Natal sem pães em Gaza

O artigo a seguir foi traduzido, sem autorização, do The Electronic Intifada, um importante portal de notícias sobre o conflito Israel-Palestina. se você preferir, leia o artigo original, em inglês.

A Faixa de Gaza, lar de mais de 1.5 milhões de palestinos, logo ficará sem um dos seus produtos mais essenciais: o pão. Enquanto as famílias no mundo todo celebram o natal, reunindo-se ao redor de uma mesa farta, os pais de Gaza, como eu, não poderão oferecer pão para os seus filhos, a não ser que Israel abra as barreiras comerciais.

Ontem, depois de terminar minha palestra em uma das universidades de Gaza, minha esposa me pediu para comprar alguns pães na cidade de Gaza. Todas as panificadoras da nossa área pararam de trabalhar por causa da falta de farinha de trigo e gás de cozinha, graças ao cerco israelense em nosso território que já dura 18 meses.

Eu dirigi pela cidade de Gaza tentando encontrar alguns pães para as minhas quatro crianças, mas acabei encontrando uma cena miserável. Na volta para minha casa no campo de refugiados Maghazi, que fica no centro da Faixa de Gaza, eu vi dezenas de pessoas fazendo fila para conseguir alguns pães na Padaria al-Yazji. Eu logo percebi que levaria uma ou duas horas até que chegasse a minha vez na fila, e neste tempo o pão já teria acabado. Então eu segui para casa, sem pães.

“Pai, nós queremos comer, nós não temos pães,” reclamou a minha filha mais velha. Eu parei por um instante e então pedi para o meu filho Munir trazer alguns sanduíches de falafel — nossa fast food — para podermos preencher rapidamente o espaço vazio em nossos estômagos. Felizmente, depois de um tempo o Munir voltou trazendo os sanduíches, comprados a um preço alto.

Enquanto comíamos, a minha esposa me pediu para dirigir bem cedo até a cidade de Gaza no dia seguinte para tentar comprar alguns pães. Imagine que hoje em Gaza, comprar um simples pacote de pães envolve ter que acordar de madrugada, comprar um galão de gasolina a um preço muito elevado, já que a gasolina está sendo contrabandeada do Egito, e perder duas ou três horas para conseguir comprar os pães! Claro que este transtorno não torna a minha família especial. Esta é a história de todas as famílias em Gaza que tentam sobreviver no meio desta crise humanitária criada por Israel.

De acordo com Abdel Naser al-Ajrami, presidente da associação de padeiros em Gaza, mais de 27 panificadoras, de um total de 47 na cidade de Gaza, estão fechadas por causa da falta de gás de cozinha e farinha de trigo, já que as fronteiras comerciais estão fechadas, por ordem de Israel, por quase dois meses agora. Al-Ajrami explicou ontem que uma quantidade suficiente destes produtos será distribuída para as panificadoras nos próximos três dias, adicionando que os oficiais do Hamas têm feito grandes esforços para garantir que a quantidade necessária de gás e farinha de trigo possa ser entregue em Gaza.

No dia 18 de dezembro, a Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA) parou a distribuição de comida para os 750.000 refugiados em Gaza, incluindo a minha família, porque ficaram sem farinha de trigo em seu estoque. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Israel permite que apenas 16 caminhões com bens por dia entrem em Gaza. Em contraste, 475 caminhões por dia entraram na Faixa de Gaza em maio de 2007 quando a milícia do Hamas tomou o controle da região depois de uma luta com as forças do partido Fatah, do presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas.

Com a aproximação do Ano Novo, fica incerto o que teremos nos armazéns de Gaza já que um acordo de cessar-fogo de seis meses entre Israel e os grupos de resistência da Palestina terminou no começo desta semana. Em resposta à prisões e mortes extrajudiciais de palestinos pelas forças israelenses, os grupos de resistência de Gaza lançaram novamente foguetes contra o sul de Israel. Com a aproximação das eleições em Israel, o destino de famílias como a minha torna-se interesse da retórica política, cada candidato tentando fazer o seu melhor nas promessas de danos contra as nossas vidas. Gaza continua sendo a maior prisão à céu aberto do mundo. Entretanto, diferente de outras prisões, aqui é permitido que os internos passem fome. Enquanto isto, os carcereiros israelenses continuam sem a devida punição dos Estados Unidos e da União Européia pelos seus crimes.

Rami Almeghari é contribuidor da The Electronic Intifada, IMEMC.org e Free Speech Radio News. Rami é também tradutor senior de inglês e editor-chefe do centro de notícias internacionais em Gaza do Serviço de Informação Palestino e professor sobre tradução política e midiática na Universidade Islâmica de Gaza. Ele pode ser contatado através do e-mail rami_almeghari A T hotmail D O T com.

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16 Responses to Natal sem pães em Gaza

  1. caio1982 says:

    Eu tava gostando do texto do Rami até “no meio desta crise humanitária criada por Israel”, uma pena que ele não escapou da Lei-de-Godwin-do-Oriente-Médio. A tradução pelo menos ficou excelente (sem conferir o original, apenas por não ter achado bits invertidos no texto) :-)

  2. felipe says:

    Valeu Caio. Se achar algum erro, manda a errata que eu aplico.

    Sobre a “crise humanitária criada por Israel”, infelizmente, eu não sei se existiria um termo mais apropriado para definir a situação. :-(

  3. Tabgal says:

    Dada a capacidade de diálogo e negociação de ambos os lados se chega a tristes conclusões.

    Não conheco muito bem “de perto” o estilo israelense (só pela fama mesmo), mas conheço bem de perto o estilo ‘palestino/árabe’ etc :P

    Só queria saber o que as pessoas que estão lá acham do Hamas e dos grupos de resistência. De verdade. E se tudo fosse invadido por Israel, e daí?! Ah vão ter que ler o Talmud ao invés do Corão, é isso?!

  4. felipe says:

    Pois é Tabgal, preciso concordar que os ‘brimos’ possuem um estilo bem peculiar de diálogo. hehe

    Acho que o principal problema está na incapacidade de Israel respeitar os limites de territórios. Já ocupam bem mais do que deveriam e pelo visto os planos são de ocuparem tudo.

  5. caio1982 says:

    Felipe, o termo apropriado o cara escolhe… agora ele dizer “criada por Israel” é uma afronta contra a inteligência dos leitores do artigo. Até podem dizer que o cara é imparcial porque é e acabou, mas ser parcial ou não != ignorância conveniente, IMHO.

    Resumindo: se fazer de coitado é fácil, pra ambos os lados :-)

  6. Rudá says:

    Ok, estou comovido, e? Tipo, não vai mudar nada.

  7. felipe says:

    Rudá, eu sei que não vai mudar nada. Mas eu acho que certas notícias simplesmente não aparecem por aí. Pelo menos eu não vi nada sobre isso até agora na TV ou nos jornais.

  8. Rudá says:

    Felipe, elas até aparecem, no jornal nacional há bastante cobertura mostrando o conflito sob um ponto de vista até bem amigo dos Palestinos. Eu já fui muito de me ligar nesses lances, colar no blog, ler esse jornal ai que tu citastes, mas… Enfim, não estou lá participando ou agindo e não vai mudar o conflito porque eu estou bem informado. Aqui tá cheio de conflito Israel x Palestina (metaforicamente falando) e também ninguém levanta a bunda.

  9. felipe says:

    Mas Rudá, quanto niilismo! hehe Se não vale a pena nem replicar o depoimento de um civil, vamos todos lavar as mãos, comprar pipoca e assistir qualquer coisa enquanto todo mundo se mata por aí.

    Estar bem informado pode não alterar o curso de um conflito, mas muda algo em quem se informa. Se não, qual é o papel de qualquer mídia? Para quê elas existem?

    Quem tiver bunda, que levante! :-)

  10. Rudá says:

    A mídia existe para satisfazer uma necessidade ou no mínimo como instrumento de manipulação (para o “bem” ou pro “mal”). Ok, chega de ser “niilista”. :D

    É bom acordar os pequenos neos da Matrix então.

  11. Rudá says:

    BTW, seu blog é (na maioria das vezes) legal, gosto de lê-lo.

  12. felipe says:

    Valeu, Rudá! :-)

  13. Rudá says:

    Bom, agora sabes que esse racionamento e cerco foi estratégico. Ataques a área com mísseis, uma possível invasão na área de Gaza para Israel pegar o que é deles e promover a paz.

  14. felipe says:

    Pois é, Rudá. O EI diz que são pelo menos 195 mortos com os ataques. Em um outro blog eu li que são mais de 200. Desumano. :-/

  15. Rudá says:

    Mantenha-se informado no http://www.jpost.com/ in the name of G-d

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