Certa vez, em um evento de divulgação do vegetarianismo, eu fiquei encarregado do sorteio de alguns brindes. Corri até em casa, peguei um saquinho de pano e as peças de um tabuleiro de Go. De volta no auditório, expliquei: neste saco tem peças brancas e pretas. As pretas são predominantes. Se você tirar uma peça branca, ganha um brinde.
Tudo corria bem. Alguns ganharam brindes, muitos não ganharam nada. Entre alguns “que pena!” e poucos “oba!”, um sujeito me interrompe:
- Mas que racismo! Por que a peça preta é a ruim?
É claro que ele não tinha ganhado nada. Fingi que não escutei e prossegui com o sorteio. Depois do evento, o pessoal da organização concordou que aquele cara era meio esquisito. Eu diria paranóico, mas vou adotar esquisito por questões diplomáticas.
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Quando eu era pequeno um amigo mais velho me mostrou uma edição da revista Casseta Popular. O nome dele era Everton, mas nós o chamávamos de Eto. Através dele conheci também a Chiclete com Banana, o Geraldão e muitas outras revistas e personagens que foram essenciais para a minha formação.
Para quem estava crescendo com a Turma da Mônica e Marvel Comics, aquilo era o paraíso. Nudismo, palavrões, ataques aos costumes familiares, porralouquice das boas. Eu tinha meus 10 ou 11 anos e às vezes interrompia a leitura de Geraldão para constranger o meu pai, perguntando o que significava algumas expressões que os personagens usavam. Normalmente eram metáforas para masturbação, mas meu pai sempre fugia de uma resposta objetiva para isso.
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Durante o ginásio e o segundo grau, tive contato com muito material considerado politicamente incorreto.A começar pela dupla Beavis & Butthead, que não economizavam em palavrões, violência e atitudes que podem ser consideradas de moral duvidosa. Para mim era um prato cheio, ainda mais que eles passavam o dia no sofá assistindo vídeoclipes de bandas de rock que eu também gostava.
Nesta época tinha também o RPG. Uma categoria de jogos que provavelmente ajudou muito no desenvolvimento da criatividade de muita gente. Invocávamos criaturas, demônios, elementais, descíamos o sarrafo em todo mundo nas partidas de D&D. E claro, ficávamos indignados quando líamos nas revistas especializadas que algumas organizações religiosas e familiares eram contra o jogo e gostariam de proibi-lo.
Outro marco desta minha fase dos 11 aos 18 anos foi o primeiro disco do Planet Hemp. Eu nunca fumei maconha. Nem mesmo ao estilo Bill Clinton, sem tragar. Mas eu adorava aquele disco e aquelas letras e a condição marginalizada que ele tinha. Tocava em todas as festas do pessoal da escola. Junto com este disco também tocavam outros de bandas de punk rock, com letras contra a igreja, contra o consumismo, celebrando a liberdade, xingando políticos. Enfim, contra o sistema, cara!
Eu pirava nessas coisas, para o desespero dos meus pais. E até hoje gosto, só que prefiro letras e idéias mais refinadas.
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Na empresa onde eu trabalhava, uma vez recebemos uma piada na lista off-topic. Não lembro bem como era, mas falava de uma mãe negra amamentando seu filho com uma banana e do menino erguendo os braços quando ela dizia “Arrota, filho! Arrota”, frase foneticamente parecida com “A ROTA filho, a ROTA!”.
Lembro que eu respondi criticando a piada, dizendo que era sem graça e preconceituosa. Hoje eu vejo que até gosto da parte da ROTA, mas o lance da banana ainda me incomoda. Algumas pessoas defenderam a mulher que repassou o e-mail, outras criticaram e então a dicussão morreu, como todas as threads inúteis que acontecem no mundo virtual
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Agora tá rolando um bafafá com um comediante brasileiro, o Danilo Gentili. Ele comparou o King Kong com jogadores de futebol, que segundo o humorista são macacos que vão para a cidade, ficam famosos e daí querem agarrar uma loira gostosa. Neste contexto, ficou subentendida a comparação de negros com macacos, por causa de vários fatores que eu tenho a maior preguiça de citar agora.
Para resumir, ele está sendo investigado sob a acusação de racismo. Nesta novela toda, destacam-se dois tipos de telespectadores: os que defendem o Gentili e os que acusam ele de preconceito.
Quem acusa, é claro, acusa de racismo. Chamar um negro de macaco sempre foi uma atitude racista. Desde os meus tempos de menino eu sei disso. Na terceira série do primário eu lembro muito bem de um amigo que sempre ficava sem par nas apresentações de danças folclóricas da escola. Misteriosamente, ele era pobre e negro.
Aqueles que defendem Gentili acusam o mundo de onda paranóica e insuportável do pensamento politicamente correto. Se você viu preconceito na piada, o problema é com você, que é politicamente correto (PC) ou então racista mesmo, como o Gentili escreveu em sua própria defesa.
Eu confesso que não achei graça na piada do Gentili. Mas no geral eu não vejo graça nas piadas dele e nem desta leva de humoristas brasileiros que resolveram retomar o stand up comedy com um lag considerável. Tudo bem que estamos acostumados a ter acesso às novidades só depois de muito tempo do lançamento delas em países como os EUA e o Japão, mas não imaginava que este atraso pudesse chegar a tanto.
Também acho que não foi a intenção dele ser preconceituoso. Poucas pessoas teriam culhões para sair publicamente se declarando racista. Mas independente da qualidade questionável do humorista, tem uma coisa que está martelando a minha cabeça: eu tenho a impressão de que o politicamente correto é o novo ser mitológico da galera, uma mistura de bode expiatório com Satã. Algo demoníaco e que justifica o comportamento de muita gente; um encosto!
Mas será que qualquer demonstração de simpatia pelo politicamente correto é mesmo ruim? Digo, normalmente eu não acho graça em piadas sobre gays, gordos e negros, porque a maior parte delas serve para reforçar o status quo. Mas é claro que tem casos que fogem à regra. Eu adoro ver South Park, Monty Python e filmes escrachados e esteriotipados como a A Espaçonave das Loucas, Borat e, em breve, Brüno. E eu não me sinto ofendido quando assisto essas coisas. Mas basta cinco minutos de Zorra Total para eu ver uma forma de humor que poderia ser engraçada no tempo dos meus avós, mas que agora está defasada e pode sim ser considerada preconceituosa (homofóbica, misógina, racista, etc).
Os tempos mudaram, as coisas evoluem. Será que qualquer manifestação em defesa destas mudanças é mesmo ruim? Porque se for, eu sou um PC. Eu apóio a linguagem inclusiva, muito bem apresentada para nós pelas nossas irmãs feministas, como disse o Richard Dawkins na FLIP deste ano. Eu não gosto de piadas onde negros são comparados com macacos ou gordos com elefantes. Além de não ver graça, eu realmente não gosto. Acho que o humor pode ser feito de forma bem mais inteligente, como nossos amigos norte-americanos fazem muito bem e por isso dominam a indústria do entretenimento. Aliás, diga-se de passagem que Gentili não se safaria de uma tremenda confusão com uma piada destas nos EUA.
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O que eu queria mesmo, era perguntar:
- Por que é ruim criticar uma piada de mau gosto?
- Por que é ruim mudar nossa forma de nos expressar em relação aos nossos semelhantes?
- Por que a culpa é do politicamente correto e não do Gentili?
- Existem piadas preconceituosas? Ou é tudo uma conspiração do povo politicamente correto?
- Qual é a linha que separa o humor politicamente incorreto do humor preconceituoso?
- Por que pessoas como eu não se ofendem com Robert Crumb e South Park, mas se ofendem com Zorra Total?
- Se tudo é culpa do politicamente correto, então vale qualquer coisa?
Passei rápido pelo post e gostei bastante, vou “jogar” algumas coisas que pensei:
1. Percebo que qualquer comentário “não a favor” que você faz sobre uma piada gera o comentário que você é Politicamente Correto, é quase uma arma ou uma maneira de rotular você para que o emissor da piada não se sinta mal
2. Sim, muitas vezes fui “acusado” de ser PC, embora não me veja assim e South Park é o seriado que mais gosto
3. Quando li o lance do Gentili não pensei em negro, e só fui entender do que se tratava quando continuei lendo
4. Por experiência própria posso dizer que tenho 100% de certeza que é possível ofender/deprimir qualquer um, é só descobrir onde dói :)
O problema com o racismo, homofobia, machismo &c. não é simplesmente que eles sustentam o Sistema. O problema é que eles são burros. Eu odeio o machismo da indústria de videogames não porque acho que as mulheres são coitadinhas que precisam ser defendidas, mas porque acho uma imbecilidade sem tamanho.
acho legal frisar q nem todo humor norte-americano eh bom, como ficou parecendo no seu texto. muito dele trata de tirar uma onda com negros e gordos tambem. penso que no brasil eh exatamente isso que faz mais sucesso por aqui; mais sucesso porque tambem tem piadas muito boas, do mesmo grupo de humoristas … ou seriam comentarios sarcasticos e/ou de duplo sentido, ao inves de piadas propriamente ditas ?
eh um assunto muito confuso, ainda vao anos nessa discussao.
“Por que a culpa é do politicamente correto e não do Gentili?”
Eu diria que a culpa foi 40% dele e 60% do Politicamente Correto. Um comediante como ele deveria saber que negros em piadas são tão sensíveis quanto brincar com judeus o é nos EUA, é bom evitar e fazer piada com outra coisa. Por quê? Não sei, eu diria que é culpa de fatos sociais mal resolvidos (racismo) e do PC moderno.
Convenhamos, o nível de nostalgia anos 80 de hoje em dia chega até a irritar. Música, moda etc, mas o humor totalmente politicamente INCORRETO não rola, é tudo muito certinho. Quem foi que falou outro dia no Twitter que Tv Pirata nunca duraria no ar hoje em dia?
Acho que isso tem a ver como os grupos afetados reagem: não existe grupos de carecas contra piadas sem cabelo, idem pra girafas e elefantes como o Gentili diz, mas tá cheio de “100% negro” por aí esperando pra gritar um pouco. Tô sendo racista? Acho que não, mas não duvido que me vejam assim.
“Se tudo é culpa do politicamente correto, então vale qualquer coisa?”
IMHO? Vale, seleção natural cuida do resto. Eu troco de canal quando começa Zorra Total, você não?
Eu acho que muita gente, inclusive você, está comprando uma “indignação enlatada” a respeito dessa piada do Gentili. Indignação falsa de racista enrustido, que arrota politicamente correto e caga racismo (o que não é surpresa nenhuma, já que o padrão brasileiro de “igualdade racial” é esse mesmo), e viu aí uma “oportunidade” de arrotar um pouco mais alto.
Considero esta piada muito inteligente, pois é uma armadilha mental que reflete como um espelho o racismo do observador.
Basicamente o Gentili estabeleceu um paralelo entre dois itens bem conhecidos bem conhecidos: a loira do filme King Kong, e a famosa afirmação do Edmundo (talvez apócrifa, mas ainda assim famosa) que todo jogador de futebol compra uma Cherokee, uma loira e uma casa pra mãe com o primeiro dinheiro que ganha. Apesar da fama de “Animal”, o Edmundo soube fazer autocrítica (ele mesmo tinha uma Cherokee, destruída num acidente).
Onde está o negro na história?
1) Não creio que o Edmundo estivesse admoestando apenas os jogadores negros.
2) Se alguém enxerga ligação entre pessoas negras e o King-Kong, favor explicar, já que minha síndrome de Asperger não me permite ver tal ligação :)
Elvis, perfeito.
“Na terceira série do primário eu lembro muito bem de um amigo que sempre ficava sem par nas apresentações de danças folclóricas da escola.”
Isso me lembrou o Cirilo, de uma novela mexicana do STB chamada Carrossel http://pt.wikipedia.org/wiki/Carrusel, ele era apaixonado justamente pela menina mais nazistóide da escola!
Mais um exemplo de que o PC é uma doença moderna, além do exemplo acima da Tv Pirata: procurem pela crônica Esforço Cerebral do Stanislaw Ponte Preta. Outros tempos em que o PC não limitava criatividade, outros tempos.
# Por que pessoas como eu não se ofendem com Robert Crumb e South Park, mas se ofendem com Zorra Total?
acho que o sarcasmo, felipinho. zorra total me ofende porque é bobo e quer me tratar como um idiota que cai em piada facinha.
mas, sabe: eu tenho dificuldade em diferenciar sarcasmo de grosseria em alguns momentos, assim como guardo minhas opiniões sarcásticas só para quem eu sei que vai entendê-las como sarcasmo e só.
ah, sim. quando li “Através dele conheci também a Chiclete com Banana” por uma fração minúscula e angustiante de tempo achei que você se referia à banda. :P
@Elvis:
E é claro que o Gentili pensou mesmo em tudo isso antes de fazer uma piada tão inteligente, tão delicadamente moldada. :-)
No mais, se você não sabe que “macaco” é um termo usado por racistas para ofender negros, como deu a entender no ponto final do seu comentário, e que o king-kong é um macaco, eu acho que vivemos mesmo em mundos diferentes…
Sim, eu não sou racista o suficiente para enxergar o racismo numa piada que pretendia zoar com jogadores de futebol.
Ah é, tinha me esquecido que piadas com jogadores brancos que pegam loiras depois de ricos são mesmo muito comuns…
Essas discussões recentes estão me incomodando, e acho que é porque eu não consigo tomar um lado. Deve ser porque vocês todos estão errados!!1! :P
Eu pessoalmente acho chato (e muitas vezes “prejudicial”) qualquer “pressão moral” sobre o comportamento alheio. Isso inclui muitas instâncias do tal do “politicamente correto”, mas podem incluir também instâncias do “movimento anti-politicamente-correto”.
(Eu estou usando uma definição bem abrangente de “pressão moral”. Pela minha definição, se eu chamo alguém de chato eu estou fazendo pressão moral. Se eu estou dizendo que algo é errado e prejudicial eu estou fazendo pressão moral.)
É isso que torna o assunto complicado (e ao mesmo tempo interessante): se eu não gosto de receber nem moral, a minha insistência em não fazer pressão moral tem um potêncial bem grande de virar o mesmo tipo de pressão moral que eu critico. 8)
Acho que é um problema de níveis: qualquer discussão sobre a moralidade de espalhar sua própria moral não vai levar a lugar nenhum. Acho que é *por isso* que essas discussões me causam um incômodo e inquietação.
No final das contas, são todos memes brigando para sobreviver na nossa cabeça[1].
[1] Inclusive a idéia de “são todos memes brigando para sobreviver na nossa cabeça”. 8)
Bah. s/receber nem moral/receber nem exercer pressão moral/
@felipe: a citação do edmundo não é um exemplo de piada equivalente mas que inclui jogadores brancos?
Mas isso não importa, já que o próprio autor da piada do King Kong diz no seu blog ter se referido a negros.
@Eduardo: Pode ser que a citação do Edmundo seja uma um exemplo de piada que envolve todas as etnias de jogadores. Mas o fato é que eu nunca ouvi um comentário maldoso sequer sobre um “jogador branco” ter preferência por loiras. Mas como você disse, o Gentili mesmo já concordou que falou de jogadores negros… I rest my case.