Contra uma Linguagem Sexista

Há alguns anos, quando eu participava de um coletivo de jornalismo independente, tínhamos a preocupação de usar, sempre que possível, uma linguagem inclusiva: ao escrever um texto nós evitávamos escrever para pessoas de um determinado gênero. Assumíamos que nossos leitores poderiam ser de qualquer gênero (feminino ou masculino) e, por isso, não poderíamos excluir ou privilegiar apenas um.

Anos depois, já afastado do coletivo (por vontade própria e por falta de tempo), eu tropeço no mesmo assunto, só que desta vez foi no terceiro capítulo de Read Me First!, um livro sobre escrita técnica editado pela Sun Technical Publications.

A seção, intitulada Avoid Sexist Language, traz a seguinte dica:

In many cultures, language has developed so that “men” often refers to “men and women”, and “he”, “him” and “his” are regarded as gender-neutral words. In decades past, this sentence might have been perfectly acceptable:

Ask your system administrator for his advice.

Today, this usage of “he” and “his” is far less acceptable. These pronouns assume too much about the gender of an individual. Writers who defend the use of such pronouns must contemplate the following: Many readers could interpret a writer’s intentions negatively and could consciously or subconsciously reject the work.

Mas nem sempre é fácil. No coletivo usávamos uma grafia bem menos formal para escrever um texto. Era comum trocar a vogal que definia o gênero de um nome por um símbolo como @ ou underline, deixando a interpretação do gênero para quem estava lendo o artigo. Assim, em vez de escrever garoto (ou garota), escrevíamos garot@, garot_, garotx, etc.

Deixando de lado toda a discussão sobre a estética de um texto onde algumas letras são substituídas por símbolos de arroba, posso dizer que esta forma servia bem para os propósitos dos textos, que eram vinculados na internet e sem nenhum compromisso corporativo ou acadêmico.

Na mesma época eu já trabalhava na Revista do Linux (R.I.P.) e fazia o possível para evitar direcionar um artigo a “um administrador de sistemas”, “um programador” ou “um usuário”. Mas como nossa língua é bastante dependente de gênero, eu sempre acabava optando pelo plural masculino como gênero “neutro”: “administradores”, “usuários”, “programadores”.

Eu fico sempre na dúvida sobre esta neutralidade. Eu ainda não sei, e também não sei se alguém sabe (urgh!), como esta regra foi definida. Porque se foi definida socialmente e naturalmente, pode ser que tenha sido com base em valores antigos, em uma época onde só o homem ocupava determinadas posições na sociedade.

Por outro lado, eu detesto ter que repetir alguns substantivos nos dois gêneros (“os usuários e as usuárias”, por exemplo) e acho a forma “usuários(as)” tão feia quanto “usuári@s”.

Para ter uma idéia do que estou falando, no inglês eu resolveria o exemplo do livro apenas removendo o adjetivo possessivo (Ask your system administrator for his advice). Já esta mesma frase, em português, daria mais trabalho para ser “consertada”. Eu provavelmente acabaria cedendo ao gênero masculino e faria alguma administradora de sistema bufar de raiva ou cansaço.

Enfim, eu não sou lingüista e nem estudo Letras, então não sei o quanto disso é besteira e, em caso negativo, o quanto é solucionável. Para mim, a preocupação parece pertinente. Principalmente a dica de não tentar assumir mais do que devemos sobre as pessoas que vão ler os nossos textos.

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8 Responses to Contra uma Linguagem Sexista

  1. Guilherme says:

    “No coletivo usávamos uma grafia bem menos formal para escrever um texto”

    Você escrevia no ônibus?

    “Eu provavelmente (…) faria alguma administradora de sistema bufar de raiva ou cansaço”

    Só se ela for uma feminista idiota e raivosa.

    “Enfim, eu não sou lingüista e nem estudo Letras, então não sei o quanto disso é besteira”

    É tudo besteira.

    Também:

    http://www.youtube.com/watch?v=XD5L2CxRMG4

    “I think spokesman ought to be spokesperson. I think chairman ought to be chairperson. I think mankind ought to be human kind, but they take it too far, they take themselves too seriously, they exaggerate. They want me to call that thing in the street a personhole cover. I think that’s taking it a little bit too far. What would you call a lady’s man, a person’s person? That would make a He-man an It-person. Little kids would be afraid of the boogieperson. They’d look up in the sky and see the person in the moon. Guys would say come back here and fight like a person. And we’d all sing ‘for it’s a jolly good person.’ That’s the kind of thing you would hear on late-night with David Letterperson.”

  2. Tabgal says:

    Pense que em alemão é sexista o contrário

    sie == ela é usado como “they” e “senhor / senhora” (como o vous do francês)

  3. felipe says:

    Guilherme:

    “Você escrevia no ônibus?”

    Acho que um ‘define:coletivo’ no Google responderia esta. :-)

    Em todo caso: “O termo eventualmente é utilizado para se referir a grupos de pessoas que assumem uma mesma orientação política, artística e/ou estética e reúnem-se associações (normalmente de caráter informal) conhecidas como coletivos”.

    “Guys would say come back here and fight like a person.”

    Bem, já que eu acho que mulheres podem lutar tão bem quanto homens, eu não teria problemas ao usar esta expressão.

    De qualquer forma, o George Carlin reduziu ao absurdo. O que o livro e o post tentam dizer é que, ao escrever um texto técnico, não podemos assumir que apenas pessoas do gênero masculino irão lê-lo.

    Isso é deduzir mais do que deve sobre o leitor (ou leitora heh).

  4. Gostei do post Felipe, às vezes eu pensava nisso mas só em casos extremos, tipo ‘o homem’ quando você quer dizer ‘humanidade’.

    Mas no Inglês ele costumam usar os dois (ao invés de remover), por exemplo:

    “Ask your system administrator for his or her advice”.

    Não sei se isso é formal, mas vejo muito isso por aí. E _acho_ que também podemos fazer isso eu português, fica melhor que garoto(a).

  5. Felipe Mobus says:

    Enquanto eu ache o problema interessante se acreditarmos na hipótese Sapir-Worph (língua limita/molda pensamento), eu não vejo porque ir grandes distâncias para contornar isso, uma vez que é exagero pensar que a nossa sociedade é machista em função disso. As soluções são bem “cumbersome”, servindo mais para poluir o texto do que combatar um suposto machismo. Por arroba @ é terrível, grita em qualquer texto, sorry. botar (a) entre parêntese, não se esquecendo dos pronomes, que devem concordar, também é feio pacas.

    Eu vejo a questão da escolha de equalizar o gênero desconhecido ao masculino como uma decisão de sonoridade e simplificação, como muitas outras na nossa língua. A única opção que não soaria forçada, que poderia ser transportada para a língua falada, seria adotar uma desinência diferente para gênero neutro ou desconhecido. Talvez como já vi por aí, chamar a criança/jovem de gênero indefinido de “menine” por exemplo. Mas nem sempre funcionaria: no caso acima, ficaria “peça conselho ao seu administradore”; o que se faz do artigo e do pronome possessivo? Além disso, isso ia ficar muito parecido (sonoramente) com italiano… e eu não sei gesticular como eles :P

  6. raphael says:

    Felipe (o do comentario), realmente é exagero pensar que a sociedade é machista em função disso, porém eu acho que o ponto do texto e da preocupação com a lingua é: até onde isso perpetua o machismo (e o sexismo, racismo e outros ismos) da sociedade ??

    enquanto fala, é mais simples referir-se a um gênero específico porque normalmente sabemos de quem estamos falando, mas enquanto escrita eu acho muito válido dar um passo a mais e ter um pouco mais de esforço para construir um texto independende de gênero.

  7. Kátia says:

    é muito simples, comissário: basta criar designações para o gênero “tanto faz”. :P

  8. E eu estava contando uma história para alguns amigos neozelandeses:

    – “Cara, e ontem vi @ colega de quarto pelad@!”
    – “Ai meu Deus! Creeeeedo!”
    – “Mas era uma mulher!”
    – “Puuuutz! Que massa!!!”

    É. Falta de gênero em uma língua atrapalha mesmo.

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