Sabra e Shatila – 25 anos

16/09/2007 at 9:23 pm
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Na manhã do dia 11 de setembro de 2001 eu liguei a TV para assistir alguma coisa enquanto tomava a minha dose matinal de cafeína. Eu demorei alguns minutos para perceber o que estava acontecendo e lembro de ter ficado bastante espantado com as imagens que via.

Escrevi um bilhete para meu irmão e deixei em cima da mesa antes de sair de casa: “Um avião se chocou contra o World Trade Center. Há suspeitas de Terrorismo. Terceira Guerra?”

Ao longo do dia acompanhamos as notícias pela internet, perplexos. Dois aviões contra as torres, um contra o Pentágono e outro que não chegou a atingir o seu alvo. Pessoas desesperadas se atirando do WTC.

Muitas palavras ficaram populares desde então, e a maioria delas começavam com o artigo definido al. Ninguém vai esquecer o 11/09. Foi triste, brutal e um marco na história. Eu mal consigo imaginar as proporções desses ataques. E ainda hoje há seqüelas deste dia, como os bombeiros que agora sofrem de doenças respiratórias depois de terem trabalhado nos escombros.

Da mesma forma, um outro dia deste mês deveria ser lembrado: o 16 de setembro.

Dois dias depois do assassinato do presidente Bachir Gemayel (eleito em 23 de agosto de 1982, bastante popular entre os cristãos maronitas e morto em 14 de setembro com uma bomba), os campos de refugiados palestinos Sabra e Chatila (Beirute – Líbano) foram invadidos, com o apoio do exército israelense, pela Falange (milícia cristã).

Muitos civis de nacionalidade árabe foram mortos. A maior parte das vítimas era palestina e em sua maioria mulheres, crianças e idosos. Por causa das dificuldades e condições do massacre, o número de vítimas varia de acordo com a fonte, indo de 700 a 3500.

No livro Pity The Nation – The Abduction of Lebanon, Robert Fisk conta como foi a cobertura do massacre, no dia 18 de setembro. Só o começo já assusta:

It was the flies that told us. There were millions of them, their hum almost as eloquent as the smell. (…) If we stood still, writing in our notebooks, they would settle like an army – legions of them – on the white surface of our notebooks, hands, arms, faces, always congregating around our eyes and mouths, moving from body to body, from the many dead to the few living, from corpse to reporter, their small green bodies panting with excitement as they found new flesh upon which to settle and feast.

(…)

The murderers – the Christian militiamen whom Israel had let into the camps to ‘flush out terrorists’ – had only just left. In some cases, the blood was still wet on the ground. When we had seen a hundred bodies, we stopped counting. Down every alleyway, there were corpses – women, young men, babies and grandparents – lying together in lazy and terrible profusion when they had been knifed or machine-gunned to death.

O 11 de setembro de 2001 e o 16 de setembro de 1982 não estão diretamente ligados. Mas em ambas as datas as grandes vítimas foram os civis. E assim como não existe uma cultura mais importante que outra, também não existe uma baixa civil mais triste ou dolorida do que outra. Para mim, ler O Livro das Mil e Uma Noites é tão culturalmente relevante quanto ler Dumas ou Whitman. Lembrar o 16/09/82 é tão politicamente/humanamente importante quanto lembrar o 11/09/01.

Como diz o escritor israelense Amos Oz, não somos ilhas. Nós não vivemos isolados. A capacidade de poder se imaginar no lugar do outro, de poder imaginar a dor do outro, já é uma defesa contra o fanatismo.

2 comments

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  1. Kátia

    on 16/09/2008 at 1:29 pm

    acho que tô ficando véia, fio. Teu texto me lembrou de ontem no banco: um cara passou por mim dizendo para a esposa “vou pagar esse troço no caixa passando na frente de todo mundo”. E eu cá, sentadinha pensando: E se fosse ele quem tivesse esperando na fila o discurso seria igual?
    Colocar-se no lugar do outro vale para tudo que é momento, né?

  2. felipe

    on 16/09/2008 at 1:39 pm

    Acho que sim. No livro o Amos Oz dá umas dicas valiosas para evitar o fanatismo. Além de se imaginar no lugar do outro ele aconselha que aprendamos a rir de nós mesmos. Para mim são dois conselhos que fazem bastante sentido. :-)