Há uns dois meses, comprei um DVD com uma encenação de Hamlet pelo Teatro Oficina. A sinopse dizia que esta versão do Zé Celso, “embalada por bossa-nova, batuque, samba e rock”, não tinha perdido “a força dramática”, mas sim colocado em evidência a “contemporaneidade do texto e intensidade do tema”.
Eu nunca tinha lido Shakespeare. Não sei ao certo a razão, mas desconfio que seja por causa dessa aura de erudição que atribuem a ele, como se a sua obra fosse intocável, difícil de ler. Mas eu tinha comprado este DVD, o material parecia bom e, na minha cabeça analítica, eu precisava ler antes a peça para poder compreender melhor as “experimentações” que o Teatro Oficina tinha feito. Comprei então a edição de Hamlet publicada pela L&PM, traduzida por Millôr Fernandes e que custa dez reais em qualquer livraria ou banca de revista.
Comecei a ler meio desconfiado e, algumas páginas depois, eu já estava rindo, adorando a leitura. No começo cheguei até a desconfiar da tradução do Millôr, pensando que o tom humorístico do texto era culpa da tradução. Conferi com o original e gostei mais ainda da tradução. Hamlet é trágico, mas nem por isso é aborrecido. E tem seus momentos de humor, sim!
Li Hamlet rapidinho e, no outro dia, já comprei A Megera Domada (The Taming of the Shrew), também traduzido pelo Millôr. Desta vez eu tive um pequeno problema: graças ao uso da peça em uma novela da Rede Globo, o Petrúquio aparecia para mim com a cara do Eduardo Moscovis. Mesmo assim, foi recompensador ler Shakespeare de novo.
É claro que existe profundidade na obra de Shakespeare. Existem diversos trabalhos acadêmicos que provam isso, alguns até explorando a personalidade e a sanidade de alguns personagens, como pude constatar no Abril de Shakespeare. Mas as peças de Shakespeare também servem para aqueles que procuram apenas entretenimento, afinal, ele escrevia suas peças para o povo.
Depois, fui fisgado pelos Sonetos. A culpa foi do La République des Livres, que publicou um artigo sobre a dedicatória misteriosa que a obra traz. Li alguns dos sonetos online, novamente comparando traduções e o texto original, e depois cheguei a listar todos as obras do bardo que eu espero ler. Mas antes de prosseguir com as leituras, eu precisava encarar Ham-Let, a montagem em DVD que eu havia comprado.
Aproveitei uma manhã de sábado e comecei a assistir o primeiro disco. A primeira impressão positiva que eu tive foi da disposição do palco e da platéia, tudo meio misturado, sem aquela separação arcaica de público e espetáculo. A peça também começa com um prelúdio, incluindo o nascimento performático do príncipe, como se estivessem passando um filme em fast forward até o ponto da primeira cena do livro, onde os guardas avistam, pela primeira vez, o fantasma do rei assassinado.
A segunda impressão positiva foi a mistura de elementos pop e contemporâneos, como rock, blues, projeção de vídeo e legendas, personagem com a cara do Sílvio Santos e algumas descontextualizações. Além disso, a peça não tem pudores e está cheia de nudez, homoerotismo e até masturbação, tudo com o devido close durante as filmagens. Outra surpresa que eu não esperava encontrar era o Pascoal da Conceição, o Dr. Abobrinha do Castelo Rá-tim-bum, interpretando Polônio, o pai de Ofélia.
Depois de 1:58h, a primeira parte acabou. Quando coloquei o segundo disco, minha cabeça explodiu: ainda restavam mais três horas de filme! Ham-Let é uma peça com cinco horas de duração! Tive que esperar uma semana para ter tempo livre e poder assistir o segundo disco. Valeu cada segundo, valeu cada centavo dos R$ 29,90 que paguei no DVD.
Além da peça, o primeiro disco traz dois extras que não perdi tempo em assistir: uma entrevista com Zé Celso, passeando com o elenco pelas ruas de São Paulo com direito a vinho e bexigas verdes, e um documentário sobre a trajetória do Teatro Oficina, com depoimentos de Zé Celso, Marcelo Drummond e Camila Mota. Por causa desses extras, li O Rei da Vela.
Com um DVD, dois pocket books, uma palestra e a internet, eu aprendi e confirmei que:
- Nunca devemos nos curvar diante da “elitização” de uma determinada obra ou autor, principalmente no teatro;
- Precisamos ignorar nossos preconceitos quando o assunto for arte. Experimentar primeiro, reclamar depois;
- Nunca é tarde para “descobrir” o Teatro Oficina. O Oficina é um patrimônio, ou um anti-patrimônio, muito valioso;
- A sensação de descoberta e de estranhamento ao ler um livro, é impagável;
- Uma coisa leva à outra;
- Ler Shakespeare é sensacional!



9 Comments
Eu nunca li Shakespeare, sei lá porque. Na verdade, acredito que pelo desânimo e pela elitização e erudição que colocam nas obras dele. Eu preciso de uma descoberta assim. Mas não sei por qual começar, já que não teria pique de começar com uma peça de 5 horas de duração hahahahaha.
Beijo
Tá, lê essa tradução de Hamlet do Millôr. A peça é pequena, o Teatro Oficina que fez ela render cinco horas. :-) E eles têm uma peça de sete horas também!
Aah agora entendo porque do screen capture :P
Bom, o filme de Hamlet é longo também, curiosa essa mistura de livro curto com representação longa. Mas pra mim é estranho ler coisas no formato ‘peça de teatro’
Mas você tem razão, gosto de ler coisas sem ter opinião formada, as vezes os acadêmicos estragam tudo.
Bem, vai ver o que eu considero curto para um livro não é curto para o teatro… Preciso investigar isso. hehe
Gostei do primeiro ponto dos seis: abaixo a elitização pedante da arte naturalmente universal, pau no rabo de quem lê os clássicos só pra dizer que leu um clássico e ri igual ao Clodovil!
Esta é a idéia, Caio.
Ah, deixei os seis pontos só porque te incomoda o fato de eles não serem cinco e nem dez. :-)
Não vou entrar nos méritos teatrias de tudo isso hehehe… te indico a leitura de Plinio Marcos, Dois perdidos numa noite suja!
ps: vc disse que ia me mandar algo pelo correio. Já mandou, devo esperar? mandei meu endereço pro seu e-mail. Beijos.
Ah, entra nos méritos sim, Leco! :-)
Bem, Felipe, essa sensação de prazer estético acompanha, até agora, todas as encenações do Oficina que já vi. Comecei aos 16 anos, vendo “Os Pequenos Burgueses”, em uma encenação magistral. Depois, uma vez contaminado pelo virus do bem do Zé Celso, vi “Na Selva das Cidades”, “Galileu, Galilei” (fantástica….), “O Rei da Vela”, e depois de um tempo, “Esperando Godot”. Finalmente a última, a mais fantástica experiência em teatro que já vi: “Os sertões”. Fiqei encantado, registrei no blog: http://etcerera.blogspot.com/2007/10/os-canudos-do-jos-celso.html
Vou comprar esse DVD, não vi a peça, ficarei com a experiência registrada.
Valeu pela dica!
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[...] O livro indispensável desta lista. Nunca pensei que a seria tão prazerosa. A tradução do Millôr Fernandes, publicada pela L&PM, é muito boa e barata. Li comparando com o original, disponível em abundância na internet. Não perca tempo e leia logo. Assista também a adaptação feita pelo Teat(r)o Oficina, disponível em DVD: 5 horas de gozo. [...]
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