Archive for the ‘Leituras’ Category
Undecided
To put them in perspective, I think of being on an airplane. The flight attendant comes down the aisle with her food cart and, eventually, parks it beside my seat. “Can I interest you in the chicken?” she asks. “Or would you prefer the platter of shit with bits of broken glass in it?”
To be undecided in this election is to pause for a moment and then ask how the chicken is cooked.
Yes, I know I’m late, but this article written by Sedaris is definitely worth reading. (via Flavio Moura)
Contra uma Linguagem Sexista
Há alguns anos, quando eu participava de um coletivo de jornalismo independente, tínhamos a preocupação de usar, sempre que possível, uma linguagem inclusiva: ao escrever um texto nós evitávamos escrever para pessoas de um determinado gênero. Assumíamos que nossos leitores poderiam ser de qualquer gênero (feminino ou masculino) e, por isso, não poderíamos excluir ou privilegiar um determinado gênero.
Anos depois, já afastado do coletivo (por vontade própria e por falta de tempo), eu tropeço no mesmo assunto. Só que desta vez foi no terceiro capítulo de Read Me First!, um livro sobre escrita técnica editado pela Sun Technical Publications.
A seção, intitulada Avoid Sexist Language, traz a seguinte dica:
In many cultures, language has developed so that “men” often refers to “men and women”, and “he”, “him” and “his” are regarded as gender-neutral words. In decades past, this sentence might have been perfectly acceptable:
Ask your system administrator for his advice.
Today, this usage of “he” and “his” is far less acceptable. These pronouns assume too much about the gender of an individual. Writers who defend the use of such pronouns must contemplate the following: Many readers could interpret a writer’s intentions negatively and could consciously or subconsciously reject the work.
Mas nem sempre é fácil. No coletivo usávamos uma grafia bem menos formal para escrever um texto. Era comum trocar a vogal que definia o gênero de um nome por um símbolo como @ ou underline, deixando a interpretação do gênero para quem estava lendo o artigo. Assim, em vez de escrever garoto (ou garota), escrevíamos garot@, garot_, garotx, etc.
Deixando de lado toda a discussão sobre a estética de um texto onde algumas letras são substituídas por símbolos de arroba, posso dizer que esta forma servia bem para os propósitos dos textos, que eram vinculados na internet e sem nenhum compromisso corporativo ou acadêmico.
Na mesma época eu já trabalhava na Revista do Linux (R.I.P.) e fazia o possível para evitar direcionar um artigo a “um administrador de sistemas”, “um programador” ou “um usuário”.
Infelizmente, nossa língua é bastante dependente de gênero e, mesmo quando eu tentava generalizar, acabava optando pelo gênero masculino: “administradores”, “usuários”, “programadores”.
No português brasileiro, por convenção, usamos o plural masculino como uma forma “neutra”. Mas eu fico sempre na dúvida sobre esta neutralidade. Eu ainda não sei, e também não sei se alguém sabe (urgh!), como esta regra foi definida. Porque se foi definida “socialmente”, pode ser que tenha sido definida com base em valores antigos, em uma época onde só o homem ocupava determinadas posições na sociedade.
Por outro lado, eu detesto ter que repetir alguns substantivos nos dois gêneros (”os usuários e as usuárias”, por exemplo) e acho a forma “usuários(as)” tão feia quanto “usuári@s”.
Para ter uma idéia do que estou falando, no inglês eu resolveria o exemplo do livro apenas removendo o adjetivo possessivo (Ask your system administrator for his advice). Já esta mesma frase, em português, daria mais trabalho para ser “consertada”. Eu provavelmente acabaria cedendo ao gênero masculino e faria alguma administradora de sistema bufar de raiva ou cansaço.
Enfim, eu não sou lingüista e nem estudo Letras, então não sei o quanto disso é besteira e, em caso negativo, o quanto é solucionável. Para mim, a preocupação parece pertinente. Principalmente a dica de não tentar assumir mais do que devemos sobre as pessoas que vão ler os nossos textos.
Nanquim eletrônico

Esquire #75 - Capa com E Ink
Para comemorar os 75 anos de publicação, a revista Esquire publicou uma edição especial com uma capa feita com o papel eletrônico da E Ink. No site da revista é possível encontrar mais detalhes sobre o processo de confecção das capas e perceber o quão trabalhoso foi tudo.
Para ter uma idéia, o display das capas foram montados na China e, cada capa, finalizada manualmente no México. Para piorar a situação, as baterias que fazem o display funcionar duram cerca de 90 dias e, por isso, parte do transporte das capas foi feito em caminhões refrigerados, para que a baixa temperatura ajudasse a preservar a vida das baterias.
Apesar de bonita, a idéia não foi muito bem aproveitada e gerou um pouco de decepção nos leitores e geeks de plantão. O vídeo a seguir mostra a capa da edição #75 piscando e o anúncio da Ford (que também pisca):
O Boing-Boing, a Wired e a Make Magazine (warning: geek pr0n) não perderam tempo para reportar a frustração com o pisca-pisca hi-tech. Alguns leitores até compararam a capa com um relógio digital.
De qualquer forma, acho que a iniciativa foi boa, inclusive para o consumidor, que pagou seis dólares pela edição. Apenas dois dólares a mais que o preço normal da Esquire.
No meu bolso eu já carrego um pedaço do tal papel eletrônico desde que meu EL 71 morreu. Faz umas duas semanas que sou mais um proprietário do Motorola F3, o Motofone. O celular foi desenvolvido para ter baixo custo e poder aproveitar o mercado de países em desenvolvimento e, ao invés de um display LCD, traz um feito com E Ink.

Motorola F3
A parte boa é que a bateria do celular dura bastante, já que há pouco consumo. Além do display “pobre”, ele não é cheio de recursos extras. Basicamente ele recebe e faz ligações, recebe e envia SMS, possui uma agenda de contatos e função de despertador. O meu saiu por R$ 30 e ainda trouxe R$ 15 de bônus para ligações entre aparelhos da mesma operadora.
A parte ruim é que, assim como a capa da Esquire, o E Ink não foi muito bem aproveitado. O display exibe no máximo 6 caracteres por linha e duas linhas por tela. Para escrever e ler mensagens, a situação é um pouco pior: apenas uma linha e a impossibilidade de corrigir uma palavra sem apagar todos os caracteres que sucedem o erro.
Já o Kindle parece usar o E Ink de maneira melhor. Tem suporte a até 4 tons de cinza e, ao que parece, não é feito com células pré-definidas que acendem e apagam para formar um texto. Entretanto, é basicamente limitado ao idioma inglês, já que tem apenas fontes para este idioma.
O jeito é esperar para ver o que mais aparece por aí usando papel eletrônico. Particularmente, eu adoraria ter um dispositivo eletrônico para ler jornais e revistas. Isto resolveria o meu problema com espaço.
Por enquanto eu só não abro mão do formato tradicional dos livros.
Ciao, mangiapane!
Estou lendo Máfia, livro de Michele Pantaleone que conta a origem e história da máfia siciliana. O livro é de 1962 e o seu título original é Mafia e Politica. Porém, eu não sei de quando é esta tradução que tenho aqui, publicada pela Editora Nova Fronteira. Só sei que o livro é um pouco velho, daqueles que abusam do chapéuzinho do vovô e acentuam palavras como “sôbre”, “bôlso” e “têrmo”.
Ainda estou no começo da leitura, mas achei engraçado como algumas coisas estão relacionadas e eu nem fazia idéia disto. Já que os Fenícios foram um dos tantos povos que ocuparam Palermo na antiguidade, acabei aprendendo que existe uma pequena influência da civilização árabe por lá também, pois a Fenícia ficava onde hoje é o Líbano.
Talvez por isso uma das teorias para a origem do termo mafiusu, segundo a Wikipedia, é a derivação das palavras árabes mahyas (alguém que se gaba demais) ou marfud (rejeitado). Nesta semana vou tentar confirmar o significado destas palavras com a minha professora de árabe.
Mas uma parte do livro que realmente cativa o leitor (e os amigos dele) é o vocabulário de termos sicilianos usados pelos “homens de honra”. Em alguns instantes você terá piadas parecidas com aquelas da época em que Tropa de Elite era novidade. Seja isso ruim ou não, aqui vão alguns dos termos presentes no livro:
- ‘ncarugnutu (que virou carniça): alguém que recua frente aos deveres da máfia
- astutaturi (aquele que paga): assassino
- rifardu (falso): estrangeiro
- canna de stenniri (haste de vime): fuzil militar
- maredda (papel usado para envolver açúcar): moça
- villutu (veludo): amante
- minera (mina): esposa
- pizzu (bico): quota fixa para a proteção da máfia
- vagnare lu pizzu (molhar o bico): pagar o pizzu; gratificação para homens da máfia
- speranzari (ter esperança): fugir para o exterior
- scrusci-scrusci (que faz barulho): alguém de confiança, que é mandado a frente em tropa de vanguarda
- piciuciu: que não é digno de consideração
- spirtu: astuto
- astutatu (apagado): assassinado
- spisusu ( que faz as despesas): rico
- a cavaddu (a cavalo): armado com fuzil
- vacanti (vazio): desarmado
- malacarni (carne de animal morto de repente): pessoa audaz, capaz de qualquer ação delituosa
- spingularu (recolhe pontas de cigarros com alfinete): ladrão de galinhas
- sparaciu (aspargo): carcereiro em serviço
- lampiuni (lampião): carcereiro na guarita
- parracu grani (pároco grande): prefeito
- vicariu (vigário): delegado de polícia
- pizzicatu (beliscado): preso pela polícia
- amicu: advogado da máfia
- di panza: homem que fala pouco e que resiste aos interrogatórios
- cocciu di tacca (jovem de fogo): jovem audaz
- caggiu: jovem de boa família
- pizipinturru: brigão, rixoso
- bardascia: fanfarrão
Pesquisando pelos termos na internet também encontrei este glossário siciliano-italiano. Pode ser útil para outros que estejam lendo o mesmo livro.
Microcontos
Depois de ler no blog do Alessandro sobre o concurso de microcontos que está rolando no Twitter, lembrei de duas leituras do ano passado (ou retrasado). A primeira foi de um dos menores contos do mundo, O Dinossauro, do escritor guatemalteco Augusto Monterroso:
Cuando despertó, el dinosaurio todavia estaba allí.
(Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.)
No livro Cartas a um Jovem Escritor, Mario Vargas Llosa usa este microconto como exemplo para explicar, em mais de seis páginas, o ponto de vista temporal de uma narração.
Já a segunda lembrança foi da edição de novembro de 2006 da revista Wired, onde vários escritores (e outros profissionais) foram convidados a demonstrar talento com apenas seis palavras. Entre os convidados estão nomes bastante conhecidos, como Willian Shatner (“Failed SAT. Lost scholarship. Invented rocket.”), Stan Lee (“Automobile warranty expires. So does engine.”), Alan Moore (“Machine. Unexpectedly, I’d invented a time”), Frank Miller (“With bloody hands, I say good-bye.”), Neil Gaiman (“I’m dead. I’ve missed you. Kiss … ?”) e Kevin Smith (“Kirby had never eaten toes before.”).
Como a brincadeira é um tanto intrigante, também resolvi participar do 140 Letras:
#140 Fitando o quarto que acabou de alugar na pensão, lembrou das palavras do pai: é com a escuridão da noite que vemos as estrelas.
Apesar de permitido, não pretendo postar outro conto. Acho que a participação devia ter sido limitada a um ou dois contos por pessoas. Mas já deu para perceber como é difícil expressar-se claramente com tão poucos caracteres. Na minha cabeça o que eu escrevi faz sentido, porque tem toda uma situação que imaginei antes de escrever. Mas isso pode não acontecer para quem lê.
Acho que microcontos valem como exercícios para praticar um dos grandes conselhos para textos técnicos ou textos voltados para a internet: simplifique, simplifique!
