Felipe Arruda

Do tipo que erra pênalti e não come spaghetti com furinho

Um tiro saindo pela culatra

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Todos Majid

Todos Majid

MAJID TAVAKOL foi preso por se opôr contra o governo iraniano. Numa tentativa de ridicularizá-lo, autoridades divulgaram fotos dele usando o hijab, o véu islâmico usado por mulheres. As autoridades disseram que Majid estava tentando fugir usando este disfarce, mas a oposição não comprou a declaração oficial. Para a oposição, as autoridades iranianas estavam mesmo é tentando ridicularizar a imagem de Majid. Como se uma mulher fosse algo ridículo de se parecer com.

Em solidariedade a Majid e às mulheres iranianas, os homens também resolveram vestir o hijab e enviar suas fotos para a internet. Um vídeo muito bacana, com várias dessas fotos, pode ser visto no YouTube. A matéria, em inglês, pode ser lida no Los Angeles Time. Vamos aproveitar e lembrar também que o governo iraniano é famoso por sua falta de habilidade com o Photoshop.

Written by felipe

December 27th, 2009 at 10:38 am

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Leituras de 2009

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Lista com um pequeno comentário sobre os livros que li este ano:

De Pernas pro Ar – Eduardo Galeano (ISBN: 8525408336)

O livro reúne diversos textos que demonstram que vivemos em um mundo aos avessos, onde empresas que fabricam minas terrestres para guerras também lucram horrores com o desarmamento das próprias minas e ditadores continuam com cargos altos e respeitáveis mesmo depois de depostos. Gostei do cuidado que o autor teve de listar, ao final de cada capítulo, a bibliografia consultada para escrevê-lo. Um ponto negativo? O Galeano parece meio implicante com videogames.

Preconceito Lingüístico – Marcos Bagno (ISBN: 9788515018895)

Li este livro na faculdade, em 2002, eu acho. Guardei meu xerox do livro por muito tempo, até que finalmente comprei esta 49ª edição e reli. Muito recomendado, principalmente se você é um desses policiais da “boa fala” e do português “correto”.

The Catcher in the Rye – J. D. Salinger (ISBN: 9780316769488)

Favorito de Washington Olivetto (rá!) e testemunha de um dos assassinatos mais famosos da história. Desdenhei um pouco o livro depois de lê-lo, achei overrated. Hoje gosto mais. Não é provocador como eu pensava, mas é muito bem escrito. Se quiser experimentar o estilo do Salinger antes, sugiro a leitura do conto A Perfect Day for the Bananafish.

Os Cus de Judas – António Lobo Antunes (ISBN: 9788560281053)

As memórias de um médico português na guerra de independência de Angola. Narrativa fragmentada, não linear e que mistura as memórias da guerra com as lembranças da infância e da juventude. Foi a melhor mesa da FLIP deste ano.

O Senhor Walser – Gonçalo M. Tavares (ISBN: 9788577340910)

Eu confesso: li este sem comprar, dentro de uma livraria, enquanto tomava café. Não foi uma boa experiência. O Gonçalo Tavares é um dos grandes escritores portugueses desta época. O Saramago já disse que tem até vontade de surrar o rapaz pela audácia dele escrever tão bem aos trinta anos. Esta série, chamada de O Bairro, é composta por livros-personagens ilustres, como o senhor Walser, o senhor Kraus, o senhor Calvino, o senhor Brecht e outros. Preciso voltar a este cara mais tarde.

Hamlet – William Shakespeare (ISBN: 9788525406118)

O livro indispensável desta lista. Nunca pensei que a seria tão prazerosa. A tradução do Millôr Fernandes, publicada pela L&PM, é muito boa e barata. Li comparando com o original, disponível em abundância na internet. Não perca tempo e leia logo. Assista também a adaptação feita pelo Teat(r)o Oficina, disponível em DVD: 5 horas de gozo.

A Megera Domada – William Shakespeare (ISBN: 9788525408822)

Li no embalo, logo depois de Hamlet. Gostei muito também e não posso parar de ler Shakespeare. O meu problema foi uma novela da Globo, que infectou a minha cabeça com a imagem do Eduardo Moscovis como Petrúquio.

As Criadas – Jean Genet (sem ISBN)

O Caio deu risada quando me viu com este livro. Disse que a vida do Genet era feita só de keywords que me chamavam a atenção. Não discordo. A leitura também teve um gosto especial por ser da Deriva, uma editora independente e, acho que posso dizer, anarquista. Quero muito ler Diário de um Ladrão.

Os Versos Satânicos – Salman Rushdie (ISBN: 9788535912876)

Esqueça a polêmica da fatwa. Esqueça que o livro provoca o islamismo, mas não esqueça da história do islamismo antes de começar a ler. Se você conhecer um pouco sobre a história de Maomé, aproveitará muito mais a leitura.

O que eu quero dizer é que este livro deve ser lido pelos seus méritos literários e não pelo rebuliço que causou. Principalmente porque o livro é uma boa conversa sobre a condição do imigrante. Para ajudar a decifrar as referências culturais à índia e ao Islã, consulte o Notes on Salman Rushdie: The Satanic Verses. O autor do site, Paul Brians, me contou que levou cinco anos para coletar todas elas.

Um Retrato do Artista Quando Jovem – James Joyce (ISBN: 85000137889780142437346)

Obra prima. Este livro está até agora remoendo na minha cabeça. Não vejo a hora de poder relê-lo. Romance autobiográfico onde Joyce recria o seu trajeto de criança, em um ambiente carregado de dogmas religiosos e políticos, até a fase adulta, onde se torna um artista de pensamento independente. Li uma edição nacional antiga comparando-a com o texto original, em inglês.

Contos Irlandeses do Início do Século XX – Luci Collin e Guilherme Silveira (ISBN: 9788589485715)

Este livro é organizado pela professora Luci Collin, da UFPR, que também comandou o Bloomsday deste ano. Os contistas desta compilação se dividem em dois grupos, os que abordam o passado e a mitologia da Irlanda e os que abordam a Irlanda contemporânea. Tem Briam Stoker, Joyce, Lady Gregory, Yeats e outros. Li depois de Um Retrato do Artista Quando Jovem, pra ver se ganho o background mínimo para aproveitar a leitura de Ulisses.

On the Road – Jack Kerouac (ISBN: 9788525413208)

Tudo aquilo que H. Caulfield não fez, está aqui. Uma aventura de verdade e que possivelmente deprimiu muitos leitores e leitoras que precisaram voltar ao trabalho e à família depois da última página.

O Cavaleiro Inexistente – Italo Calvino (ISBN: 9788535906790)

Simplesmente genial. Uma armadura vazia que se convence que é um homem e adquire vida. Um cavaleiro tão perfeito, que não existe. O Ivan me contou em uma aula que este livro forma uma trilogia junto com O Barão nas Árvores e O Visconde Partido ao Meio. Já coloquei os outros dois na minha wish list.

James Joyce – Edna O’Brien (ISBN: 8573022604)

Mais um livro que li como preparação para a leitura de Ulisses. Apesar de boa parte desta biografia estar em Um Retrato do Artista Quando Jovem — a palmatória, a descoberta da sexualidade, o conflito entre a religião e o pensamento livre, o declínio financeiro da família, o desejo de exílio — o livro compensa por contar outros momentos da vida de Joyce, principalmente as histórias sobre a publicação de Dublinenses e Ulisses e as boas almas que acreditaram no gênio e aguentaram a ranhetice do autor: Srta. Weaver e Srta. Beach.

Haroun e o Mar de Histórias – Salman Rushdie (ISBN:8585391049)

Rashid, que vivia de contar histórias em comícios, certo dia perde o dom da palavra. Uma fábula infanto-juvenil com conteúdo para adultos, no melhor estilo de Alice no País das Maravilhas. É possível traçar um paralelo deste livro com fatwa declarada contra o autor por causa d’Os Versos Satânicos.

Flores – Mario Bellatin (ISBN: 9788575038116)

Pequenos contos que juntos formam uma história sobre experiências genéticas e deformações. Eu li Flores por um motivo que o próprio Bellatin detestaria: interesse no autor. Ele é tão contra a valorização do autor sobre a obra, que já chegou até a apresentar uma palestra sobre um escritor japonês que nunca existiu. Para a surpresa do autor, o público comprou as lorotas e até se interessou pela obra do escritor fictício.

Em uma outra ocasião, Bellatin irritou o público ao organizar um congresso na França sobre literatura mexicana. Não levou nenhum grande nome ao evento. Ao invés disso, preparou pessoas anônimas para se apresentassem no congresso no lugar dos autores.

O Indiferente e o Fim do Ciúme – Marcel Proust (ISBN: 8586270067)

Livro pequeno e muito bom. Foi uma das melhores leituras do ano. O Indiferente é uma novela que deveria constar em Os Prazeres e os Dias, primeira obra publicada de Proust. O autor resolveu tirá-la do livro e publicá-la em uma revista obscura chamada La Vie Contemporaine. A novela foi “redescoberta” em 1978.

O Fim do Ciúme é considerada como uma das novelas mais profundas de Os Prazeres e os Dias e, neste “livrinho”, o texto ganha uma nova tradução para o português.

Written by felipe

December 26th, 2009 at 12:57 pm

O ordálio de Fisk

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Em 2001 o jornalista britânico Robert Fisk, provavelmente o principal e mais respeitado correpondente do Oriente Médio, foi espancado por refugiados afegãos. Para evitar que a história fosse contada por terceiros, o próprio Fisk resolveu escrever um relato sobre o episódio. Na época o artigo causou um certo furor e até deu origem à uma nova gíria: fisking, to fisk.

Volta e meia eu me lembro deste artigo, em diversas situações. Acho que a mais comum é quando escuto alguém querendo quebrar a cara de algum pivete ou trombadinha. Já que nunca encontrei este artigo em português, resolvi traduzir e colocar online. A tradução foi feita meio às pressas e sem a revisão do meu parceiro de assuntos textuais, literários e linguísticos. Então, se notar alguma coisa esquisita e, por ventura, comparar com o original, deixe sua sugestão nos comentários. Afinal, colaboração é um dos pilares da internet.

Por último, já que o ano está acabando e todo mundo fica meio meloso nesta época, acho que o artigo também serve como uma boa lição de tolerância e de percepção. Espero que tenha uma boa leitura!

*****

A surra que levei dos refugiados é um símbolo do ódio e da fúria desta guerra suja

Relato de Robert Fisk em Kila Abdullah depois do ordálio na fronteira afegã

10 de dezembro de 2001

Eles começaram nos cumprimentando. Nós dissemos “Salaam aleikum” — que a paz esteja convosco — e então o primeiro seixo passou perto do meu rosto. Um menino pequeno tentou pegar a minha bolsa. Depois outro. Então alguém deu um murro nas minhas costas. Depois rapazes quebraram os meus óculos, começaram a bater com pedras na minha cara e na minha cabeça. Eu não conseguia enxergar por causa do sangue que caía da minha testa e inundava os meus olhos. E mesmo assim, eu entendi. Eu não podia culpá-los pelo o que eles estavam fazendo. Na verdade, se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, perto da fronteira Afeganistão-Paquistão, eu teria feito a mesma coisa com o Robert Fisk. Ou qualquer outro ocidental que eu encontrasse.

Então pra quê registrar meus poucos minutos de terror e desgosto durante o assalto perto da fronteira afegã, sangrando e chorando como um animal, quando centenas — vamos ser francos e dizer milhares —de civis inocentes estão morrendo no Afeganistão por causa dos ataques aéreos americanos, quando a “Guerra pela Civilização” está queimando e mutilando os Pashtuns de Kandahar e destruindo as casas deles porque o “bem” deve triunfar sobre “mal”?

Alguns dos afegãos nesta pequena vila estão ali há anos, outros chegaram — desesperados e com raiva e lamentando seus queridos parentes que foram assassinados — nas últimas duas semanas. Era um péssimo lugar para o carro quebrar. Uma péssima hora, um pouco antes do Iftar, o fim do jejum diário do Ramadã. Mas o que aconteceu conosco foi simbólico em relação ao ódio e fúria e hipocrisia desta guerra suja, um grupo crescente de homens afegãos pobres, jovens e velhos, que viram estrangeiros — inimigos — no meio deles e tentaram acabar com pelo menos um.

Muitos desses afegãos, nós viemos a saber, estavam indignados com o que eles viram na televisão sobre o massacre de Mazar-i-Sharif, os prisioneiros mortos com as mãos amarradas pra trás. Mais tarde um aldeão contou para um de nossos motoristas que eles tinham visto as fitas de vídeo dos oficiais da CIA, “Mike” e “Dave”, ameaçando de morte um prisioneiro ajoelhado em Mazar. Eles não eram educados — eu dúvido que muitos deles pudessem ler — mas você não precisa ter escolaridade para reagir à morte de pessoas queridas debaixo das bombas de B-52. A um certo momento um adolescente que berrava virou para o meu motorista e perguntou, com sinceridade: “Aquele é o Mr. Bush?”

Devia ser quase 16:30h quando chegamos em Kila Abdullah, metade do caminho entre a cidade paquistanesa de Quetta e a cidade fronteiriça de Chaman; Amanullah, nosso motorista, Fayyaz Ahmed, nosso tradutor, Justin Huggler do The Independent — que tinha acabado de cobrir o massacre de Mazar — e eu.

Nós percebemos que algo estava errado quando o carro parou no meio da rua estreita e cheia de gente. Uma camada de vapor branco subia do capô do jeep, um grito constante de buzinas de carros e ônibus e caminhões e riquixás protestando contra o bloqueio que criamos na estrada. Nós quatro saímos do carro e o empurramos para fora da estrada. Eu murmurei algo para o Justin sobre este ser “um péssimo lugar pro carro quebrar”. Kila Abdullah era lar para milhares de afegãos refugiados, uma grande massa de pessoas pobres produzida pela guerra no Paquistão.

Amanullah foi procurar um outro carro — só tem uma coisa pior que uma multidão de homens enraivecidos e é uma multidão de homens enraivecidos após o anoitecer — e Justin e eu sorrimos para a multidão inicialmente amigável que já tinha se aglomerado em volta do veículo que fervia. Eu apertei muitas mãos — talvez eu tenha pensado no Mr. Bush — e disse muitos “Salaam aleikums”. Eu sabia o que aconteceria se os sorrisos parassem.

A multidão aumentou e eu sugeri ao Justin que fôssemos pra longe do jeep, andássemos na estrada aberta. Uma criança relou os dedos no meu pulso e eu me convenci de que foi um acidente, um momento infantil de desprezo. Então um seixo passou pelo meu rosto e bateu no ombro do Justin. O Justin se virou. Os olhos dele expressavam preocupação e eu me lembro com eu respirei fundo. Por favor, eu pensava, seja só uma brincadeira. Então outra criança tentou agarrar a minha bolsa. Nela estava meu passaporte, meus cartões de crédito, dinheiro, diário, agenda de contatos, telefone celular. Eu puxei ela de volta e coloquei a alça em volta do meu ombro. O Justin e eu cruzamos a rua e alguém esmurrou as minhas costas.

Como você sai de um sonho quando os personagens começam a ficar hostis? Eu vi um dos homens que era todo sorriso quando nós nos cumprimentamos. Ele não estava sorrindo agora. Alguns dos meninos pequenos ainda estavam gargalhando, mas agora os risos deles estavam se transformando em alguma outra coisa. O estrangeiro respeitado — o homem que era só “salaam aleikum” alguns minutos atrás — estava preocupado, assustado, fugindo. O ocidente estava vindo abaixo. Justin estava sendo empurado e, no meio da estrada, nós notamos um motorista de ônibus chamando nós para entrarmos no veículo dele. Fayyaz, ainda no carro, sem entender porque nós saímos de lá, não conseguia mais nos ver. Justin alcançou o ônibus e subiu. Assim que eu coloquei meu pé no ônibus, três homens agarraram a alça da minha bolsa e me puxaram de volta para a estrada. “Agarra firme”, ele gritou. Eu agarrei.

Foi aí que a primeira porrada atingiu a minha cabeça. Eu quase caí, meus ouvidos zuniram com o impacto. Eu estava esperando aquilo, mas não tão dolorido ou tão forte, nem tão imediato. A mensagem daquilo era horrível. Alguém me odiava a ponto de me machucar. Houve mais duas porradas, uma na parte de trás do meu ombro, um soco forte que me mandou direto contra a lateral do ônibus enquanto eu ainda agarrava a mão do Justin. Os passageiros olhavam pra mim e pro Justin. Mas eles não se mexiam. Ninguém queria ajudar.

Eu gritei “Me ajuda, Justin”, e o Justin — que estava fazendo mais do que qualquer humano podia fazer, me segurando firmemente enquanto eu perdia a força — me perguntou o que eu queria que ele fizesse. Então eu percebi. Eu não podia escutar somente ele. Sim, eles estavam gritando. Será que eu ouvi a palavra “kaffir” — infiel? Talvez eu estivesse enganado. Neste momento eu fui arrastado para longe de Justin.

Houve mais duas pancadas na minha cabeça, uma de cada lado e por alguma razão estranha, parte da minha memória — algum estalo no meu cérebro — registrou um momento na escola, na escola primária chamada the Cedars em Maidstone mais de 50 anos atrás, quando um menino alto construindo castelos de areia no parquinho me acertou na cabeça. Eu tinha uma lembrança do cheiro da porrada, como se ela tivesse afetado o meu nariz. A próxima pancada veio de um homem que eu vi carregando uma pedra enorme na mão direita. Ele sentou a pedra com uma força enorme na minha testa e alguma coisa quente e líquida escorreu pela meus rosto e lábios e queixo. Eu fui chutado. Nas costas, nas canelas, na minha coxa direita. Outro adolescente agarrou a minha bolsa mais uma vez e mais uma vez eu segurei a alça, olhando pra todo lado, e percebendo que deveria ter cerca de 60 homens na minha frente, gritando. Estranhamente, não foi medo que eu senti, mas uma espécie de assombro. Então é assim que acontece. Eu sabia que precisava reagir. Ou, concluí naquele atordoamento, eu morreria.

A única coisa que me chocou foi o meu próprio senso físico do colapso, a minha consciência crescente do líquido que começava a me cobrir. Eu acho que nunca tinha visto tanto sangue antes. Por um segundo eu vislumbrei algo terrível, um rosto aterrorizante —o meu próprio rosto — refletido na janela do ônibus, cheio de sangue, as minhas mãos encharcadas daquilo como as de Lady Macbeth, o sangue escorrendo pelo meu pullover e pela gola da minha camisa até as minhas costas ficarem molhadas e minha bolsa pingar gotas vermelhas que apareciam repentinamente na minha calça.

Quanto mais eu sangrava, mais a multidão se juntava e batia em mim com as próprias mãos. Seixos e pedras pequenas começaram a rebater em minhas cabeças e ombros. Por quanto tempo, eu lembro que pensei, isso poderia prosseguir? A minha cabeça, de repente, foi atingida por pedras nos dois lados ao mesmo tempo — não foram pedras arremessadas, mas seguradas com as palmas das mãos dos homens que estavam usando elas para tentarem quebrar a minha cabeça. Então um soco atingiu o meu rosto, estilhaçando os meus óculos no meu nariz, outra mão agarrou o par de óculos sobressalentes que estava pendurado em meu pescoço e arrancou do cordão a caixa de couro onde eles estavam guardados.

Eu acho que neste ponto eu deveria agradecer ao Líbano. Durante 25 anos eu cobri as guerras do Líbano e os libaneses costumavam me ensinar, inúmeras vezes, como permanecer vivo: tome uma decisão — qualquer decisão — mas não fique sem fazer nada.

Então eu puxei minha bolsa de volta das mãos de um rapaz que a estava segurando.  Ele recuou. Então eu me virei para o homem à minha direita, aquele que estava segurando a pedra ensanguentada na mão e soquei com força a boca dele. Eu não conseguia enxergar muito — meus olhos não estavam apenas míopes sem os meus óculos, estavam também cobertos por uma névoa vermelha — mas eu vi o homem meio que tossindo e um dente cair dos seu lábio e então ele caiu de costas nas estrada. Por um segundo a multidão parou. Então eu parti em cima do outro homem, agarrando a minha bolsa debaixo do meu braço e esmurrando o nariz dele com o meu punho. Ele berrou de raiva e de repente o nariz dele ficou todo vermelho. Eu errei um soco em outro homem, acertei a cara de mais um, e corri.

Eu estava de volta no meio da estrada, mas não conseguia enxergar. Eu levei minhas mãos até os meus olhos e eles estavam cheios de sangue e com os meus dedos eu tentei remover aquela gosma deles. Fez um barulho de sucção, eu comecei a enxergar de novo e percebi que eu estava chorando e que as lágrimas estavam limpando o sangue dos meus olhos. O que eu tinha feito, eu ficava me perguntando? Eu tinha socado e atacado refugiados afegãos, o povo sobre o qual eu estava escrevendo a respeito por tanto tempo, o povo pobre e mutilado que o meu próprio país — entre outros — estava matando, com o Taliban, logo depois da fronteira. Deus me livre, eu pensei. Na verdade, eu acho que falei isso. Os homens cujas famílias nossos bombardeiros estavam matando agora era meus inimigos também.

Então aconteceu algo inesquecível. Um homem andou até mim, muito calmamente, e me pegou pelo braço. Eu não consegui vê-lo muito bem por causa de todo aquele sangue que escorria pelos meus olhos, mas ele estava vestido numa espécie de túnica e usava um turbante e tinha uma barba grisalha. E ele me levou para longe da multidão. Eu olhei por cima do meu ombro. Tinha cem homens atrás de mim e algumas pedras jogadas de leve, mas que não tinham o objetivo de me acertar — presumivelmente para evitar que acertassem o desconhecido. Ele era como uma figura do Velho Testamento ou de alguma história bíblica, o Bom Samaritano, um homem muçulmano — talvez um mulá da vila — que estava tentando salvar a minha vida.

Ele me empurrou para a parte de trás de uma caminhonete da polícia. Mas o policial não se mexeu. Eles estavam aterrorizados. “Me ajude”, eu continuava a gritar pela janela pequena da cabine deles, o sangue das minhas mãos escorrendo pelo vidro. Eles dirigiram por alguns metros e pararam até que o homem alto falou com eles novamente. Depois eles dirigiram por mais 300 metros.

E lá, ao lado da estrada, estava o comboio da Cruz Vermelha-Crescente Vermelho. A multidão ainda estava atrás de nós. Dois dos atendentes médicos me puxaram pra parte de trás de um dos veículos deles, derramaram água sobre as minhas mãos e sobre o meu rosto e começaram a colocar ataduras na minha cabeça, no meu rosto e na minha nuca. “Deite aí e nós vamos te cobrir com uma manta, assim eles não vão conseguir te ver”, disse um deles. Eles eram muçulmanos, de Bangladesh e os nomes deles deveriam ficar registrados, porque são homens bons e honestos: Mohamed Abdul Halim e Sikder Mokaddes Ahmed. Eu estava deitado no chão, gemendo, consciente de que eu poderia viver.

O Justin chegou em alguns minutos. Ele havia sido protegido por um soldado enorme das tropas do Baluchistão — verdadeiro fantasma do Império Britânico que, com um único rifle, manteve a multidão afastada do carro em que o Justin estava sentado. Eu segurei firme a minha bolsa. Eles não conseguiram tomá-la de mim. Eu fica repetindo isso pra mim mesmo, como se meu passaporte e meus cartões de crédito fossem uma espécie de Cálice Sagrado. Mas eles tinham quebrado o meu último par reserva de óculos — eu estava cego sem eles — e meu telefone celular também tinha sumido, assim como minha agenda de contatos com 25 anos de números telefônicos de todo o Oriente Médio. O que eu poderia fazer? Pedir para todo mundo que me conheceu alguma vez na vida me enviar de volta seu número de telefone?

Droga, eu disse e tentei socar ao meu lado até que eu percebi que estava sangrando por causa de um corte grande no pulso — a marca do dente que eu tinha tirado da boca daquele homem, um homem que era inocente de qualquer crime exceto de ser a vítima do mundo.

Eu passei mais de duas décadas e meia relatando a humilhação e a miséria do mundo muçulmano e agora a raiva deles também tinha me alcançado. Será? Havia Mohamed e Sikder do Crescente Vermelho e Fayyaz que foram incansáveis no nosso tratamento e Amanullah que nos convidou para irmos até a casa dele para o tratamento médico. E teve o santo muçulmano que me pegou pelo braço.

E — eu percebi — tinha todos aqueles homens e meninos afegãos que me atacaram, que nunca deveriam ter feito isto mas cuja brutalidade era completamente o produto dos outros, de nós  — de nós que armamos a luta deles contra os russos e ignoramos a dor deles e rimos da guerra civil deles e depois armamos e pagamos eles de novo para a “Guerra pela Civilização” algumas milhas longe dali e depois bombardeamos os seus lares e devastamos suas famílias e demos a tudo isso o nome de “dano colateral”.

Então eu pensei que deveria escrever sobre o que aconteceu conosco neste incidente pequeno, sangrento, estúpido, assustador. Eu tinha medo que outras versões pudessem produzir uma narrativa diferente, de como um jornalista britânico foi “espancado por uma multidão de refugiados afegãos”

E é claro, isso é o que importa. As pessoas que foram agredidas foram os afegãos, as cicatrizes foram causadas por nós — pelos B-52s, não por eles. E vou dizer novamente. Se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, eu teria feito exatamente o que eles fizeram. Eu teria atacado o Robert Fisk. Ou qualquer outro ocidental que eu tivesse encontrado.

Written by felipe

December 14th, 2009 at 8:33 pm

Omã, futebol e filatelia

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Há alguns anos eu resolvi colecionar selos. A empolgação não durou muito tempo, mas serviu para eu descobrir que filatelia ou numismática ensinam História por tabela.

Uma vez comprei na feira do Largo da Ordem um pacote com 150 selos de “países árabes”. Voltei pra casa extasiado. Espalhei todos os selos na mesa e descobri que eram todos de um único país do qual eu nunca tinha ouvido falar: Dhufar.

Hoje a seleção brasileira marcou dois gols contra o time de Omã. A pergunta que eu mais ouvi foi “onde diabos fica Omã?”. Eu chutei que ficava perto da Líbia, e não poderia ter errado mais. Omã faz fronteira com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Iêmen.

Por causa deste jogo eu lembrei de novo dos selos: eles não valem nada. Na verdade nem são considerados selos, propriamente dito. São bogus, cinderelas. Estampas que se parecem com selos, mas que não são. A história é um pouco confusa e está incompleta no único site com informações de verdade sobre o assunto, mas vou me arriscar a fazer um resumo mesmo assim.

selos

Dhufar — ظفار, em árabe — é uma das principais regiões do Sultanato de Omã (سلطانة عمان). A província fica no sul do país e tem traços culturais diferentes do resto do sultanato. Nesta região, por exemplo, há línguas que não são faladas nas outras regiões de Omã.

Durante o reinado do sultão Sa’id bin Taimur (1932 – 1970), Dhufar era administrada como uma espécie de propriedade particular do sultão, que preferia Dhufar à Mascate. Ele até chegou a morar em Salalah, a capital da província, no fim dos anos 50.

Por estas diferenças culturais e por ser uma região privilegiada pelo Khareef, a monção que ocorre em Dhufar entre os meses de junho à setembro, a província sempre foi explorada. Alguns habitantes da região, por não falarem árabe, também tinham mais restrições que o restante da população do país. Esta situação levou à criação da Dhufar Liberation Front (DLF), um movimento separatista formado por jovens comunistas em 1965. A DLF foi derrotado depois de uma tentativa de assassinato promovida contra o sultão Taimur em 1966.

Em 1968 a DLF começa a receber ajuda do Iêmen e, em um congresso,  surge um novo movimento separatista, o Popular Front for the Liberation of the Occupied Arabian Gulf (PFLOAG). O PFLOAG foi apoiado pela China e pela Rússia, com fornecimento de armas e treinamento militar. As armas eram enviadas pela China para a PFLOAG através de Aden, com a permissão do govermo do Iêmen. Com isso já dá pra deduzir a fórmula: separatistas + armamento = confusão das bravas.

Enquanto o exército do sultão tinha armas velhas da Segunda Guerra, a PFLOAG e o DLF tinham armas modernas, como AK-47. Para acalorar ainda mais a situação, outro movimento revolucionário surge em Omã, mas desta vez ao norte: a National Democratic Front for the Liberation of Oman and the Arabian Gulf (NDFLOAG).

Em 23 de julho de 1970 o sultão Said bin Taimur foi deposto e exilado em Londres, sendo substituído pelo seu filho Qaboos bin Said Al Said, que reina até hoje como sultão de Omã. É neste momento, com o sultão deposto e uma possível vitória dos movimentos separatistas, que a confusão dos selos começa.

O imã deposto, que gerenciava a cidade de Mascate durante o reinado de Taimur bin Faisal, antes do reinado de Said bin Taimur, resolveu apoiar os rebeldes separatistas, como uma tentativa frustrada de voltar ao poder. Frustrada porque os rebeldes nunca tiveram simpatia pelo imã. Eles eram contra o imã tanto quanto eram contra o sultão.

Mas neste meio tempo, um libanês esperto chamado Youssef Salim Tadros, que era amigo do imã e responsável pela impressão de selos de Omã até então, percebeu a situação otimista da rebelião, resolveu sair na frente e fazer selos para Dhufar, o país que estava sendo criado. Não se sabe se ele chegou a consultar o imã ou algum outro líder exilado antes de tomar esta posição, mas para ele pouco importava. Com tantas notícias sobre a guerra em Omã circulando pelo mundo, ficaria fácil fazer os selos serem aceitos por filatelistas como provenientes das regiões ocupadas. A comunidade internacional, como sempre sabendo pouco sobre os problemas deste canto do mundo, não perceberia que os seguidores do Imã exilado e a PFLOAG eram entidades completamente diferentes.

Entretanto, com o apoio da Inglaterra, os rebeldes foram derrotados e o sultanato de Omã acabou sendo restabelecido e reconhecido pelos outros países árabes. Com este reconhecimento, Omã pôde fazer parte, em 1971, da União Postal Árabe, da União Postal Universal, da Liga dos Estados Árabes e das Nações Unidas. Os planos de separação de Dhufar tinham falhado, e com a ascensão de Omã à União Postal Árabe, os selos impressos por Tadros já não tinham mais validade.

Por alguma razão misteriosa, Damasco ainda aceitou os selos de Tadros até junho de 1972, o que permitiu que o espertalhão permanecesse no negócio por mais um tempo. Especula-se que tenha sido pelos bons contatos que Tadros deveria ter enquanto fornecia selos oficiais para vários países árabes e a tradição do governo sírio de abrigar diversos líderes de oposição do Oriente Médio.

Hoje estes selos não valem nada. Você pode comprar eles pela internet a um preço ridículo, já que eles nunca tiveram o status oficial de selo postal.

Se por um lado eu acho legal ter selos de uma tentativa frustrada de golpe, por outro eu reconheço que eles não devem valer mais do que um selo criado por mim, por exemplo, para algum país da minha imaginação. Ninguém nunca vai considerar minha criação como comprovante de pagamento de serviços postais.

Mas não posso negar que estes selos serviram para que eu fosse atrás de um pedacinho da história de Omã, o país que não conseguiu vencer o Brasil, mas que segundo o locutor do jogo, abriga muitos trabalhadores brasileiros.

Written by felipe

November 18th, 2009 at 12:05 am

Curitiba e Ciclofaixa

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Apesar da mobilização, a prefeitura de Curitiba decidiu manter a multa. Se você puder ajudar, considere fazer uma doação.

Written by felipe

November 16th, 2009 at 12:57 pm

Posted in Política

Ciclofaixa é disputa política, não vandalismo.

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Faço das palavras do Rodrigo, as minhas. Literalmente. Quem for de Curitiba e puder colaborar, aí está como:

SAIBA MAIS NO BLOG DA BICICLETADA

1- copie e cole a carta abaixo e envie um email novo, sem encaminhar nada, sem multiplos endereços, para o email do gabinete gabvirtual@pmc.curitiba.pr.gov.br .

2- Não esqueça de colocar seus dados no lugar do nome e do titulo de eleitor.

3- Envie ESTA MENSAGEM ao maior número possível de amigos, com uma nota pessoal pedindo apoio, e não como mais um SPAM.

4- Coloque no título: Multa a Ciclistas e estabelecimento de ciclofaixas, uma solução urgente!

Excelentíssimo Senhor Prefeito de Curitiba

Sr. Beto Richa

Tomando como base o impasse legal criado pela PGM na situação da multa imposta aos ciclistas que, em um gesto de demonstração de possibilidades e por repetirem uma prática jamais reprimida em outros contextos de empolgação cívica – como as celebrações de Copas do Mundo – se vêem os ciclistas em questão diante da insistência da procuradoria em enquadra-los como pichadores.

Venho, por meio desta e acompanhado de inúmeros outros cidadãos e eleitores desta cidade, solicitar que o senhor tome para si a revisão do ato administrativo que resultou na multa aos referidos ciclistas, o que lhe cabe como instância superior da administração pública dotada de poderes para rever os atos das instâncias inferiores.

A Guarda Municipal entendeu como delito comum, de simples pichação, a manifestação essencialmente política dos ciclistas que pintaram uma ciclofaixa na primeira quadra da Rua Augusto Stresser, (imediatamente antes da Praça Vivian Caropreso Braga) durante as manifestações do Dia Mundial Sem Carro de 2007.

Sabe-se porém que a pintura da ciclofaixa foi um gesto destinado a chamar a atenção para a necessidade de cumprimento dos dispositivos do Código Nacional de Trânsito que asseguram à bicicleta a condição de veículo de transporte no quadro urbano.

Ao anistiar os ciclistas, Sua Excia. passaria a reconhecer o teor político daquele gesto que não destruiu, degradou ou gerou qualquer custo de manutenção à administração pública.

Sua decisão de anistiá-los reverteria e corrigiria uma ação dos níveis inferiores, dando a estes um direcionamento diferenciado para o trato de situações semelhantes.

Ao considerar ainda que, ao recebê-los em seu gabinete, alguns dias depois da manifestação, Sua Excia. sinalizou claramente para o movimento e a opinião pública sua disposição favorável, pelo menos em tese, às metas da Bicicletada, a anistia aos ciclistas multados (três deles, em meio a cinqüenta participantes) apenas viria como uma conseqüência natural dessa disposição.

A sugestão de todos nós, ciclistas e não ciclistas, mas igualmente preocupados com a qualidade de vida tão propagada como sendo marca da cidade de Curitiba inclui ainda que S. Excia. assuma:

– Institucionalização da Primeira Ciclofaixa de Curitiba, na Rua Augusto Stresser como marco simbólico de uma mudança de postura na gerência do tráfego na cidade.

– O reconhecimento do ato em questão como eminentemente político, praticado por cidadãos livres, no sentido de impulsionar e colaborar com relações mais humanas nas ruas de nossa cidade, revendo a ação das instâncias inferiores de sua administração.

– Reconhecer, a exemplo de cidades muito mais complexas e populosas – entre elas Nova York, que adota as ciclofaixas – a bicicleta como veículo inteligente, convivial e preferencial , respaldado por dados empíricos mais que comprovados, no que diz respeito a todos os aspectos que influem no deslocamento na cidade, mediante a adoção menos custosa, simples e eficiente que representam as ciclofaixas.

Certo de que teremos nossa voz ouvida, e certo de que a imposição da multa, razão de ser dessa carta, será revista por S.Excia.

Despeço-me

Atenciosamente

Nome – Titulo Eleitoral

Written by felipe

October 21st, 2009 at 10:42 am

Posted in Política

LOLSloth

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My contribution to LOLSloth:

Written by felipe

October 15th, 2009 at 2:02 pm

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Seek information, avoid arguments

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The only person responsible for getting you trustworthy information is you. This involves a great deal of work. Am I seriously advocating that you spend hours a day just sitting around learning stuff? Absolutely yes, I am. The wonderful Jennifer Bowen introduced me to the phrase “good company is kept discussing good ideas—not people.”

The internet is insanely effective for rapidly accessing high volumes of high quality information. It’s also a great way to spend four hours checking your email, watching porn, or getting into pointless arguments with total strangers. We all have egos, we all get pissed off occasionally, but don’t do that online: get up immediately and use that anger to lift some free weights.

From: 10 Ways YOU Can Fight Fascism Around the World

Written by felipe

October 12th, 2009 at 12:14 am

Posted in Bla, English, Política

III Fórum de Tecnologia em Software Livre

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Um pequeno comunicado de utilidade pública: quem tiver interesse em apresentar palestra ou mini-curso no III Fórum de Tecnologia em Software Livre, que acontecerá de 11 a 13 de novembro em Curitiba, tem até esta quinta-feira (8/out) para fazer a inscrição.

Written by felipe

October 6th, 2009 at 5:34 pm

Posted in Eventos, Geek, Tecnologia

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Paraty – julho/2009

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Em 2007, quando fui para a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), eu estava saindo de férias com dinheiro de sobra para o roteiro Curitiba-Santos-Paraty-Rio de Janeiro-São Paulo-Curitiba. Fui de carro com os amigos, ficamos em uma pousada pomposa e etc. Este ano eu estava com pouco dinheiro e sem companhia, mas fui mesmo assim.

A princípio eu ficaria em um camping. Emprestei barraca, colchão inflável, mochila de sei lá quantos litros e levei uma lanterna. Pela primeira vez eu fui viajar sozinho e a primeira coisa que aprendi é que viajar sozinho não existe. Fiz amizades em todos os momentos da viagem, claro que algumas temporárias.

Na descida de São Paulo para Paraty conheci um gaúcho que fazia aquele trajeto todo ano. Ele trabalha na FLIP e, depois da festa, vai caminhando até Aparecida do Norte, por devoção. Ele me contou que faz o trajeto todo a pé, em três dias. A parte bacana é que ele estava considerando adotar isto como forma de turismo. A próxima meta dele é descer a pé de Diamantina até Paraty, fazendo assim todo o caminho de extração de diamante e ouro que os portugueses faziam durante a colonização.

Ao desembarcar resolvi dar uma olhada nos preços de albergues, para ver se custava muito mais do que a estadia no camping. Enquanto eu andava pelas ruas de mochila escutei alguém dizendo “Hello! Hello! Looking for hostel?”. Respondi que sim e em bom português. Ele me mostrou um quarto para duas pessoas no albergue dele, mas eu achei caro. Disse que queria um quarto coletivo por causa do preço. Daí ele me levou até o albergue Casa da Aventura.

O custo de dez dias no albergue seria o dobro do que eu gastaria no camping, mas mesmo assim aceitei. Paraty estava cheia de poças d’água e eu não quis pegar chuva na minha primeira experiência em um camping. Traí o movimento e resolvi partir para a minha primeira experiência em um albergue. Acho que fiz uma boa escolha. Até agora sinto falta do festival de sotaques que eu ouvia todo dia: pernambucano, paulista, carioca, mineiro, brasiliense, francês, inglês, australiano, peruano.

Paraty sem FLIP, ainda calma

Paraty sem FLIP, ainda calma

Desta vez eu também cheguei três dias antes da FLIP e saí um dia depois dela. Em um dos dias antes da feira eu fiz um passeio de jeep, para conhecer algumas coisas que eu não tinha visto em 2007. O jeep tour sai por volta das 10h da manhã e retorna à cidade às 16h ou 17h. São seis os pontos de parada:

  • Cachoeira da Pedra Branca – uma cachoeira que fica em uma propriedade particular e onde funcionava uma hidrelétrica. Se você gosta de água gelada, leve traje de banho.

    Cachoeira da Pedra Branca

    Cachoeira da Pedra Branca

  • Poço dos Ingleses – um rio bonito e com muitas árvores em volta. Em uma das margens tem um barranco e na beira do barranco uma árvore com uma corda amarrada em um dos galhos. O pessoal costuma balançar na corda e se jogar na parte mais tranquila do rio, o tal poço. Parece divertido, mas não pulei. Não levei calção de banho.


    Poço dos Ingleses

    Poço dos Ingleses

  • Fazenda Murycanapropriedade do século XVII que, antigamente, era conhecida como Três Fazendas. Lá tem um engenho onde é possível experimentar cachaça envelhecida há doze anos em carvalho. Tem cachaça com maracujá, abóbora, melado e outros sabores. Foi o meu primeiro gole de pinga. Achei bom. Na fazenda também tem muitos objetos do século XVII e um restaurante, onde o grupo do jeep tour costuma almoçar durante o passeio.
  • Cachoeira do Tobogã – pra quem gosta de água, este é muito legal. Uma cachoeira com água que desliza por cima de uma pedra grande, lisa e íngrime, formando um tobogã natural. Em uma certa época do ano tem até competição de surfe na pedra neste local, apesar da placa na entrada que não recomenda que as pessoas escorreguem em pé, para evitar acidentes. Veja o vídeo abaixo para ter uma noção. Pertinho da cachoeira tem também a Igreja de Nossa Senhora da Penha.

  • Alambique – como perdemos muito tempo na fazenda, tivemos que pular esta parada.
  • Exposição de orquídeas e bromélias – uma floricultura com uma área grande de cultivo de orquídeas e bromélias. Eu não gostei muito. Como minha mãe já teve uma floricultura, eu já conhecia boa parte das plantas de lá. Mas o resto do grupo parece ter gostado, em especial quatro senhoras de Mendonza pra lá de divertidas.

É possível visitar todos esses pontos sem pegar o jeep tour, mas alguns ficam um pouco distantes da cidade e você terá que pegar estrada de terra para chegar até eles. Os mais preparados fisicamente podem alugar uma bicicleta na cidade e fazer o trajeto pedalando. O passei a cavalo também leva os turistas até esses pontos.

Na Fazenda Murycana eu percebi que mais uma vez os pássaros me avisaram que eu estava longe de casa. Desta vez foram o tiê-sangue e a Saíra-sete-cores que roubaram a cena. São dois pássaros muito bonitos, de cores fortes e que eu ainda não conhecia. Foi i mpossível não lembrar do peito-celeste.

No albergue também conheci um cara que trabalhava como estátua viva em frente à Igreja de Santa Rita. Vestido de escravo ele contava alguns fatos históricos sobre aquela região e também fazia sucesso com as estrangeiras, que adorava tirar fotos com ele. Acho que o nome dele era Anderson, não me lembro.

Estátua viva

Estátua viva

O resto da viagem eu dediquei à FLIP e à OFF-FLIP. O resumo das discussões e mesas que assiti estão no Logorréia. Para quem pretende ir à FLIP de 2010 sem gastar muito e ainda não conhece Paraty, aqui vão algumas dicas:

Onde ficar:

  • Albergue Casa da Aventura. Pessoal legal, café da manhã bom (R$5) e diárias a R$25. O preço muda durante a FLIP. Fica perto da rodoviária e a uma quadra do centro histórico.
  • O camping do Pontal cobrava R$18 por dia durante a FLIP, sem lembro bem.

Onde comer:

  • Sabor da Terra, na avenida principal, que vai até o centro histórico, é barato. Buffet por quilo. Meu prato com um refrigerante custava menos de 15 reais.
  • Grão da Terra. Restaurante vegetariano, na mesma avenida. Se não me engano fica numa galeria chamada Gibran. Almoço com suco sai por média de 20 reais. Um pouco caro, mas se precisar de um almoço gostoso, vale a pena. Também servem cafés, salgados e sucos.
  • Sorveterapia. Não é muito barato, mas pela qualidade é a melhor opção de sorvete em Paraty. Sem gordura hidrogenada, sem corantes e também possui opções sem lactose. Se quiser economizar, evite as sorveterias do centro histórico. Apesar de boas, são caras.
  • Tem uma lanchonete em frente à Sorveterapia que serve salgados, queijo-quente, sucos e refris. Embora tenha poucas opções vegetarianas, é muito barato.
  • Caminhe pela Avenida Roberto da Silveira, aquela que vai até o começo do centro histórico. Lá tem muitas opções baratas de alimentação e também tem lugares que servem açaí e cupuaçu na tigela, com banana e granola. Nesta rua também tem mercearias, quitandas e, perto da rodoviária, tem um supermercado. Se quiser economizar ainda mais, pode comprar comida no mercado e preparar no albergue. Só lembre de lavar a louça e limpar a cozinha depois que terminar.

Internet:

  • O albergue tem wi-fi. Eu descolei a senha com uma francesa, mas se você pedir na recepção eles te informam.
  • Se for usar Lan House, recomendo a Dog Fighter. As outras que usei eram tão ruins que nem vale a pena citá-las.

Passeios:

  • O pessoal do albergue tem parceria com uma empresa de turismo. Recomendo que comprem os passeios com eles. Tem um passeio de escuna que parece muito procurado. Custa R$30, serve frutas e café, tem música ao vivo e faz paradas em quatro ilhas/praias. Eles servem almoço à bordo por cerca de R$20, mas você também pode levar um lanche/almoço, caso não queiram gastar ou prefira garantir sua dieta. Tem outras opções de passeios, como o de jeep que citei anteriormente.
  • Trindade. Por 3 reais vocês pegam ônibus ou van para Trindade. O lugar tem praias muito bonitas, com montanhas em volta. De preferência pegue um dia bem ensolarado e com céu aberto. Conversem com o pessoal do albergue sobre o que ver em Trindade, eles têm boas dicas.

Noite:

  • Tenha na mochila sempre um casaquinho ou suéter, porque esfria um pouco quando começa a anoitecer. Pelo menos em julho.
  • Dinho’s Bar é uma lugar bacana e barato e durante a FLIP tem sempre programações legais, como saraus e lançamentos de livros.

Atrações turísticas no centro histórico:

  • Igrejas antigas, construídas entre os séculos XVI e XVII. Algumas funcionam como museu de arte sacra, como a de Santa Rita. Se não quiser pagar dois reais para visitar uma igreja, espere o horário da missa para visitá-la.
  • Biblioteca municipal com fotos de escravos e documentos da época da fundação da cidade
  • Praça da Matriz
  • Cais (em frente à biblioteca e perto da Igreja de Santa Rita)
  • Note os símbolos maçônicos nas fachadas das casas do centro histórico.
  • Olhe pra cima. Algumas plantas nascem nos telhados das casas do centro histórico.

E a regra geral: Pesquise o máximo que puder o preço de alguma coisa antes de comprar e evite comprar o que não for necessário ou exclusivo
de Paraty. Os preços aumentam de acordo com a proximidade da Praça da Matriz.

Written by felipe

August 1st, 2009 at 7:46 pm