Lista com um pequeno comentário sobre os livros que li este ano:
De Pernas pro Ar – Eduardo Galeano (ISBN: 8525408336)
O livro reúne diversos textos que demonstram que vivemos em um mundo aos avessos, onde empresas que fabricam minas terrestres para guerras também lucram horrores com o desarmamento das próprias minas e ditadores continuam com cargos altos e respeitáveis mesmo depois de depostos. Gostei do cuidado que o autor teve de listar, ao final de cada capítulo, a bibliografia consultada para escrevê-lo. Um ponto negativo? O Galeano parece meio implicante com videogames.
Preconceito Lingüístico – Marcos Bagno (ISBN: 9788515018895)
Li este livro na faculdade, em 2002, eu acho. Guardei meu xerox do livro por muito tempo, até que finalmente comprei esta 49ª edição e reli. Muito recomendado, principalmente se você é um desses policiais da “boa fala” e do português “correto”.
The Catcher in the Rye – J. D. Salinger (ISBN: 9780316769488)
Favorito de Washington Olivetto (rá!) e testemunha de um dos assassinatos mais famosos da história. Desdenhei um pouco o livro depois de lê-lo, achei overrated. Hoje gosto mais. Não é provocador como eu pensava, mas é muito bem escrito. Se quiser experimentar o estilo do Salinger antes, sugiro a leitura do conto A Perfect Day for the Bananafish.
Os Cus de Judas – António Lobo Antunes (ISBN: 9788560281053)
As memórias de um médico português na guerra de independência de Angola. Narrativa fragmentada, não linear e que mistura as memórias da guerra com as lembranças da infância e da juventude. Foi a melhor mesa da FLIP deste ano.
O Senhor Walser – Gonçalo M. Tavares (ISBN: 9788577340910)
Eu confesso: li este sem comprar, dentro de uma livraria, enquanto tomava café. Não foi uma boa experiência. O Gonçalo Tavares é um dos grandes escritores portugueses desta época. O Saramago já disse que tem até vontade de surrar o rapaz pela audácia dele escrever tão bem aos trinta anos. Esta série, chamada de O Bairro, é composta por livros-personagens ilustres, como o senhor Walser, o senhor Kraus, o senhor Calvino, o senhor Brecht e outros. Preciso voltar a este cara mais tarde.
Hamlet – William Shakespeare (ISBN: 9788525406118)
O livro indispensável desta lista. A tradução do Millôr Fernandes, publicada pela L&PM, é muito boa e barata. Li comparando com o original, disponível em abundância na internet. Não perca tempo e leia logo. Assista também a adaptação feita pelo Teat(r)o Oficina, disponível em DVD: 5 horas de gozo.
A Megera Domada – William Shakespeare (ISBN: 9788525408822)
Li no embalo, logo depois de Hamlet. Gostei muito também e não posso parar de ler Shakespeare. O meu problema foi uma novela da Globo, que infectou a minha cabeça com a imagem do Eduardo Moscovis como Petrúquio.
As Criadas – Jean Genet (sem ISBN)
O Caio deu risada quando me viu com este livro. Disse que a vida do Genet era feita só de keywords que me chamavam a atenção. Não discordo. A leitura também teve um gosto especial por ser da Deriva, uma editora independente e, acho que posso dizer, anarquista. Quero muito ler Diário de um Ladrão.
Os Versos Satânicos – Salman Rushdie (ISBN: 9788535912876)
Esqueça a polêmica da fatwa. Esqueça que o livro provoca o islamismo, mas não esqueça da história do islamismo antes de começar a ler. Se você conhecer um pouco sobre a história de Maomé, aproveitará muito mais a leitura.
O que eu quero dizer é que este livro deve ser lido pelos seus méritos literários e não pelo rebuliço que causou. Principalmente porque o livro é uma boa conversa sobre a condição do imigrante. Para ajudar a decifrar as referências culturais à índia e ao Islã, consulte o Notes on Salman Rushdie: The Satanic Verses. O autor do site, Paul Brians, me contou que levou cinco anos para coletar todas elas.
Um Retrato do Artista Quando Jovem – James Joyce (ISBN: 8500013788 e 9780142437346)
Obra prima. Este livro está até agora remoendo na minha cabeça. Não vejo a hora de poder relê-lo. Romance autobiográfico onde Joyce recria o seu trajeto de criança, em um ambiente carregado de dogmas religiosos e políticos, até a fase adulta, onde se torna um artista de pensamento independente. Li uma edição nacional antiga comparando-a com o texto original, em inglês.
Contos Irlandeses do Início do Século XX – Luci Collin e Guilherme Silveira (ISBN: 9788589485715)
Este livro é organizado pela professora Luci Collin, da UFPR, que também comandou o Bloomsday deste ano. Os contistas desta compilação se dividem em dois grupos, os que abordam o passado e a mitologia da Irlanda e os que abordam a Irlanda contemporânea. Tem Briam Stoker, Joyce, Lady Gregory, Yeats e outros. Li depois de Um Retrato do Artista Quando Jovem, pra ver se ganho o background mínimo para aproveitar a leitura de Ulisses.
On the Road – Jack Kerouac (ISBN: 9788525413208)
Tudo aquilo que H. Caulfield não fez, está aqui. Uma aventura de verdade e que possivelmente deprimiu muitos leitores e leitoras que precisaram voltar ao trabalho e à família depois da última página.
O Cavaleiro Inexistente – Italo Calvino (ISBN: 9788535906790)
Simplesmente genial. Uma armadura vazia que se convence que é um homem e adquire vida. Um cavaleiro tão perfeito, que não existe. O Ivan me contou em uma aula que este livro forma uma trilogia junto com O Barão nas Árvores e O Visconde Partido ao Meio. Já coloquei os outros dois na minha wish list.
James Joyce – Edna O’Brien (ISBN: 8573022604)
Mais um livro que li como preparação para a leitura de Ulisses. Apesar de boa parte desta biografia estar em Um Retrato do Artista Quando Jovem — a palmatória, a descoberta da sexualidade, o conflito entre a religião e o pensamento livre, o declínio financeiro da família, o desejo de exílio — o livro compensa por contar outros momentos da vida de Joyce, principalmente as histórias sobre a publicação de Dublinenses e Ulisses e as boas almas que acreditaram no gênio e aguentaram a ranhetice do autor: Srta. Weaver e Srta. Beach.
Haroun e o Mar de Histórias – Salman Rushdie (ISBN:8585391049)
Rashid, que vivia de contar histórias em comícios, certo dia perde o dom da palavra. Uma fábula infanto-juvenil com conteúdo para adultos, no melhor estilo de Alice no País das Maravilhas. É possível traçar um paralelo deste livro com fatwa declarada contra o autor por causa d’Os Versos Satânicos.
Flores – Mario Bellatin (ISBN: 9788575038116)
Pequenos contos que juntos formam uma história sobre experiências genéticas e deformações. Eu li Flores por um motivo que o próprio Bellatin detestaria: interesse no autor. Ele é tão contra a valorização do autor sobre a obra, que já chegou até a apresentar uma palestra sobre um escritor japonês que nunca existiu. Para a surpresa do autor, o público comprou as lorotas e até se interessou pela obra do escritor fictício.
Em uma outra ocasião, Bellatin irritou o público ao organizar um congresso na França sobre literatura mexicana. Não levou nenhum grande nome ao evento. Ao invés disso, preparou pessoas anônimas para se apresentassem no congresso no lugar dos autores.
O Indiferente e o Fim do Ciúme – Marcel Proust (ISBN: 8586270067)
Livro pequeno e muito bom. Foi uma das melhores leituras do ano. O Indiferente é uma novela que deveria constar em Os Prazeres e os Dias, primeira obra publicada de Proust. O autor resolveu tirá-la do livro e publicá-la em uma revista obscura chamada La Vie Contemporaine. A novela foi “redescoberta” em 1978.
O Fim do Ciúme é considerada como uma das novelas mais profundas de Os Prazeres e os Dias e, neste “livrinho”, o texto ganha uma nova tradução para o português.
5 Comments
Um dia vai ter que me emprestar esse com contos irlandeses ;-)
ei, isso aqui por acaso eh uma cutucada ? -> policiais da “boa fala” e do português “correto”
Sim, foi uma cutucada. :-)
Ao contrário, o Kerouac DESdeprimiu muita gente que NÃO voltou para o trabalho e a família. O que é deprimente é a visão de mundo empreguista.
Eu posso não ter caído na estrada, mas os beats (mais o Burroughs que o Kerouac; considero-o infinitamente superior) foram influência fundamental na minha decisão de abandonar o mundo corporativo computeiro, que foi a melhor decisão que já tomei na vida.
Eu também gosto mais do Burroughs. Aliás, preciso reler Almoço Nu. E realmente, o On the Road também pode libertar o leitor. Mas até agora só conheço leitores que voltaram pro cárcere, reclamando. :-)
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[...] O Dois Espressos fez, o Lendo.org fez, o Caio também fez e agora eis que chega a minha vez. [...]
[...] UPDATE: o Felipe Arruda também montou sua lista de leituras. [...]
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