Felipe Arruda

Eu uso monocelha e acho legal!

Archive for the ‘Idiomas’ Category

Contra uma Linguagem Sexista

with 8 comments

Há alguns anos, quando eu participava de um coletivo de jornalismo independente, tínhamos a preocupação de usar, sempre que possível, uma linguagem inclusiva: ao escrever um texto nós evitávamos escrever para pessoas de um determinado gênero. Assumíamos que nossos leitores poderiam ser de qualquer gênero (feminino ou masculino) e, por isso, não poderíamos excluir ou privilegiar um determinado gênero.

Anos depois, já afastado do coletivo (por vontade própria e por falta de tempo), eu tropeço no mesmo assunto. Só que desta vez foi no terceiro capítulo de Read Me First!, um livro sobre escrita técnica editado pela Sun Technical Publications.

A seção, intitulada Avoid Sexist Language, traz a seguinte dica:

In many cultures, language has developed so that “men” often refers to “men and women”, and “he”, “him” and “his” are regarded as gender-neutral words. In decades past, this sentence might have been perfectly acceptable:

Ask your system administrator for his advice.

Today, this usage of “he” and “his” is far less acceptable. These pronouns assume too much about the gender of an individual. Writers who defend the use of such pronouns must contemplate the following: Many readers could interpret a writer’s intentions negatively and could consciously or subconsciously reject the work.

Mas nem sempre é fácil. No coletivo usávamos uma grafia bem menos formal para escrever um texto. Era comum trocar a vogal que definia o gênero de um nome por um símbolo como @ ou underline, deixando a interpretação do gênero para quem estava lendo o artigo. Assim, em vez de escrever garoto (ou garota), escrevíamos garot@, garot_, garotx, etc.

Deixando de lado toda a discussão sobre a estética de um texto onde algumas letras são substituídas por símbolos de arroba, posso dizer que esta forma servia bem para os propósitos dos textos, que eram vinculados na internet e sem nenhum compromisso corporativo ou acadêmico.

Na mesma época eu já trabalhava na Revista do Linux (R.I.P.) e fazia o possível para evitar direcionar um artigo a “um administrador de sistemas”, “um programador” ou “um usuário”.

Infelizmente, nossa língua é bastante dependente de gênero e, mesmo quando eu tentava generalizar, acabava optando pelo gênero masculino: “administradores”, “usuários”, “programadores”.

No português brasileiro, por convenção, usamos o plural masculino como uma forma “neutra”. Mas eu fico sempre na dúvida sobre esta neutralidade. Eu ainda não sei, e também não sei se alguém sabe (urgh!), como esta regra foi definida. Porque se foi definida “socialmente”, pode ser que tenha sido definida com base em valores antigos, em uma época onde só o homem ocupava determinadas posições na sociedade.

Por outro lado, eu detesto ter que repetir alguns substantivos nos dois gêneros (”os usuários e as usuárias”, por exemplo) e acho a forma “usuários(as)” tão feia quanto “usuári@s”.

Para ter uma idéia do que estou falando, no inglês eu resolveria o exemplo do livro apenas removendo o adjetivo possessivo (Ask your system administrator for his advice). Já esta mesma frase, em português, daria mais trabalho para ser “consertada”. Eu provavelmente acabaria cedendo ao gênero masculino e faria alguma administradora de sistema bufar de raiva ou cansaço.

Enfim, eu não sou lingüista e nem estudo Letras, então não sei o quanto disso é besteira e, em caso negativo, o quanto é solucionável. Para mim, a preocupação parece pertinente. Principalmente a dica de não tentar assumir mais do que devemos sobre as pessoas que vão ler os nossos textos.

Written by felipe

October 21st, 2008 at 9:11 pm

Ciao, mangiapane!

without comments

Estou lendo Máfia, livro de Michele Pantaleone que conta a origem e história da máfia siciliana. O livro é de 1962 e o seu título original é Mafia e Politica. Porém, eu não sei de quando é esta tradução que tenho aqui, publicada pela Editora Nova Fronteira. Só sei que o livro é um pouco velho, daqueles que abusam do chapéuzinho do vovô e acentuam palavras como “sôbre”, “bôlso” e “têrmo”.

Ainda estou no começo da leitura, mas achei engraçado como algumas coisas estão relacionadas e eu nem fazia idéia disto. Já que os Fenícios foram um dos tantos povos que ocuparam Palermo na antiguidade, acabei aprendendo que existe uma pequena influência da civilização árabe por lá também, pois a Fenícia ficava onde hoje é o Líbano.

Talvez por isso uma das teorias para a origem do termo mafiusu, segundo a Wikipedia, é a derivação das palavras árabes mahyas (alguém que se gaba demais) ou marfud (rejeitado). Nesta semana vou tentar confirmar o significado destas palavras com a minha professora de árabe.

Mas uma parte do livro que realmente cativa o leitor (e os amigos dele) é o vocabulário de termos sicilianos usados pelos “homens de honra”. Em alguns instantes você terá piadas parecidas com aquelas da época em que Tropa de Elite era novidade. Seja isso ruim ou não, aqui vão alguns dos termos presentes no livro:

  • ‘ncarugnutu (que virou carniça): alguém que recua frente aos deveres da máfia
  • astutaturi (aquele que paga): assassino
  • rifardu (falso): estrangeiro
  • canna de stenniri (haste de vime): fuzil militar
  • maredda (papel usado para envolver açúcar): moça
  • villutu (veludo): amante
  • minera (mina): esposa
  • pizzu (bico): quota fixa para a proteção da máfia
  • vagnare lu pizzu (molhar o bico): pagar o pizzu; gratificação para homens da máfia
  • speranzari (ter esperança): fugir para o exterior
  • scrusci-scrusci (que faz barulho): alguém de confiança, que é mandado a frente em tropa de vanguarda
  • piciuciu: que não é digno de consideração
  • spirtu: astuto
  • astutatu (apagado): assassinado
  • spisusu ( que faz as despesas): rico
  • a cavaddu (a cavalo): armado com fuzil
  • vacanti (vazio): desarmado
  • malacarni (carne de animal morto de repente): pessoa audaz, capaz de qualquer ação delituosa
  • spingularu (recolhe pontas de cigarros com alfinete): ladrão de galinhas
  • sparaciu (aspargo): carcereiro em serviço
  • lampiuni (lampião): carcereiro na guarita
  • parracu grani (pároco grande): prefeito
  • vicariu (vigário): delegado de polícia
  • pizzicatu (beliscado): preso pela polícia
  • amicu: advogado da máfia
  • di panza: homem que fala pouco e que resiste aos interrogatórios
  • cocciu di tacca (jovem de fogo): jovem audaz
  • caggiu: jovem de boa família
  • pizipinturru: brigão, rixoso
  • bardascia: fanfarrão

Pesquisando pelos termos na internet também encontrei este glossário siciliano-italiano. Pode ser útil para outros que estejam lendo o mesmo livro.

Written by felipe

September 1st, 2008 at 11:25 pm