Há alguns anos eu resolvi colecionar selos. A empolgação não durou muito tempo, mas serviu para eu descobrir que filatelia ou numismática ensinam História por tabela.
Uma vez comprei na feira do Largo da Ordem um pacote com 150 selos de “países árabes”. Voltei pra casa extasiado. Espalhei todos os selos na mesa e descobri que eram todos de um único país do qual eu nunca tinha ouvido falar: Dhufar.
Hoje a seleção brasileira marcou dois gols contra o time de Omã. A pergunta que eu mais ouvi foi “onde diabos fica Omã?”. Eu chutei que ficava perto da Líbia, e não poderia ter errado mais. Omã faz fronteira com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Iêmen.
Por causa deste jogo eu lembrei de novo dos selos: eles não valem nada. Na verdade nem são considerados selos, propriamente dito. São bogus, cinderelas. Estampas que se parecem com selos, mas que não são. A história é um pouco confusa e está incompleta no único site com informações de verdade sobre o assunto, mas vou me arriscar a fazer um resumo mesmo assim.

Dhufar — ظفار, em árabe — é uma das principais regiões do Sultanato de Omã (سلطانة عمان). A província fica no sul do país e tem traços culturais diferentes do resto do sultanato. Nesta região, por exemplo, há línguas que não são faladas nas outras regiões de Omã.
Durante o reinado do sultão Sa’id bin Taimur (1932 – 1970), Dhufar era administrada como uma espécie de propriedade particular do sultão, que preferia Dhufar à Mascate. Ele até chegou a morar em Salalah, a capital da província, no fim dos anos 50.
Por estas diferenças culturais e por ser uma região privilegiada pelo Khareef, a monção que ocorre em Dhufar entre os meses de junho à setembro, a província sempre foi explorada. Alguns habitantes da região, por não falarem árabe, também tinham mais restrições que o restante da população do país. Esta situação levou à criação da Dhufar Liberation Front (DLF), um movimento separatista formado por jovens comunistas em 1965. A DLF foi derrotado depois de uma tentativa de assassinato promovida contra o sultão Taimur em 1966.
Em 1968 a DLF começa a receber ajuda do Iêmen e, em um congresso, surge um novo movimento separatista, o Popular Front for the Liberation of the Occupied Arabian Gulf (PFLOAG). O PFLOAG foi apoiado pela China e pela Rússia, com fornecimento de armas e treinamento militar. As armas eram enviadas pela China para a PFLOAG através de Aden, com a permissão do govermo do Iêmen. Com isso já dá pra deduzir a fórmula: separatistas + armamento = confusão das bravas.
Enquanto o exército do sultão tinha armas velhas da Segunda Guerra, a PFLOAG e o DLF tinham armas modernas, como AK-47. Para acalorar ainda mais a situação, outro movimento revolucionário surge em Omã, mas desta vez ao norte: a National Democratic Front for the Liberation of Oman and the Arabian Gulf (NDFLOAG).
Em 23 de julho de 1970 o sultão Said bin Taimur foi deposto e exilado em Londres, sendo substituído pelo seu filho Qaboos bin Said Al Said, que reina até hoje como sultão de Omã. É neste momento, com o sultão deposto e uma possível vitória dos movimentos separatistas, que a confusão dos selos começa.
O imã deposto, que gerenciava a cidade de Mascate durante o reinado de Taimur bin Faisal, antes do reinado de Said bin Taimur, resolveu apoiar os rebeldes separatistas, como uma tentativa frustrada de voltar ao poder. Frustrada porque os rebeldes nunca tiveram simpatia pelo imã. Eles eram contra o imã tanto quanto eram contra o sultão.
Mas neste meio tempo, um libanês esperto chamado Youssef Salim Tadros, que era amigo do imã e responsável pela impressão de selos de Omã até então, percebeu a situação otimista da rebelião, resolveu sair na frente e fazer selos para Dhufar, o país que estava sendo criado. Não se sabe se ele chegou a consultar o imã ou algum outro líder exilado antes de tomar esta posição, mas para ele pouco importava. Com tantas notícias sobre a guerra em Omã circulando pelo mundo, ficaria fácil fazer os selos serem aceitos por filatelistas como provenientes das regiões ocupadas. A comunidade internacional, como sempre sabendo pouco sobre os problemas deste canto do mundo, não perceberia que os seguidores do Imã exilado e a PFLOAG eram entidades completamente diferentes.
Entretanto, com o apoio da Inglaterra, os rebeldes foram derrotados e o sultanato de Omã acabou sendo restabelecido e reconhecido pelos outros países árabes. Com este reconhecimento, Omã pôde fazer parte, em 1971, da União Postal Árabe, da União Postal Universal, da Liga dos Estados Árabes e das Nações Unidas. Os planos de separação de Dhufar tinham falhado, e com a ascensão de Omã à União Postal Árabe, os selos impressos por Tadros já não tinham mais validade.
Por alguma razão misteriosa, Damasco ainda aceitou os selos de Tadros até junho de 1972, o que permitiu que o espertalhão permanecesse no negócio por mais um tempo. Especula-se que tenha sido pelos bons contatos que Tadros deveria ter enquanto fornecia selos oficiais para vários países árabes e a tradição do governo sírio de abrigar diversos líderes de oposição do Oriente Médio.
Hoje estes selos não valem nada. Você pode comprar eles pela internet a um preço ridículo, já que eles nunca tiveram o status oficial de selo postal.
Se por um lado eu acho legal ter selos de uma tentativa frustrada de golpe, por outro eu reconheço que eles não devem valer mais do que um selo criado por mim, por exemplo, para algum país da minha imaginação. Ninguém nunca vai considerar minha criação como comprovante de pagamento de serviços postais.
Mas não posso negar que estes selos serviram para que eu fosse atrás de um pedacinho da história de Omã, o país que não conseguiu vencer o Brasil, mas que segundo o locutor do jogo, abriga muitos trabalhadores brasileiros.
5 Comments
Post foda! Mas… você quis dizer hímen, darfur, imã? :-P
Chega!! :-)
Btw, quando vai migrar os posts dos outros blogs pra cá? Tava mesmo sentindo falta de um post por aqui.
Então, renovei o domínio do Logorréia e vou tentar mantê-lo por mais um ano. Se eu não conseguir mesmo, passo pra cá.
Gosto de saber dessas curiosidades
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