Faço parte do grupo de pessoas que conheceu David Foster Wallace (DFW) por volta de 12 de setembro de 2008, quando o escritor resolveu dar fim à sua vida. Por enquanto, “Breves Entrevistas com Homens Hediondos” é o único livro dele publicado no Brasil e é leitura recomendadíssima. Impossível ficar indiferente a contos como “Para sempre acima” e “A pessoa deprimida”.
Mas foi lendo “Consider the lobster” que descobri que tenho uma certa birra com autor. Explico: quase gozo com os textos dele, mas tendo a me decepcionar quando o trabalho é de não ficção e envolve as opiniões pessoais de DFW.
A primeira birra com esse livro vem logo no começo, com uma peça que tinha tudo para me conquistar: “Big Red Son”, artigo sobre o “Oscar” da indústria pornográfica norte-americana, o AVN Awards.
Apesar de ser engraçado e de relatar detalhes deliciosos sobre o background do entretenimento adulto dos EUA, o tom de superioridade na escrita de DFW me incomoda um pouco. Basicamente, não ando mais com paciência para piadas de auto-afirmação ou sobre palavras mal pronunciadas.
Originalmente, o artigo foi publicado na revista Premiere e assinado sob os pseudônimos de Willem R. deGroot e Matt Rundlet. Repercurtiu a ponto de ganhar respostas da AVN sobre alguns erros e incongruências.
[Em tempo, "Big Red Son" não me broxou tanto quanto "Authority and American Usage", que foi detonado no blog Languagehat]
Kayden Kross, porn star e fã de DFW
Um dos problemas de “Big Red Son”, na minha opinião, é o autor tratar a indústria toda como um bando de pessoas completamente idiotas e abaixo dele. E é claro que ele pegou alguns exemplos que cabem muito bem nessa categoria, como o famoso Paul F. Little, conhecido internacionalmente como Max Hardcore.
[Se você acha a pornografia mainstream de mau gosto e misógina, você terá vontade de esquartejar o Max Hardcore ao ver os filmes dele. Basicamente, o sujeito levou tudo de ruim da indústria a um patamar insuportável e, por isso, é odiado e amado por muitos.]
Mas há quem fuja dessa amostra de pessoas detestáveis. Um bom exemplo é a atriz Kayden Kross, que recentemente foi parar em uma matéria da CNN sobre o uso do Twitter por estrelas pornôs, posando ao lado de um livro do autor. Na rede de microblogs, ela se descreve como “ateísta reformada” e que “acredita em coisas ilógicas e sem respaldo científico a respeito de David Foster Wallace”.
Depois de algumas mensagens na wallace-l, ficou impossível não perguntar para Kross se ela leu “Big Red Son”. Surpreendentemente, obtive resposta:

Extra: gírias da indústria pornográfica
Apesar de eu achar que o tom de “Big Red Son” é uma de superioridade vertical irritante, DFW continua me agradando com os pormenores enciclopédicos que só ele sabe agregar a um texto. Há quem ache isso um defeito ou pedantismo imperdoável, mas para mim é o que torna tudo mais divertido.
O melhor “bônus” desse artigo, na minha opinião, é o vocabulário com gírias usadas pelos profissionais da indústria pornográfica. Basicamente, o ator viril é chamado de woodman e, nesse caso, os melhores são aqueles que não esperam muito pela wood (ereção).
O pior que pode acontecer a um woodman é ter um wood trouble e, quando isso insiste em permanecer, eles recorrem a um ato chamado de fluff, que é nada menos do que um fellatio realizado longe das câmeras, para que o ator volte pronto para a cena. Algumas produções mais caras possuem até uma classe de profissionais dedicadas a esse serviço: as fluff girls.
Normalmente, as fluff girls são B-girls em potencial, ou seja, atrizes de segundo ou terceiro escalão que recebem muito menos do que as estrelas principais e que se submetem às piores cenas da película. Isso, obviamente, com o objetivo de um dia se tornarem reconhecidas e bem remuneradas.
Quando um filme possui cenas de sexo anal e vaginal, ele é conhecido como Tush ‘n’ Bush. Já skeet serve tanto como verbo quanto como substantivo e diz respeito ao orgasmo masculino e ao material expelido durante o ato. Money shot é a filmagem bem sucedida da ejaculação de skeet e uma cena girl-girl, como é de se esperar, diz respeito ao sexo sáfico, que costuma estar previsivelmente presente nas produções destinadas ao público masculino heterossexual.
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Resumindo, não gosto de me decepcionar ideologicamente com autores pelos quais tenho adoração. Isso me lembra, por exemplo, o racismo de Monteiro Lobato ou o apoio ao nazismo de Ezra Pound. No fundo, é claro que obra e autor nem sempre devem se misturar, mas explicar isso para a minha cabeça de bagre é bem difícil. Prova é a leitura de “Consider the Lobster”, interrompida meio que a contragosto. Mas pretendo voltar ao livro mesmo assim, já que me sinto mal deixando algo pela metade.
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