não que eu me apegue a detalhes, mas é que esse evento aconteceu um dia antes de outro evento importante: show do Tom Zé no Teatro da Caixa, em Curitiba. Não fosse o medicamento, tenho certeza de que não poderia ter assistido ao show com tanto deleite.
Tomar esse tipo de medicamento é uma experiência engraçada. A primeira sensação que estranhei — além dos inúmeros bocejos ao longo do dia — foi algo que só consigo explicar por analogia. Depois de dois comprimidos antes de dormir, acordei com a sensação de que algo que fazia parte do inferno da minha cabeça havia desaparecido repentinamente. Porém, eu continuava sentindo a sua presença, por mais ausente que estivesse. Algo que, na minha ignorância, sempre me pareceu semelhante à descrição da Síndrome do Membro Fantasma: amputado, mas ainda presente.
Com o tempo, essa sensação desapareceu. Os medicamentos foram essenciais na conquista de uma vida mais tranquila e saudável. Graças a essa ajuda consegui realizar feitos que, apesar de comuns e banais, se tornariam um verdadeiro martírio caso fossem “a seco”. Entre eles estão milhares de quilômetros viajados em carro ou avião, ir e voltar do trabalho sem ataques de ansiedade, dormir melhor, exorcizar uns diabinhos etc. Claro que, além do remédio, eu também tive minha participação no processo, enfrentando aquilo que eu achava ser necessário.
Porém, como o acidentado que precisa momentaneamente de muletas, chega uma hora em que aquele apoio acaba se tornando mais incômodo do que útil. Agora, depois de cinco anos, chegou a hora de tentar largar os “tarjinhas” e, por incrível que pareça, isso tem me levado a uma fase bastante agradável de redescobertas. Pelo menos por enquanto.
Para começar, me sinto com muito mais energia. Não tenho sonolência durante o dia, acordo de bom humor e, às vezes, até antes de soar o alarme do despertador. Tenho aproveitado o pique extra para me dedicar a projetos pessoais que sempre tive vontade de fazer. Me arriscaria a dizer que algumas mudanças anteriores já podiam ser interpretadas como sintomas de que tudo ia bem, como sair de Curitiba e até “casar”.
Em contrapartida, tenho sentido umas esquisitices que, talvez, estejam associadas com a ausência dos remédios. A mais incômoda delas começou dois dias atrás: uma espécie de “glitch óptico-cerebral”: inesperadamente, sinto um tremelique, um desconforto, um tilt na região dos olhos e atrás deles. Isso causa uma pequena tontura que passa logo, mas que se repete com uma frequência detestável.
David Foster Wallace diz em um de seus textos que antidepressivos são bacanas, mas são bacanas assim como viajar para um outro planeta tão habitável quanto a Terra pode ser bacana: bacana, mas não será a boa e velha Terra. Obviamente, ele tinha experiências muito mais complexas e devastadoras para falar sobre isso, nada que possa ser comparado à baixíssima dosagem de medicamento que eu tomava. Mesmo assim, essa retomada de energia tem sido tão boa que eu consigo visualizar bem a ideia de retornar ao planeta natal. Só espero que a aterrissagem não seja ruim.











