
Brat Pack
A capa aí de cima é de Brat Pack, história em quadrinhos de Rick Veitch sobre um grupo de heróis coadjuvantes e desajustados que vive em Slumburg. Tem herói homossexual, viciado em drogas, bêbado, uma velhinha pervertida e sacana e tem também um outro mais linha dura, quase nazista e que toma esteróides. Em comum todos têm a característica de esbanjar violência com sadismo e sarcasmo.
A história começa com a morte do grupo original e o recrutamento de novas pessoas para substituírem os finados. O fedelho da capa, depilando a perna, é o Chippy, uma espécie de Robin: pequeno, um pouco frágil e sempre zoado por todo mundo. O padrinho dele no grupo é o Doninha, um herói que “saiu do armário e foi para as ruas, ansioso para agarrar os perpetradores do crime e do preconceito pelos pentelhos!“.
Toda esta subversão dentro do mundo dos super-heróis não é por acaso. Quando ainda era roteirista do Monstro do Pântano na DC Comics, Rick Veitch fez uma história onde o Monstro se encontrava com Jesus Cristo. A HQ já estava em produção e a editora resolveu cancelar por considerá-la potencialmente ofensiva.
Depois deste episódio Veitch começou a repensar sua posição e resolveu pedir demissão. Começou a desenhar e produzir as suas próprias HQs, sem precisar da aprovação de ninguém. A própria morte do Bando de Pirralhos, logo nas primeiras páginas, pode ser encarada como uma crítica à DC por ter matado o parceiro do Batman depois de uma votação onde os fãs decidiram pela morte do menino prodígio.
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Salman Rushdie
Outra confusão que envolve liberdade de expressão, publicação e religião (mas esta com mais destaque na mídia) são os vinte anos da fatwa contra Salman Rushdie por causa do polêmico Os Versos Satânicos. Na época da publicação do livro houve protestos da comunidade islâmica em todo canto do mundo, com direito a queima de livros e tradutor japonês assassinado.
Mês passado, a edição de 22 de fevereiro da Folha de São Paulo trouxe a tradução de uma entrevista de duas páginas que Rushdie concedeu para o jornal El País. Este trecho do texto introdutório à entrevista parece digno de ser citado:
O egípcio Naguib Mahfouz, Nobel de Literatura em 1988, reagiu à fatwa ditada contra Rushdie acusando Khomeini de terrorismo intelectual, mas, mais tarde, observou que ninguém tem o direito de ofender as crenças dos demais.
A visão de Rushdie é diametralmente oposta: “Sem o direito de ofender”, observou em certa ocasião, “não é possível falar em liberdade de expressão”. E: “Não há nada mais fácil do que impedir que um livro nos ofenda. Basta fechá-lo”.
Em fevereiro também teve o relato do o escritor Ian McEwan para a revista The New Yorker sobre a experiência de abrigar Rushdie quando até o Hezzbollah pedia a cabeça do autor. Além disso, o The Guardian disponibilizou um vídeo de oito minutos sobre os 20 anos da fatwa contra Rushdie. Se tiver um tempinho, assista.
Eu comecei a ler Os Versos Satânicos há pouco tempo e estou meio enrolado com a leitura, mas posso dizer que discordo de alguns comentários que li no Living Social, onde algumas pessoas disseram que o livro não tem nada de ofensivo. Se o leitor conhece um pouco sobre o Islã ele provavelmente vai perceber várias ofensas já na segunda parte do livro, Mahound. O livro possui uma narração toda fragmentada e está cheio de referências.
Aliás, José Saramago também causou uma certa indignação na igreja católica quando escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas nada comparável com o tumulto causado pelos Versos Satânicos. É até curioso, porque quando li o Evangelho achei legal Cristo pedir perdão para os homens pelos atos de Deus. Mas no caso da fatwa contra Rushdie parece que o contrário ainda é necessário: perdoe-os, eles não sabem o que fazem.