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	<title>Felipe Arruda &#187; Literatura</title>
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	<description>Astronomia, literatura, viagens e outros hobbies e interesses</description>
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		<title>A ciganofobia do homem instalado</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 00:54:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como o homem instalado tem ódio de quem se move, de quem não tem residência fixa, emprego permanente e os cambaus, perseguem, espancam, expulsam dos lugares os que se atrevem a passar. Simplesmente passar. Puta que os pariu! Homens-pregos. A &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2012/02/a-ciganofobia-do-homem-instalado/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Como o homem instalado tem ódio de quem se move, de quem não tem residência fixa, emprego permanente e os cambaus, perseguem, espancam, expulsam dos lugares os que se atrevem a passar. Simplesmente passar. Puta que os pariu! Homens-pregos. A gente da viagem traz alegria, emoção, poesia, sonho&#8230; Porém (e sempre tem um porém), é justamente o que o homem instalado teme. Isso tudo perturba os hábitos seguros da sua rotina, o imobilismo do seu dia-a-dia. Um bando de vagabundos passando. Só por passar perturba a vidinha da comunidade. Provoca estremecimentos. A buceta da mulherada fica molhada, o caralho mole dos homens fica arrepiado&#8230; É por aí. Com certeza é por aí que se abalam as estruturas dos acomodados. Eles se defendem da liberdade com organizações, constituintes, leis, Estado, polícia, tudo o que fortalece um sistema político fixo de poder. E de repente um bando de vagabundo&#8230; são culpados. Culpados. Culpados. As inquietações&#8230; as velhas esperanças&#8230; as imaginações&#8230; essas coisas afloram. Ódio aos culpados&#8230;</p></blockquote>
<p style="text-align: right;"><a href="http://books.google.com.br/books/about/Assassinato_Do_Anao_O.html?id=vaYvI2qTU2sC&amp;redir_esc=y" target="_blank">O assassinato do anão do caralho grande</a> — Plínio Marcos</p>
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		<title>Hercólubus: o planeta-cometa de V.M. Rabolú</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 23:43:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quem vive em Curitiba já deve ter visto, pelas bancas do centro, cartazes sobre &#8220;Hercólubus ou Planeta Vermelho&#8221;, livro de V.M. Rabolú que alerta sobre a ameaça de um planeta-cometa que há de se chocar contra nós. Dia desses, Raquel &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2011/10/hercolubus-o-planeta-cometa-de-v-m-rabolu/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 548px"><img class="   " title="Cartazes promocionais do livro de V.M. Rabolú" src="http://felipearruda.com/novo_planeta_rc.jpg" alt="Cartazes promocionais do livro de V.M. Rabolú" width="538" height="403" /><p class="wp-caption-text">Cartazes promocionais do livro de V.M. Rabolú</p></div>
<p>Quem vive em Curitiba já deve ter visto, pelas bancas do centro, cartazes sobre &#8220;Hercólubus ou Planeta Vermelho&#8221;, livro de V.M. Rabolú que alerta sobre a ameaça de um planeta-cometa que há de se chocar contra nós.</p>
<p>Dia desses, <a href="http://www.todaela.com.br/blogs/all-that-jazz" target="_blank">Raquel</a> me emprestou a cópia dela e prometi que faria uma resenha. Contudo, não sei se darei conta do trabalho. Essa obra, apesar de pequena, pode ser analisada sob tantos pontos de vistas que, por mais que eu me esforce, sei que estou fadado a falhar.</p>
<p>Sendo assim, gostaria de pedir para o estimado leitor e a querida leitora que, indiferentemente do meu texto, se dê ao trabalho de <a href="http://www.hercolubus.tv/hercolubus-ou-planeta-vermelho-portugueses.html" target="_blank">solicitar</a> uma cópia do livro e tirar suas próprias conclusões. O envio é gratuito.</p>
<h2>O ser interno do autor</h2>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 364px"><img title="V. M. Rabolú" src="http://felipearruda.com/rabolu20.jpg" alt="V. M. Rabolú" width="354" height="501" /><p class="wp-caption-text">V. M. Rabolú</p></div>
<p>A página da Wikipedia sobre o autor do livro é pequena e possui poucas informações. Mas a partir dela descobrimos que <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/V._M._Rabolu" target="_blank">V.M. Rabolú</a> é o &#8220;pseudônimo&#8221; de Joaquin Enrique Amortegui Valbuena: agricultor e ocultista colombiano.</p>
<p>Note que eu não gosto de usar aspas desnecessariamente. Aquelas, do parágrafo anterior, foram muito bem pensadas. Explico: Rabolú era discípulo de Samael Aun Weor, fundador do gnosticismo samaelino. Mas Weor é, na verdade, o nome do <strong>ser interno</strong> de Victor Manuel Gómez Rodríguez.</p>
<p>Me falta conhecimento ocultista para poder falar mais sobre essa particularidade. Talvez por isso eu tenha achado o detalhe tão artístico, assemelhando-se muito aos seres internos que habitavam Fernando Pessoa, por exemplo, poeta notavelmente e paradoxalmente místico e cético.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://felipearruda.com/Ercolubus36.GIF" alt="" width="314" height="224" /></p>
<p>Paradoxal, inclusive, pode ser um dos adjetivos que permeiam o texto de Rabolú. Em alguns trechos, o autor — ou o seu ser interno — se contradiz em questão de poucas palavras, chegando inclusive a expor um pouco de ódio nessa mensagem de paz.</p>
<p>É possível traçar mais detalhes da característica psicológica do autor, mas temo ser leviano ao considerar essas suposições como componentes reais e não recursos estilísticos de um escritor que, porventura, queira apenas explorar o limite tênuo que há entre ficção e realidade, sendo que essa última é moldada de maneira ficcional por nosso cérebro real.</p>
<h2>Narração febril e concisa</h2>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 640px"><img title="Em Rabolú, &quot;choque de civilizações&quot; ganha novo sentido" src="http://felipearruda.com/Melancholia.jpg" alt="Em Rabolú, &quot;choque de civilizações&quot; ganha novo sentido" width="630" height="230" /><p class="wp-caption-text">Em Rabolú, &quot;choque de civilizações&quot; ganha novo sentido</p></div>
<p>Nas poucas palavras que compõem a introdução da obra, Rabolú explica que escreveu o livro enquanto estava &#8220;deitado numa cama sem poder levantar nem sentar-me&#8221;. Mesmo assim, venceu a doença ou indisposição que o acometia e redigiu, com muito esforço, a mensagem que compõem esse livro, dedicando-a à Humanidade, sempre com H maiúsculo.</p>
<p>O tom inicial é de extrema desolação. Rabolú anuncia a existência de Hercólubus, planeta com tamanho de 5 a 6 vezes maior do que Júpiter<em>.</em> Depois, o autor fala sobre o descaso que cientistas e terrícolas fazem do astro que vem em direção ao nosso lar.</p>
<p>É impossível não se lembrar de <strong>Melancholia</strong>, último filme de <strong>Lars von Trier</strong>. Mas basta comparar as datas de lançamentos de ambas as obras para saber quem foi que inspirou a quem: a primeira edição de Hercólubus foi lançada em 1998 e a película de Trier chegou aos cinemas apenas neste ano (2011).</p>
<p>O narrador, que ataca de maneira peçonhenta a ciência e as potências mundiais terrícolas, chega a detalhar passos do processo de aproximação do astro invasor em nossos Sistema Solar. Faz, contudo, não com o propósito de aterrorizar, mas de prevenir, já que sofre de angústia pela &#8220;pobre Humanidade&#8221;.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 598px"><img class="  " title="Teria Trier se inspirado no livro de Rabolú?" src="http://felipearruda.com/melancholia_3-1.jpg" alt="Teria Trier se inspirado no livro de Rabolú?" width="588" height="251" /><p class="wp-caption-text">Teria Trier se inspirado no livro de Rabolú?</p></div>
<p>No geral, a narração é concisa e sem detalhes técnicos que possam explicar ou aprovar a veracidade dos fatos. Rabolú se atém ao alarme e, de maneira quase desordenada, febril, interrompe o assunto sobre o planeta vermelho e passa a descrever a vida e a sociedade de Vênus e Marte, seguindo depois para algumas reflexões sobre a morte e as técnicas de desdobramento astral.</p>
<p>Não fica clara a forma como esses temas se interligam, mas é possível deduzir que o desdobramento é uma das maneiras de se preparar para o inevitável choque de Hercólubus contra a Terra.</p>
<h2>Vênus e Marte: sociedades bolsonaristas</h2>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 506px"><img class=" " title="Vênus e Marte, nossos vizinhos" src="http://felipearruda.com/marteevenus.jpg" alt="Vênus e Marte, nossos vizinhos" width="496" height="240" /><p class="wp-caption-text">Vênus e Marte, nossos vizinhos</p></div>
<p>Graças a esse desdobramento astral, Rabolú mantém contato com seres extraterrestres, tendo já visitado as sociedades de nossos vizinhos: Vênus e Marte. O escritor diz não ter &#8220;palavras para descrever a sabedoria, a cultura e a vida angélica que levam esses seres&#8221;.</p>
<p>Porém, ainda perturbado pela incerteza que divide realidade e ficção, me sinto um pouco preocupado com esses povos. Logo no início de sua descrição, Rabolú faz questão de ressaltar que em Vênus não existem &#8220;barrigudos&#8221;, emendando logo em seguida que também não se vê &#8220;pessoas desfiguradas&#8221;.</p>
<p>Como se não bastasse, o narrador faz questão de dizer que em tal planeta também não há &#8220;fornicação como aqui, pois os terrícolas são piores do que as bestas&#8221;. Nesse ponto, notei uma espécie de reminiscência da culpa cristã em relação ao sexo, que se confirma quando Rabolú afirma não existir  &#8221;degenaração sexual como há aqui, que já até os senhores padres estão casando homossexuais, porque o homossexualismo neles não existe. São homens verdadeiros e mulheres verdadeiras&#8221;.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 398px"><img title="Cupido, Marte e Vênus, por Paolo Veronese" src="http://felipearruda.com/cupido-marte-e-venus.jpg" alt="Cupido, Marte e Vênus, por Paolo Veronese" width="388" height="498" /><p class="wp-caption-text">Cupido, Marte e Vênus, por Paolo Veronese</p></div>
<p>É claro que não podemos usar o termo &#8220;homossexual&#8221; — criado pela medicina terrícola para definir supostos desvios de conduta — em uma sociedade tão alienígena. Mas me preocupo pelo ponto de vista de Rabolú.</p>
<p>A vida em Marte é muito parecida com a de Vênus, segundo o autor. Em ambas, a terra é um bem comum e lá não existe o conceito de posse, de &#8220;eu tenho algo&#8221;. Também não são necessários passaportes e permissões para fazer algo ou ir a algum lugar do planeta. Se em Vênus os habitantes usam uniformes, em Marte usam também escudos e capacetes: mas não praticam a guerra entre eles, apenas contra o <strong>mal</strong>. Infelizemnte, Rabolú não define, em momento algum, o que é o mal.</p>
<h2>A morte e o desdobramento astral</h2>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 442px"><img title="De acordo com o autor, quem sonha faz um desdobramento astral involuntário" src="http://felipearruda.com/projecao1.jpg" alt="De acordo com o autor, quem sonha faz um desdobramento astral involuntário" width="432" height="340" /><p class="wp-caption-text">De acordo com o autor, quem sonha faz um desdobramento astral involuntário</p></div>
<p>O capítulo sobre a morte é bastante confuso. Temo não ter a devida formação ou conhecimento para falar a respeito dele. O conceito de alma é traduzido aqui como &#8220;Chispa Divina&#8221; e o ser humano é comparado a uma árvore. A partir daí, a febrilidade do narrador se torna hermética demais. Resta em minha mente apenas o apelo que se deve fazer quando algum defeito se manifestar por meio da mente, do coração ou do sexo: &#8220;Minha Mãe, tira-me este defeito e desintegra-o com a tua lança&#8221;.</p>
<p>Para a prática do desdobramento astral, Rabolú recomenda a entoação de alguns mantrans, como <strong>LA RA S</strong> e <strong>FARAON</strong>. É possível conferir o cantar correto no site da <a href="http://www.hercolubus.tv/hercolubus-ou-planeta-vermelho-portugueses.html" target="_blank">Associação Alcione</a>.</p>
<h2>Conclusão metalinguística</h2>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://felipearruda.com/493186_325.jpg" alt="" width="288" height="400" /></p>
<p>Terminei a leitura com a sensação de que li uma obra carregada de referências a si própria, sendo inclinado a considerá-la como um exercício de ficção ou escrita criativa, cujo tema principal é o humor.</p>
<p>Não digo isso como quem quer ridicularizar o livro e seus seguidores, mas me baseando em um detalhe que pode acabar passando despercebido por alguns. Na última capa, V.M. Rabolú escreve:</p>
<blockquote><p>O que afirmo neste livro é uma profecia a muito curto prazo, porque me consta o final do planeta, conheço-o. Não estou assustando, senão prevenindo, porque tenho angústia por esta pobre Humanidade, já que os fatos não se fazem esperar e <strong>não há tempo a perder em coisas ilusórias</strong>.</p></blockquote>
<p>São as últimas palavras que, ao meu ver, denunciam o inteligente teor humorístico da obra. É como se Rabolú, para nos ensinar que não devemos perder tempo com &#8220;coisas ilusórias&#8221;, tivesse nos apresentado uma profecia que é, por si só, totalmente ilusória. A graciosidade dessa <em>metapiada</em> é o que torna o livro tão singular.</p>
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		<title>Brasil Colônia, Pokémon e testículo de jacaré</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 13:47:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho lido um livro que, apesar de importante, parece pouco conhecido do brasileiro. Se trata de História da província de Santa Cruz, relato de Pero de Magalhães de Gândavo, escrito 76 anos após a chegada de Cabral em nossa terra. &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2011/09/brasil-colonia-pokemon-e-testiculo-de-jacare/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 425px"><img title="Imagem da primeira edição do livro" src="http://felipearruda.com/antiga.png" alt="Imagem da primeira edição do livro" width="415" height="536" /><p class="wp-caption-text">Imagem da primeira edição da História de Gândavo</p></div>
<p>Tenho lido um livro que, apesar de importante, parece pouco conhecido do brasileiro. Se trata de <a href="http://purl.pt/369/1/ficha-obra-gandavo.html" target="_blank">História da província de Santa Cruz</a>, relato de Pero de Magalhães de Gândavo, escrito 76 anos após a chegada de Cabral em nossa terra.</p>
<p>O fato de ser uma obra quinhentista já a torna rara, mas a idade não é só o que conta. Esse é considerado o livro que &#8220;inaugurou a historiografia e a geografia brasileira&#8221;. Claro que existem relatos anteriores a esse, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, mas Gândavo foi o primeiro a escrever com a visão de um historiador.</p>
<p>Porém, não é à toa que o texto é pouco conhecido. Depois de ter sido publicado, em 1576, por Antônio Gonçalves — primeiro editor de Os Lusíadas —, o livro foi convenientemente esquecido pela política de segredo da coroa portuguesa. A ideia era evitar que estrangeiros tivessem acesso às informações valiosas sobre a nova província.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 302px"><img title="Capa da edição da Jorge Zahar Editor, que estou lendo" src="http://felipearruda.com/capa-nova.jpg" alt="Capa da edição da Jorge Zahar Editor, que estou lendo" width="292" height="292" /><p class="wp-caption-text">Capa da edição da Jorge Zahar Editor, que estou lendo</p></div>
<p>Foi só em 1837, com a publicação da tradução francesa do historiador Henri Ternaux, que o texto voltou a ser popular, tornando raros os exemplares de 1576, que logo foram adquiridos por bibliófilos.</p>
<p>A edição que tenho em mãos, e que conheci nessas horas matadas dentro da Biblioteca Pública do Paraná, é de 2004 e foi publicada pela Jorge Zahar. Além das notas e da introdução à obra, o texto passou por uma adaptação para os leitores de hoje, feita por Sheila Moura Hue e Ronaldo Menegaz.</p>
<p>E a leitura tem rendido pesquisas paralelas bem divertidas. Depois de passar pela história do descobrimento e de descrever a geografia, as capitanias e os governos de então, Gândavo trata das plantas e dos animais da província. E é aí que a leitura fica divertida. Pelo menos para um leigo como eu.</p>
<p><span class="Apple-style-span" style="color: #000000; font-size: 22px; line-height: 32px;">Plantas e frutas</span></p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 490px"><img title="A mandioca, domesticada pelos índios, abre o capítulo sobre as plantas" src="http://felipearruda.com/indio-mandioca.jpg" alt="A mandioca, domesticada pelos índios, abre o capítulo sobre as plantas" width="480" height="315" /><p class="wp-caption-text">A mandioca, domesticada pelos índios, abre o capítulo sobre as plantas</p></div>
<p>Obviamente, o capítulo é aberto com a raiz que aqui &#8220;se come em lugar de pão&#8221;: a mandioca. O autor fala da domesticação da planta pelos índios e ressalta diversas formas de preparo do tubérculo, mesmo das espécies &#8220;peçonhentas&#8221;.</p>
<p>Depois, ressalta que aqui temos uma planta que acreditava ter vindo de São Tomé e que muitas pessoas se sustentam da fruta que ela dá. &#8220;É mui tenra e não muito alta, não tem ramos, senão umas folhas que terão seis ou sete palmos de comprido&#8221;. É a banana, que Gândavo diz ter &#8220;feição de pepinos e criam-se em cachos&#8221;.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img title="Yes, we have banana!" src="http://felipearruda.com/bananas.jpg" alt="Yes, we have banana!" width="500" height="333" /><p class="wp-caption-text">Yes, we have banana!</p></div>
<p>Na nota aprendi o nome tupi: <em>pacova</em>, que significa &#8220;folha de enrolar&#8221;. Aliás, as folhas ganham destaque nos relatos de outros autores da época, que alegam serem tão frescas que servem para acalmar a febre de doentes que se deitam sobre elas.</p>
<p>E o capítulo prossegue. São descritas castanhas, cajús,  algumas árvores, os cheirosos ananases (abacaxis), que nascem como alcachofras e cheiram muito bem (&#8220;em tupi, <em>nanã</em>, cheira-cheira&#8221;), e termina falando da dormideira, por causa da característica curiosa de fechar as folhas sempre que alguém toca nela.</p>
<h2>Os animais ou A parte em que cito Pokémon</h2>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 385px"><img title="Aaawwnn!" src="http://felipearruda.com/babytapir.jpg" alt="Aaawwnn!" width="375" height="280" /><p class="wp-caption-text">Aaawwnn!</p></div>
<p>Para começar, algo que eu desconhecia: o único bicho domesticado pelos índios foi o pato-do-mato. Cavalos e gados foram trazidos de Cabo Verde, pelos portugueses. E depois de falar sobre animais de carne saborosa, como a capivara, Gândavo cai em um dos bichos mais legais: a anta, conhecida em tupi como <em>tapir</em>.</p>
<p>(Tentarei não mencionar dados sobre o pênis do animal, que vi quando era criança, num passeio ao zoológico de Curitiba. Enfim, foco!)</p>
<p>O que me chamou a atenção foi a etimologia da palavra anta, que uma nota diz ser de origem árabe. Eu tentei rastrear pela internet, mas o mais perto que cheguei foi da palavra &#8220;Lamt&#8221;, indicada pelo blog <a href="http://origemdapalavra.com.br/palavras/anta/">Origem da Palavra</a>. Procurei no dicionário Hans Wehr, mas não encontrei nada parecido. Problema de transliteração, talvez. Para piorar, o artigo árabe da Wikipedia se refere ao animal como &#8220;tabirat&#8221;, que parece uma variação de &#8220;tapir&#8221;. Se alguém souber de uma referência mais concreta, me conte, por favor.</p>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 209px"><img class="   " title="Drowzee, o comedor de sonhos" src="http://felipearruda.com/drowzee.gif" alt="Drowzee, o comedor de sonhos" width="199" height="214" /><p class="wp-caption-text">Drowzee, o comedor de sonhos</p></div>
<p>Lendo mais sobre a anta, aprendi que no folclore japonês elas possuem a habilidade de comer o sonho das pessoas. Portanto, como sagazmente percebeu a querida Bruna Fujie, não é à toa que o pokémon <a href="http://bulbapedia.bulbagarden.net/wiki/Drowzee_(Pokémon)" target="_blank">Drowzee</a> se alimenta dessa forma.</p>
<p>Depois de alguns elogios às carnes da paca, da cutia e do tatu, de afirmar que a onça é um tigre e de tirar sarro da preguiça (&#8220;ainda que ande quinze dias aturados, não vence a distância de um tiro de pedra&#8221;), Gândavo também fala do tamanduá e de algumas espécies de macacos. Inclusive, conta que os micos-leões-dourados morrem durante a viagem quando tentam levá-los para fora do Brasil.</p>
<p>O autor também fala das cobras, inclusive com dados fantásticos sobre algumas delas, que teriam grandes asas ou a capacidade de se regenerar. Mas a grande revelação vem da descrição dos &#8220;lagartos mui grandes&#8221; que, provavelmente, seriam os jacarés.</p>
<p>Gândavo conta que os testículos desses bichos &#8220;cheiram melhor que almíscar, e a qualquer roupa que os chegam fica o cheiro pegado por muito dias&#8221;. Para mim, o fato é inédito. O Pe. Fernão Cardim vai além e diz que o esterco do bicho também é bom para manchas oculares.</p>
<h2>As aves (extintas) de Santa Cruz</h2>
<p>No capítulo sobre as aves, achei curiosa a citação dos galos do Peru, que com o passar do tempo passaram a ser chamados apenas de perus.</p>
<p>Mas o que entristece é tomar conhecimento dos anapurus. Eram papagaios grandes, de muitas cores e que viviam no sertão. Se acostumavam tanto ao ambiente doméstico que chegavam a se reproduzir sem problemas em cativeiro. Cada exemplar de anapuru valia de dois a três escravos. E, por tudo isso, a espécie foi extinta e o pássaro multicolorido nunca foi identificado pelos pesquisadores modernos.</p>
<h2>Bestas dos mares</h2>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 317px"><img title="O monstro morto na capitania de São Vicente" src="http://felipearruda.com/monstro.jpg" alt="O monstro morto na capitania de São Vicente" width="307" height="420" /><p class="wp-caption-text">O monstro morto na capitania de São Vicente</p></div>
<p>Gândavo também fala dos peixes de Santa Cruz, dando especial atenção a um mamífero aquático, o peixe-boi. Engraçado saber que eles comiam o animal nos dia em que a igreja determinava ser para se alimentar de peixes. Elogiavam a carne, diziam que se parecia tanto com a da vaca que até causava algum desconforto moral comê-la nesses dias santos.</p>
<p>Agora, começarei o capítulo em que ele descreve um monstro marinho morto na capitania de São Vicente, em 1564. É o bicho da imagem aí de cima. Mas como o livro é pequeno, com cerca de 180 páginas, não entrarei em detalhes para não tirar a graça da leitura que você pode querer fazer.</p>
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		<title>It&#8217;s Bloomsday!</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Jun 2011 12:00:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<description><![CDATA[ReJoyce!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" title="Come up, you fearful jesuit!" src="http://felipearruda.com/rejoyce.png" alt="" width="412" height="415" /><a title="Rejoyce!" href="http://wonder-tonic.com/books2barcodes/read.php?title=ulysses" target="_blank">ReJoyce</a>!</p>
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		<title>Stop blowing up shit!</title>
		<link>http://www.felipearruda.com/blog/2011/05/stop-blowing-up-shit/</link>
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		<pubDate>Thu, 05 May 2011 04:08:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Athens Boys Choir]]></category>
		<category><![CDATA[Jazz Poetry]]></category>
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		<description><![CDATA[Cada vez mais apaixonado por Athens Boys Choir, pela poesia, pelo ritmo, pela performance e pelo spoken word à la jazz poetry. I&#8217;m a MoFo Genius Because I&#8217;ve Got the Answer to World Peace Piece I wanna write about politics See &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2011/05/stop-blowing-up-shit/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cada vez mais apaixonado por <a href="http://www.athensboyschoir.com/" target="_blank">Athens Boys Choir</a>, pela poesia, pelo ritmo, pela performance e pelo spoken word <em>à la</em> <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jazz_poetry" target="_blank">jazz poetry</a>.</p>
<p><a href="http://logorreia.com.br/blowingshit.mp3">I&#8217;m a MoFo Genius Because I&#8217;ve Got the Answer to World Peace Piece</a></p>
<p>I wanna write about politics<br />
See I wanna write about politics<br />
but to tell you the truth I can&#8217;t even watch let alone keep up with the news<br />
those crimson hews gets alluded in living rooms too far removed<br />
so you see I wanna watch the news<br />
but images of blown up kids have lost their shock value<br />
and when you can see those pictures and not cry<br />
suffice it to say you&#8217;ve been desensitized<br />
suffice it to say I&#8217;ve been desensitized<br />
see my grandma wished on falling starts<br />
to see the end of falling bombs<br />
and at just 26, well at just 26,<br />
I&#8217;ve already witnessed two wars in the Middle East<br />
that mysterious place overseas<br />
over seen are we, those that disagree<br />
and at not yet 30, well at not yet 30,<br />
yes, at not yet 30,<br />
I&#8217;m a mother fucking genius<br />
&#8217;cause at not yet 30, I got the answer to world peace<br />
and you know what?<br />
it&#8217;s beautiful in its simplicity<br />
it&#8217;s as easy as this. . .<br />
stop blowing up shit<br />
that&#8217;s it.<br />
stop blowing up shit<br />
stop pulling the trigger that triggers more fingers on buttons of destruction<br />
&#8217;cause you see,<br />
the same stories been spun since histories begun<br />
and we need evolution in these revolutions<br />
what we need is to stop blowing up shit<br />
Hell, I know Jesus didn&#8217;t arise after being crucified for smart bombs<br />
ain&#8217;t nothing genius or clean about TNT<br />
doesn&#8217;t take a prodigy to count civilian casualties<br />
and I ain&#8217;t that quick<br />
but I know enough to say<br />
we gotta stop blowing up shit<br />
hell<br />
we&#8217;re already in danger of apocalypse of the human spirit<br />
and we are more alike than we are different<br />
more resilient than we know<br />
and more fragile than we care to admit<br />
so that&#8217;s it<br />
stop blowing up shit<br />
stop shooting up villages<br />
stop killin&#8217; kids<br />
and if you must have war<br />
if you gotta, need it, have it now<br />
a war<br />
well then hell,<br />
that&#8217;s what virtual reality is for<br />
(Mario Bros. music)<br />
alright check this out<br />
in the same what that Dance Dance Revolution is this kick ass cardio work out<br />
we&#8217;ll set up computer scenarios and set up platoons of Luigis and Marios<br />
Donkey Kong can be in charge of missiles and bombs<br />
and all the Ms. Pacmans will join hands<br />
and finally bring that front line a mother fucking feminine side<br />
and I know it sounds silly<br />
but it&#8217;s no more silly than blowing up buildings<br />
so we can feel all good about rebuilding them buildings<br />
right?<br />
we have the technology to fight this war on computer screens<br />
the same way we have the language skills to write up them peace treaties<br />
so that soldier&#8217;s mothers don&#8217;t have to be afraid of the phone<br />
so that shell-shocked citizens don&#8217;t really in reality loose their homes<br />
so we don&#8217;t have to identify bodies by DNA and dentals<br />
so the death toll is just a number<br />
a computer code<br />
see, sometimes I find myself wishing on shooting stars<br />
to see the end of shooting guns<br />
and the beginning of something different</p>
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		</item>
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		<title>Algumas leituras de 2010 &#8211; parte II</title>
		<link>http://www.felipearruda.com/blog/2010/12/algumas-leituras-de-2010-parte-ii/</link>
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		<pubDate>Fri, 31 Dec 2010 17:18:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Leituras]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Oriente Médio]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Como prometido no post anterior, continuo a segunda parte das leituras deste ano. (Des)Orientando-me Orientalismo é o trabalho mais conhecido do intelectual palestino Edward W. Said, que infelizmente faleceu em 2003. Foi uma das melhores leituras de 2010 e é &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2010/12/algumas-leituras-de-2010-parte-ii/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como prometido no <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2010/12/algumas-leituras-de-2010-parte-i/" target="_blank">post anterior</a>, continuo a segunda parte das <a href="http://www.felipearruda.com/blog/leituras/leituras2010/" target="_blank">leituras deste ano</a>.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>(Des)Orientando-me</strong></h2>
<p style="text-align: justify;"><strong><img class="alignright" style="margin: 2px; border: 0px initial initial;" title="Orientalismo, de Edward W. Said" src="http://felipearruda.com/orientalismo.jpg" alt="" />Orientalismo</strong> é o trabalho mais conhecido do intelectual palestino Edward W. Said, que infelizmente faleceu em 2003. Foi uma das melhores leituras de 2010 e é um livro que precisarei reler. O subtítulo já diz muito: o oriente como invenção do ocidente. Já no prefácio o autor enfatiza que “nem o termo “Oriente” nem o conceito de “Ocidente” têm estabilidade ontológica; ambos são constituídos de esforço humano — parte afirmação, parte identificação do Outro”.</p>
<p style="text-align: justify;">Said segue analisando textos de orientalistas europeus do século XVIII aos dias de hoje, mostrando como países europeus moldaram os países orientais de acordo com os seus interesses e preconceitos, muitas vezes sem nem mesmo ter conhecimento sobre a língua estrangeira ou dar atenção ao que os próprios “orientais” falavam.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft" style="margin: 2px; border: 0px initial initial;" title="Cultura e Resistência" src="http://felipearruda.com/edsaid.jpg" alt="" />Li também <strong>Cultura e Resistência</strong>, uma série de entrevistas de Edward W. Said ao jornalista David Barsamian, do <a href="http://www.alternativeradio.org/" target="_blank">Alternativa Radio</a>. As entrevistas falam muito sobre a situação da Palestina, desde o fracassado Acordo de Oslo até o pós-11/9. Outros assuntos também são abordados, como os discutidos em Orientalismo e o papel da cultura em relação à resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade esse livro faz parte de uma coleção que teve três volumes lançados aqui no Brasil. Além desse, também é possível encontrar em sebos um volume com entrevistas do escritor paquistanês Tariq Ali e outro com o grande Noam Chomsky.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viagem à Palestina</strong> completa esta seção. Em 2002 uma delegação do Parlamento Internacional dos Escritores viajou para a Palestina com o intuito de visitar o poeta Mahmoud Darwish, que não podia deixar a sua terra natal. Entre eles estava o prêmio nobel José Saramago, que causou uma espécie de incômodo diplomático logo no começo da viagem.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/u-HXm_cx-LU?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="480" height="385" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/u-HXm_cx-LU?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<p style="text-align: justify;">Essa viagem rendeu um documentário muito bacana, chamado <strong><a href="http://electronicintifada.net/v2/article2835.shtml" target="_blank">Writers on the borders</a></strong>, e esse livro, com textos de membros da delegação, como Bei Dao, Breyten Breytenbach, Christian Salmon, Wole Soyinka e outros. O livro termina com uma mensagem de Jacques Derrida e Hélène Cixous. Leitura muitíssimo recomendada!</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>U, S and A</strong></h2>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="David Foster Wallace" src="http://felipearruda.com/dfw.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;">David Foster Wallace. Por enquanto, o único livro do autor que ganhou uma versão brasileira foi <strong>Breves Entrevistas com Homens Hediondos</strong>. Mas alguns meses atrás soube que mais duas traduções estão em andamento. Mal posso esperar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ano passado o livro foi adaptado para o cinema pelo John Krasinski, o Jim, de The Office. É bacana ver alguns personagens ganhando vida na tela, mas achei o filme um tanto decepcionante. Talvez eu estivesse com expectativas muito altas. O trailer está no <a href="http://www.youtube.com/watch?v=URCMDgdKMWk" target="_blank">YouTube</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro é espetacular. Tem contos curtos, como <em>Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial</em>, e contos longos com notas de rodapé que invadem mais da metade da página e te deixam tão desorientado quanto <em>A pessoa deprimida</em>, narradora do texto. Sem falar das “breves entrevistas”, que abordam relacionamentos, práticas sexuais, conflitos familiares e outros assuntos da vida dos entrevistados.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, tenho até medo de tentar escrever qualquer coisa sobre o grande gênio literário dos últimos tempos. Compre ou empreste o livro, leia e descubra a quantidade de metaliteratura e trechos enciclopédicos que você consegue tolerar em um texto. O meu limite foi Octeto, 12º conto do livro. Mas isso significa apenas que sofri, não que desgostei.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="Cthulhu (via http://www.alanbaxteronline.com/)" src="http://felipearruda.com/cthulhu.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;">Por falar em escritores cultuados, eu passei tempo demais ignorando H.P. Lovecraft. Então aproveitei uma promoção da Editora Hedra e comprei O chamado de Cthulhu e outros contos. Gostei muito. Há muito tempo não lia livros de terror, ficção científica ou fantasia, então Lovecraft foi uma espécie de quebra de jejum. E depois de ler é possível perceber porque o grande deus alienígena é tão cultuado internet e mundo afora.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://logorreia.com.br/cummings-campos.jpg"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="Original e tradução" src="http://felipearruda.com/cummings-campos.jpg" alt="" width="619" height="314" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Nas minhas andanças pela Biblioteca Pública do Paraná também encontrei <strong>40 POEM(A)S</strong>, e. e. cummings traduzido por ninguém menos do que augusto de campos, tudo em minúsculo, como manda a capa do livro. Eu ainda não tinha lido cummings e simplesmente pirei quando o fiz. Cheguei até a importunar meus amigos com emails falando sobre os poemas. Várias vezes.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>Genuinamente brasileiro</strong></h2>
<p style="text-align: left;"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="Meu destino é ser onça" src="http://felipearruda.com/mussa.jpg" alt="" />Eu não sei quanto a você, mas o que eu aprendi sobre os índios brasileiros na escola foi ridículo. Acho que por isso gostei tanto de <strong>Meu Destino é Ser Onça</strong>. Nesse livro, Alberto Mussa tenta reconstruir um mito tupinambá de acordo com anotações feitas por europeus durante o período de colonização do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é um texto que conta desde a criação do mundo e dos homens até o “apocalipse”. Para ficar melhor ainda, o livro também traz a tradução de todos os fragmentos consultados por Mussa e uma explicação de quais fontes foram ou não levadas em conta durante a reconstrução.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu diria que esse livro deveria ser em sala de aula, para resgatar um pouco da cultura indígena e lembrar de onde viemos, já que 99,9% dos brasileiros tem um pouco de sangue indígena, de acordo com o prefácio do livro.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>De origem controlada</strong></h2>
<p style="text-align: justify;">Conheci <strong>Viagem à Roda do Meu Quarto</strong> em uma semana de Letras na UFPR, e quando encontrei o livro em um sebo, logo comprei. O autor, Xavier de Maistre, foi uma das influências de Machado de Assis, que cita o francês em Memórias Póstumas de Brás Cubas.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance de Xavier de Maistre foi publicado em 1794 e traz o relato de uma viagem de 42 dias feita pelo autor sem sair do próprio quarto, onde está cumprindo pena de prisão domiciliar. No livro também está Expedição Noturna à Roda do Meu Quarto, continuação publicada 31 anos depois.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="Jean Genet" src="http://felipearruda.com/genet.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;">Eu gosto dos franceses, mas especialmente de Jean Genet. Li <strong>Diário de um Ladrão</strong> no começo do ano, e pôrra, que livro! Romance autobiográfico do escritor que completaria <a href="http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4848" target="_blank">100 anos em 2010</a>. Está tudo ali: a vida como mendigo nas ruas, os piolhos compartilhados com os namorados, as traições, roubos e outras artimanhas que Genet usou antes de se tornar um dos grandes nomes da França.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro que li na mesma época foi Quase a Mesma Coisa, um livro sobre tradução escrito por Umberto Eco. Nele Eco analisa diversas traduções, incluindo as dos próprios livros. Muito bacana ver a relação que ele mantém com os tradutores dos livros dele. Muito indicado para quem se interessa pelo assunto.</p>
<h1 style="text-align: center;"><strong>· · · · ·</strong></h1>
<p style="text-align: justify;">E chega! Por enquanto é só! 2010 acaba hoje, à meia-noite. Portanto, feliz ano novo!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Algumas leituras de 2010 — parte I</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Dec 2010 03:23:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O ano está acabando. Nenhum título novo deve entrar na minha lista de livros lidos antes do dia 31. E já que estou naquele ritmo nada esperto de fim de ano, curtindo o calor com chinelo no pé e pança &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2010/12/algumas-leituras-de-2010-parte-i/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O ano está acabando. Nenhum título novo deve entrar na minha <a href="http://www.felipearruda.com/blog/leituras/leituras2010/" target="_blank">lista de livros lidos</a> antes do dia 31. E já que estou naquele ritmo nada esperto de fim de ano, curtindo o calor com chinelo no pé e pança à mostra, me dou o direito de escrever apenas sobre o que me interessar mais. Sendo assim, vamos lá!</p>
<h2><strong>Os quadrinhos</strong></h2>
<p style="text-align: justify;">Eu não consigo imaginar alguém que não goste de quadrinhos. E entre aqueles que gostam, não consigo imaginar alguém que não goste do Goscinny. Enquanto leio eu fico pensando no sofrimento dos tradutores para se virar com as brincadeiras linguísticas do autor.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://pics.brizzly.com/30KR.jpg"><img class="aligncenter" title="Clique para ampliar" src="http://pics.brizzly.com/30KR.jpg" alt="" width="376" height="497" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Esse ano li sete dos sei-lá-quantos volumes de Asterix que ganhei do meu amigo Raphael. Aliás, tudo o que eu tenho do Goscinny veio pelas mãos do Raphael. E isso inclui um dos meus xodós, <a href="http://www.lexpress.fr/culture/livre/le-dictionnaire-goscinny_808377.html" target="_blank">Le Dictionnaire Goscinny</a>, que eu consulto sempre ao ler Iznogoud e outras criações do autor.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os que li, gostei de <strong>Asterix na Hispânia</strong> e <strong>Asterix entre os bretões</strong>. No primeiro porque o Obelix está mais soltinho, chegando até a dançar flamenco. No segundo eu gostei das traduções literais de expressões idiomáticas e características da língua inglesa, como usar o adjetivo antes do substantivo.</p>
<h2><strong>Os árabes: poesia</strong></h2>
<p style="text-align: justify;">Neste ano também tentei ler alguns livros de literatura árabe que já foram traduzidos para o português brasileiro. Começando pelo mais clássico, <strong>Os Poemas Suspensos</strong> (<em>al-mualaqat</em>/المعلقات) é um livro sensacional!</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um conjunto de poemas da era pré-islâmica que, de acordo com a lenda, foram bordados a ouro e pendurados sobre a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Kaaba">Kabaa</a> ao ganharem concursos de poesia, arte muito admirada pelos beduínos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft" style="margin: 2px; margin-right: 2px;" title="Os Poemas Suspensos" src="http://felipearruda.com/almuallaqat.jpg" alt="" width="240" height="350" />Se me lembro bem, é dito no prefácio que essa história já não é mais levada a sério pelos estudiosos. Mas de qualquer forma, é por causa dela que a antologia tem esse nome (&#8220;suspensos&#8221;).</p>
<p style="text-align: justify;">Os poemas relatam batalhas, amores, desilusões, vinganças, a travessia do deserto e outros aspectos da vida das tribos. A edição também traz um texto introdutório escrito pelo tradutor e organizador do livro, Alberto Mussa, e uma pequena biografia de cada poeta. Indispensável.</p>
<p style="text-align: justify;">Além dos poemas que formam o <em>al-muallaqat</em>, Mussa também adicionou um poeta da época que pode ser considerado marginal: Shânfara. Aliás, <a href="http://oriente-se.posterous.com/shanfara" target="_blank">um poeta durão</a>, sem dúvida!</p>
<p style="text-align: justify;">Li também <strong>Poesia Palestina de Combate</strong>, uma antologia de poetas palestinos que cantam sobre a terra e a resistência frente à ocupação. O livro é muito engajado, portanto se você é desses que acha que arte e política não combinam, fique longe.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu não tenho essa preocupação. Mas achei que a edição podia ser mais caprichada. Para começar, é <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2010/03/rodape/" target="_blank">uma tradução de uma tradução de uma tradução</a>. E acho que faltou um pouco de dedicação durante a organização. A antologia poderia ser melhor, com notas, mais poemas, talvez bilíngue. Mas enfim, melhor do que nada.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://felipearruda.com/images/nota-traducao.jpg"><img class="aligncenter" title="Poesia Palestina de Combate: tradução da tradução da tradução" src="http://felipearruda.com/images/nota-traducao.jpg" alt="" width="461" height="76" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Também encontrei na Biblioteca Pública do Paraná (BPP) um outro volume de poesia palestina e percebi algumas diferenças comparando as traduções do mesmo poema. A mais gritante foi em um poema de Mahmoud Darwish em que um verso elogiando o comunismo aparece apenas em uma das versões. Preciso voltar à biblioteca e conferir o nome do poema.</p>
<h2><strong>Os árabes: prosa</strong></h2>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft" style="margin: 2px;" title="Tempo de migrar para o norte" src="http://felipearruda.com/tempotayeb.jpg" alt="" /><strong>Tempo de Migrar Para o Norte</strong>, do sudanês Tayeb Salih, foi outro livro que veio da estante de literatura árabe da BPP. Publicado originalmente em 1966, esse romance é considerado como um dos romances árabes mais importantes do século XX, tendo sido traduzido para mais de 30 línguas.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro conta a história de Mustafa Said, que depois de sete anos na Inglaterra, conquistando mulheres com o seu “exoticismo oriental”, volta para a vila sudanesa onde morava e encontra o narrador do livro, que aos poucos vai desvendando a história de Said. Como bônus para o leitor interessado em literatura árabe, o romance traz trechos de poemas de Abu Nuwas.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei o livro em um sebo alguns meses atrás e acabei comprando para a minha coleção. Curioso é que eles vendiam três cópias, cada uma a um preço diferente, que variava de R$ 7 a R$ 18 reais. Peguei o mais barato, obviamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignright" style="margin: 2px; border: 0px initial initial;" title="O ladrão e os cães" src="http://felipearruda.com/caes.jpg" alt="" />Quem gosta de literatura policial talvez possa se interessar por <strong>O Ladrão e os Cães</strong>, de Naguib Mahfuz, autor que ganhou o prêmio Nobel de literatura em 1988.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance é um thriller psicológico com narrativa cheia de fluxos de consciência e conta a história de um prisioneiro que acaba de ser libertado e agora precisa recomeçar do zero, reconquistar a filha e se vingar daqueles que o traíram. Caso você ainda precise de mais razões para ler, a edição de bolso da L&amp;PM custa pouco mais de dez reais e 2011 será o ano do centenário de Mahfuz.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro estrela da literatura árabe contemporânea é o egípcio Alaa Al Aswany, que conquistou prêmios e boa reputação com <strong>O Edifício Yacubian</strong>, publicado em português pela Companhia das Letras no ano passado. O livro é sensacional. Ambientado por volta de 1990, durante a Guerra do Golfo, o livro conta as histórias dos moradores do edifício que dá nome ao livro.</p>
<p><img class="alignleft" style="margin: 2px; border: 0px initial initial;" title="O Edifício Yacubian" src="http://felipearruda.com/yacubian.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;">Para os curiosos, o Yacubian realmente existe e fica na rua Tala&#8217;at Harb, 34, no Cairo. O próprio autor chegou a montar um consultório odontológico no Yacubian.</p>
<p style="text-align: justify;">Devido ao sucesso, o livro também foi adaptado para o <a href="http://www.imdb.com/title/tt0425321/" target="_blank">cinema</a>, mas ainda não assisti. Quem não deve ter gostado muito da atenção que o livro atraiu foi o governo egípcio. Além de Aswany se opor fortemente ao governo de Hosni Mubarak, os legisladores chegaram a <a href="http://www.nysun.com/foreign/protest-erupts-in-egypt-over-a-gay-movie/35530/" target="_blank">protestar contra o filme</a> pelo fato de a história conter um relacionamento gay.</p>
<h2>Dois gregos e um romano</h2>
<p style="text-align: justify;">Resolvi ler alguns clássicos e comecei por Eurípedes. Li <strong>Medéia</strong>, <strong>As Bacantes</strong> e <strong>O Ciclope</strong>. Das três peças, O Ciclope foi a que menos gostei. Não porque seja ruim, mas porque Medéia e As Bacantes são grandiosas demais.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/fytj6CW5RgQ?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="480" height="385" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/fytj6CW5RgQ?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<p style="text-align: justify;">Acho que nem preciso dizer que a minha preferida é As Bacantes. São várias as razões, mas a principais são: Dionysus, o único Deus digno de adoração hoje em dia, e o Teat(r)o Oficina, que tem uma montagem da peça disponível em DVD e que eu preciso assistir o mais rapidamente possível.</p>
<p style="text-align: justify;">Tem uma história legal sobre essa montagem. Caetano Veloso foi assistir o espetáculo. Durante a peça, as bacantes seduzem o tropicalista, despem-no e devoram-no. Foi manchete dos principais jornais. E, entre outras coisas, o episódio foi uma das inspirações de Adriana Calcanhoto para a música “<a href="http://www.logorreia.com.br/?p=441" target="_blank">Vamos comer Caetano</a>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre Medéia, assisti a adaptação feita por Pier Paolo Pasolini e agora estou me enrolando para assistir a versão de Lars von Trier, filmada para a TV dinamarquesa.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft" style="margin: 2px;" title="Satyricon" src="http://felipearruda.com/satyricon.jpg" alt="" />Ainda nos clássicos, li também <strong>Satiricon</strong>, de Petrônio, e me diverti demais com as desventuras de Encólpio, Gitão e Ascilto. Tanto que acordei às 7 da manhã de um domingo só para assistir uma aula/leitura/sessão sobre o livro.</p>
<p style="text-align: justify;">A edição que li é antiga, da Abril Cultural, mas o <a href="http://caio.ueberalles.net/log/" target="_blank">Caio</a> comprou uma tradução nova e bilíngue, que eu provavelmente vou acabar comprando também. Depois pego com ele a editora, tradutora, ISBN do livro e publico aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixando os textos antigos e voltando para o século XX, li também uma coletânea dos poemas de <strong>Konstantinos Kaváfis</strong>, publicado pela Jose Olympio. A tradução é do grande Jose Paulo Paes.</p>
<h1 style="text-align: center;"><strong>· · · · ·</strong></h1>
<p style="text-align: justify;"><strong>Resolvi dividir este post em duas partes, já que está extenso demais. Em breve publico a “parte II”. Em 2011, seguirei a ideia que o </strong><a href="http://flavors.me/maurovss" target="_blank"><strong>Mauro</strong></a><strong> acabou de </strong><a href="http://twitter.com/%23!/maurovss/status/20306746165690368" target="_blank"><strong>twittar</strong></a><strong>: listas semestrais.</strong></p>
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		<title>Rodapé</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Mar 2010 19:21:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Poetry is what gets lost in translation - Robert Frost Antes a tradução da tradução de uma tradução do que a ausência de tradução. Eu acho.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><em>Poetry</em> is what gets lost in <em>translation -</em> <em>Robert Frost</em></p>
<p><BR><BR></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://felipearruda.com/images/nota-traducao.jpg"><img class="aligncenter" title="Nota sobre a tradução" src="http://felipearruda.com/images/nota-traducao.jpg" alt="" width="465" height="77" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Antes a <em>tradução da tradução de uma tradução</em> do que a ausência de tradução. Eu acho.</p>
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		<title>Leituras de 2009</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Dec 2009 15:57:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Lista com um pequeno comentário sobre os livros que li este ano: De Pernas pro Ar – Eduardo Galeano (ISBN: 8525408336): O livro reúne diversos textos que demonstram que vivemos em um mundo aos avessos, onde empresas que fabricam minas terrestres &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/12/leituras-de-2009/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lista com um pequeno comentário sobre os livros que li este ano:</p>
<p><strong>De Pernas pro Ar – Eduardo Galeano</strong> (ISBN: <a href="http://reinehr.org/literatura/nanoresenhas-canalhas/eduardo-galeano-de-pernas-pro-ar-a-escola-do-mundo-ao-avesso-2">8525408336</a>): O livro reúne diversos textos que demonstram que vivemos em um mundo aos avessos, onde empresas que fabricam minas terrestres para guerras também lucram horrores com o desarmamento das próprias minas e ditadores continuam com cargos altos e respeitáveis mesmo depois de depostos. Gostei do cuidado que o autor teve de listar, ao final de cada capítulo, a bibliografia consultada para escrevê-lo. Um ponto negativo? O Galeano parece meio implicante com videogames.</p>
<p><strong>Preconceito Lingüístico – Marcos Bagno</strong> (ISBN: <a href="http://books.google.com/books?hl=pt-PT&amp;q=9788515018895&amp;btnG=Pesquisar+livros">9788515018895</a>): Li este livro na faculdade, em 2002, eu acho. Guardei meu xerox do livro por muito tempo, até que finalmente comprei esta 49ª edição e reli. Muito recomendado, principalmente se você é um desses policiais da “boa fala” e do português “correto”.</p>
<p><strong>The Catcher in the Rye – J. D. Salinger</strong> (ISBN: <a href="http://books.google.com/books?hl=pt-PT&amp;q=9780316769488&amp;btnG=Pesquisar+livros">9780316769488</a>): Favorito de Washington Olivetto (rá!) e testemunha de um dos <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Mark_David_Chapman">assassinatos</a> mais famosos da história. Desdenhei um pouco o livro depois de lê-lo, achei <em>overrated</em>. Hoje gosto mais. Não é provocador como eu pensava, mas é muito bem escrito. Se quiser experimentar o estilo do Salinger antes, sugiro a leitura do conto <a href="http://www.freeweb.hu/tchl/salinger/perfectday.html">A Perfect Day for the Bananafish</a>.</p>
<p><strong>Os Cus de Judas – António Lobo Antunes</strong> (ISBN: <a href="http://books.google.com/books?hl=pt-PT&amp;q=9788560281053&amp;btnG=Pesquisar+livros">9788560281053</a>): As memórias de um médico português na guerra de independência de Angola. Narrativa fragmentada, não linear e que mistura as memórias da guerra com as lembranças da infância e da juventude. Foi a melhor mesa da <a href="http://www.logorreia.com.br/?p=123">FLIP</a> deste ano.</p>
<p><strong>O Senhor Walser – Gonçalo M. Tavares</strong> (ISBN: <a href="http://books.google.com/books?id=iRqBpna22bgC&amp;printsec=frontcover&amp;dq=senhor+walser&amp;hl=pt-PT">9788577340910</a>): Eu confesso: li este sem comprar, dentro de uma livraria, enquanto tomava café. Não foi uma boa experiência. O Gonçalo Tavares é um dos grandes escritores portugueses desta época. O Saramago já disse que tem até vontade de surrar o rapaz pela audácia dele escrever tão bem aos trinta anos. Esta série, chamada de O Bairro, é composta por livros-personagens ilustres, como o senhor Walser, o senhor Kraus, o senhor Calvino, o senhor Brecht e outros. Preciso voltar a este cara mais tarde.</p>
<p><strong>Hamlet – William Shakespeare</strong> (ISBN: <a href="http://books.google.com/books?id=7pYvAgAACAAJ&amp;dq=9788525406118&amp;hl=pt-PT">9788525406118</a>): O livro indispensável desta lista. A tradução do Millôr Fernandes, publicada pela L&amp;PM, é muito boa e barata. Li comparando com o original, disponível em abundância na internet. Não perca tempo e leia logo. Assista também a adaptação feita pelo Teat(r)o Oficina, disponível em DVD: <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/04/ler-ou-nao-ler/">5 horas de gozo</a>.</p>
<p><strong>A Megera Domada – William Shakespeare</strong> (ISBN: <a href="http://books.google.com/books?id=g9LfAAAACAAJ&amp;dq=9788525408822&amp;hl=pt-BR">9788525408822</a>): Li no embalo, logo depois de Hamlet. Gostei muito também e não posso parar de ler Shakespeare. O meu problema foi uma novela da Globo, que infectou a minha cabeça com a imagem do Eduardo Moscovis como Petrúquio.</p>
<p><strong>As Criadas – Jean Genet</strong> (sem ISBN): O Caio deu risada quando me viu com este livro. Disse que a vida do Genet era feita só de <em>keywords</em> que me chamavam a atenção. Não discordo. A leitura também teve um gosto especial por ser da <a href="http://www.deriva.com.br/deriva/">Deriva</a>, uma editora independente e, acho que posso dizer, anarquista. Quero muito ler <em>Diário de um Ladrão</em>.</p>
<p><strong>Os Versos Satânicos – Salman Rushdie</strong> (ISBN: <a href="http://books.google.com/books?id=4YecAAAACAAJ&amp;hl=pt-BR">9788535912876</a>): Esqueça a polêmica da fatwa. Esqueça que o livro provoca o islamismo, mas não esqueça da história do islamismo antes de começar a ler. Se você conhecer um pouco sobre a história de Maomé, aproveitará muito mais a leitura. O que eu quero dizer é que este livro deve ser lido pelos seus méritos literários e não pelo rebuliço que causou. Principalmente porque o livro é uma boa conversa sobre a condição do imigrante. Para ajudar a decifrar as referências culturais à índia e ao Islã, consulte o <a href="http://www.wsu.edu/~brians/anglophone/satanic_verses/">Notes on Salman Rushdie: The Satanic Verses</a>. O autor do site, Paul Brians, me contou que levou cinco anos para coletar todas elas.</p>
<p><strong>Um Retrato do Artista Quando Jovem – James Joyce</strong> (ISBN: <a href="http://viciadosemlivros.blogspot.com/2008/04/lanamento-digital-source-james-joyce.html">8500013788</a> e <a href="http://books.google.com/books?id=RzCUqx4W_9MC&amp;hl=pt-BR">9780142437346</a>): Obra prima. Este livro está até agora remoendo na minha cabeça. Não vejo a hora de poder relê-lo. Romance autobiográfico onde Joyce recria o seu trajeto de criança, em um ambiente carregado de dogmas religiosos e políticos, até a fase adulta, onde se torna um artista de pensamento independente. Li uma edição nacional antiga comparando-a com o texto original, em inglês.</p>
<p><strong>Contos Irlandeses do Início do Século XX – Luci Collin e Guilherme Silveira</strong> (ISBN: <a href="http://www.travessadoseditores.com.br/index.php?tras=secao.php&amp;area=10&amp;id=85">9788589485715</a>): Este livro é organizado pela professora Luci Collin, da UFPR, que também comandou o <a href="http://www.logorreia.com.br/?p=94">Bloomsday</a> deste ano. Os contistas desta compilação se dividem em dois grupos, os que abordam o passado e a mitologia da Irlanda e os que abordam a Irlanda contemporânea. Tem Briam Stoker, Joyce, Lady Gregory, Yeats e outros. Li depois de Um Retrato do Artista Quando Jovem, pra ver se ganho o background mínimo para aproveitar a leitura de Ulisses.</p>
<p><strong>On the Road – Jack Kerouac </strong>(ISBN: <a href="http://books.google.com/books?id=zJltPgAACAAJ&amp;dq=isbn:9788525413208&amp;lr=&amp;as_drrb_is=q&amp;as_minm_is=0&amp;as_miny_is=&amp;as_maxm_is=0&amp;as_maxy_is=&amp;as_brr=0&amp;hl=pt-PT">9788525413208</a>): Tudo aquilo que H. Caulfield não fez, está aqui. Uma aventura de verdade e que possivelmente deprimiu muitos leitores e leitoras que precisaram voltar ao trabalho e à família depois da última página.</p>
<p><strong>O Cavaleiro Inexistente – Italo Calvino </strong>(ISBN: <a href="http://books.google.com/books?id=kqUAPwAACAAJ&amp;dq=isbn:9788535906790&amp;lr=&amp;as_drrb_is=q&amp;as_minm_is=0&amp;as_miny_is=&amp;as_maxm_is=0&amp;as_maxy_is=&amp;as_brr=0&amp;hl=pt-PT&amp;source=gbs_book_other_versions_r&amp;cad=3">9788535906790</a>): Simplesmente genial. Uma armadura vazia que se convence que é um homem e adquire vida. Um cavaleiro tão perfeito, que não existe. O <a href="http://ossurtado.blogspot.com/">Ivan</a> me contou em uma <a href="http://www.solardorosario.com.br/websolar/Cursos_Info.aspx?codigo_area=5">aula</a> que este livro forma uma trilogia junto com O Barão nas Árvores e O Visconde Partido ao Meio. Já coloquei os outros dois na minha <em>wish list</em>.</p>
<p><strong>James Joyce – Edna O’Brien </strong>(ISBN: <a href="http://books.google.com/books?id=PatEPgAACAAJ&amp;dq=8573022604&amp;hl=pt-PT">8573022604</a>): Mais um livro que li como preparação para a leitura de Ulisses. Apesar de boa parte desta biografia estar em Um Retrato do Artista Quando Jovem — a palmatória, a descoberta da sexualidade, o conflito entre a religião e o pensamento livre, o declínio financeiro da família, o desejo de exílio — o livro compensa por contar outros momentos da vida de Joyce, principalmente as histórias sobre a publicação de Dublinenses e Ulisses e as boas almas que acreditaram no gênio e aguentaram a ranhetice do autor: Srta. Weaver e Srta. Beach.</p>
<p><strong>Haroun e o Mar de Histórias – Salman Rushdie </strong>(ISBN:<a href="http://books.google.com/books?id=zFSXAAAACAAJ&amp;dq=haroun+mar+de+histórias&amp;hl=pt-PT">8585391049</a>): Rashid, que vivia de contar histórias em comícios, certo dia perde o dom da palavra. Uma fábula infanto-juvenil com conteúdo para adultos, no melhor estilo de Alice no País das Maravilhas. É possível traçar um paralelo deste livro com fatwa declarada contra o autor por causa d’Os Versos Satânicos.</p>
<p><strong>Flores – Mario Bellatin </strong>(ISBN: <a href="http://editora.cosacnaify.com.br/ObraSinopse/11321/Flores.aspx">9788575038116</a>): Pequenos contos que juntos formam uma história sobre experiências genéticas e deformações. Eu li Flores por um motivo que o próprio Bellatin detestaria: interesse no autor. Ele é tão contra a valorização do autor sobre a obra, que já chegou até a apresentar uma palestra sobre um escritor japonês que nunca existiu. Para a surpresa do autor, o público comprou as lorotas e até se interessou pela obra do escritor fictício. Em uma outra ocasião, Bellatin irritou o público ao organizar um congresso na França sobre literatura mexicana. Não levou nenhum grande nome ao evento. Ao invés disso, preparou pessoas anônimas para se apresentassem no congresso no lugar dos autores.</p>
<p><strong>O Indiferente e o Fim do Ciúme – Marcel Proust </strong>(ISBN:<a href="http://books.google.com/books?id=hByJGQAACAAJ&amp;hl=pt-BR"> 8586270067</a>): Livro pequeno e muito bom. Foi uma das melhores leituras do ano. O Indiferente é uma novela que deveria constar em Os Prazeres e os Dias, primeira obra publicada de Proust. O autor resolveu tirá-la do livro e publicá-la em uma revista obscura chamada La Vie Contemporaine. A novela foi “redescoberta” em 1978. O Fim do Ciúme é considerada como uma das novelas mais profundas de Os Prazeres e os Dias e, neste “livrinho”, o texto ganha uma nova tradução para o português.</p>
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		<title>O ordálio de Fisk</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 23:33:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em 2001 o jornalista britânico Robert Fisk, provavelmente o principal e mais respeitado correpondente do Oriente Médio, foi espancado por refugiados afegãos. Para evitar que a história fosse contada por terceiros, o próprio Fisk resolveu escrever um relato sobre o &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/12/um-artigo-do-fisk/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 2001 o jornalista britânico Robert Fisk, provavelmente o principal e mais respeitado correpondente do Oriente Médio, foi espancado por refugiados afegãos. Para evitar que a história fosse contada por terceiros, o próprio Fisk resolveu escrever um relato sobre o episódio. Na época o artigo causou um certo furor e até deu origem à uma nova gíria: <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Fisking">fisking, to fisk</a>.</p>
<p>Volta e meia eu me lembro deste artigo, em diversas situações. Acho que a mais comum é quando escuto alguém querendo quebrar a cara de algum pivete ou trombadinha. Já que nunca encontrei este artigo em português, resolvi traduzir e colocar online. A tradução foi feita meio às pressas e sem a revisão do meu <a href="http://caio.ueberalles.net/log/">parceiro</a> de assuntos textuais, literários e linguísticos. Então, se notar alguma coisa esquisita e, por ventura, comparar com o <a href="http://www.commondreams.org/views01/1209-07.htm">original</a>, deixe sua sugestão nos comentários. Afinal, colaboração é um dos pilares da internet.</p>
<p>Por último, já que o ano está acabando e todo mundo fica meio meloso nesta época, acho que o artigo também serve como uma boa lição de tolerância e de percepção. Espero que tenha uma boa leitura!</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 21.0px 0.0px; font: 32.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"><strong>A surra que levei dos refugiados é um símbolo do ódio e da fúria desta guerra suja</strong></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 19.0px 0.0px; font: 24.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"><strong>Relato de Robert Fisk em Kila Abdullah depois do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordália">ordálio</a> na fronteira afegã</strong></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 21.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"><strong>10 de dezembro de 2001</strong></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eles começaram nos cumprimentando. Nós dissemos “Salaam aleikum” — que a paz esteja convosco — e então o primeiro <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Seixo_(rocha)"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">seixo</span></a> passou perto do meu rosto. Um menino pequeno tentou pegar a minha bolsa. Depois outro. Então alguém deu um murro nas minhas costas. Depois rapazes quebraram os meus óculos, começaram a bater com pedras na minha cara e na minha cabeça. Eu não conseguia enxergar por causa do sangue que caía da minha testa e inundava os meus olhos. E mesmo assim, eu entendi. Eu não podia culpá-los pelo o que eles estavam fazendo. Na verdade, se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, perto da fronteira Afeganistão-Paquistão, eu teria feito a mesma coisa com o Robert Fisk. Ou qualquer outro ocidental que eu encontrasse.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então pra quê registrar meus poucos minutos de terror e desgosto durante o assalto perto da fronteira afegã, sangrando e chorando como um animal, quando centenas — vamos ser francos e dizer milhares —de civis inocentes estão morrendo no Afeganistão por causa dos ataques aéreos americanos, quando a “Guerra pela Civilização” está queimando e mutilando os <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pashtuns"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Pashtuns</span></a> de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Kandahar"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Kandahar</span></a> e destruindo as casas deles porque o “bem” deve triunfar sobre “mal”?</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Alguns dos afegãos nesta pequena vila estão ali há anos, outros chegaram — desesperados e com raiva e lamentando seus queridos parentes que foram assassinados — nas últimas duas semanas. Era um péssimo lugar para o carro quebrar. Uma péssima hora, um pouco antes do Iftar, o fim do jejum diário do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ramad%C3%A3"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Ramadã</span></a>. Mas o que aconteceu conosco foi simbólico em relação ao ódio e fúria e hipocrisia desta guerra suja, um grupo crescente de homens afegãos pobres, jovens e velhos, que viram estrangeiros — inimigos — no meio deles e tentaram acabar com pelo menos um.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Muitos desses afegãos, nós viemos a saber, estavam indignados com o que eles viram na televisão sobre o <a href="http://www.youtube.com/watch?v=iXx5td6_IqM"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">massacre</span></a> de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Mazari_Sharif"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Mazar-i-Sharif</span></a>, os prisioneiros mortos com as mãos amarradas pra trás. Mais tarde um aldeão contou para um de nossos motoristas que eles tinham visto as fitas de vídeo dos oficiais da CIA, “Mike” e “Dave”, ameaçando de morte um prisioneiro ajoelhado em Mazar. Eles não eram educados — eu dúvido que muitos deles pudessem ler — mas você não precisa ter escolaridade para reagir à morte de pessoas queridas debaixo das bombas de B-52. A um certo momento um adolescente que berrava virou para o meu motorista e perguntou, com sinceridade: “Aquele é o Mr. Bush?”</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Devia ser quase 16:30h quando chegamos em Kila Abdullah, metade do caminho entre a cidade paquistanesa de Quetta e a cidade fronteiriça de Chaman; Amanullah, nosso motorista, Fayyaz Ahmed, nosso tradutor, Justin Huggler do The Independent — que tinha acabado de cobrir o massacre de Mazar — e eu.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Nós percebemos que algo estava errado quando o carro parou no meio da rua estreita e cheia de gente. Uma camada de vapor branco subia do capô do jeep, um grito constante de buzinas de carros e ônibus e caminhões e riquixás protestando contra o bloqueio que criamos na estrada. Nós quatro saímos do carro e o empurramos para fora da estrada.<span style="white-space: pre;"> </span>Eu murmurei algo para o Justin sobre este ser “um péssimo lugar pro carro quebrar”. Kila Abdullah era lar para milhares de afegãos refugiados, uma grande massa de pessoas pobres produzida pela guerra no Paquistão.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Amanullah foi procurar um outro carro — só tem uma coisa pior que uma multidão de homens enraivecidos e é uma multidão de homens enraivecidos após o anoitecer — e Justin e eu sorrimos para a multidão inicialmente amigável que já tinha se aglomerado em volta do veículo que fervia. Eu apertei muitas mãos — talvez eu tenha pensado no Mr. Bush — e disse muitos “Salaam aleikums”. Eu sabia o que aconteceria se os sorrisos parassem.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A multidão aumentou e eu sugeri ao Justin que fôssemos pra longe do jeep, andássemos na estrada aberta. Uma criança relou os dedos no meu pulso e eu me convenci de que foi um acidente, um momento infantil de desprezo. Então um seixo passou pelo meu rosto e bateu no ombro do Justin. O Justin se virou. Os olhos dele expressavam preocupação e eu me lembro com eu respirei fundo. Por favor, eu pensava, seja só uma brincadeira. Então outra criança tentou agarrar a minha bolsa. Nela estava meu passaporte, meus cartões de crédito, dinheiro, diário, agenda de contatos, telefone celular. Eu puxei ela de volta e coloquei a alça em volta do meu ombro. O Justin e eu cruzamos a rua e alguém esmurrou as minhas costas.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Como você sai de um sonho quando os personagens começam a ficar hostis? Eu vi um dos homens que era todo sorriso quando nós nos cumprimentamos. Ele não estava sorrindo agora. Alguns dos meninos pequenos ainda estavam gargalhando, mas agora os risos deles estavam se transformando em alguma outra coisa. O estrangeiro respeitado — o homem que era só “salaam aleikum” alguns minutos atrás — estava preocupado, assustado, fugindo. O ocidente estava vindo abaixo. Justin estava sendo empurado e, no meio da estrada, nós notamos um motorista de ônibus chamando nós para entrarmos no veículo dele. Fayyaz, ainda no carro, sem entender porque nós saímos de lá, não conseguia mais nos ver. Justin alcançou o ônibus e subiu. Assim que eu coloquei meu pé no ônibus, três homens agarraram a alça da minha bolsa e me puxaram de volta para a estrada. “Agarra firme”, ele gritou. Eu agarrei.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Foi aí que a primeira porrada atingiu a minha cabeça. Eu quase caí, meus ouvidos zuniram com o impacto. Eu estava esperando aquilo, mas não tão dolorido ou tão forte, nem tão imediato. A mensagem daquilo era horrível. Alguém me odiava a ponto de me machucar. Houve mais duas porradas, uma na parte de trás do meu ombro, um soco forte que me mandou direto contra a lateral do ônibus enquanto eu ainda agarrava a mão do Justin. Os passageiros olhavam pra mim e pro Justin. Mas eles não se mexiam. Ninguém queria ajudar.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu gritei “Me ajuda, Justin”, e o Justin — que estava fazendo mais do que qualquer humano podia fazer, me segurando firmemente enquanto eu perdia a força — me perguntou o que eu queria que ele fizesse. Então eu percebi. Eu não podia escutar somente ele. Sim, eles estavam gritando. Será que eu ouvi a palavra “kaffir” — infiel? Talvez eu estivesse enganado. Neste momento eu fui arrastado para longe de Justin.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Houve mais duas pancadas na minha cabeça, uma de cada lado e por alguma razão estranha, parte da minha memória — algum estalo no meu cérebro — registrou um momento na escola, na escola primária chamada the Cedars em Maidstone mais de 50 anos atrás, quando um menino alto construindo castelos de areia no parquinho me acertou na cabeça. Eu tinha uma lembrança do <em>cheiro</em> da porrada, como se ela tivesse afetado o meu nariz. A próxima pancada veio de um homem que eu vi carregando uma pedra enorme na mão direita. Ele sentou a pedra com uma força enorme na minha testa e alguma coisa quente e líquida escorreu pela meus rosto e lábios e queixo. Eu fui chutado. Nas costas, nas canelas, na minha coxa direita. Outro adolescente agarrou a minha bolsa mais uma vez e mais uma vez eu segurei a alça, olhando pra todo lado, e percebendo que deveria ter cerca de 60 homens na minha frente, gritando. Estranhamente, não foi medo que eu senti, mas uma espécie de assombro. Então é assim que acontece. Eu sabia que precisava reagir. Ou, concluí naquele atordoamento, eu morreria.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A única coisa que me chocou foi o meu próprio senso físico do colapso, a minha consciência crescente do líquido que começava a me cobrir. Eu acho que nunca tinha visto tanto sangue antes. Por um segundo eu vislumbrei algo terrível, um rosto aterrorizante —o meu próprio rosto — refletido na janela do ônibus, cheio de sangue, as minhas mãos encharcadas daquilo como as de Lady Macbeth, o sangue escorrendo pelo meu pullover e pela gola da minha camisa até as minhas costas ficarem molhadas e minha bolsa pingar gotas vermelhas que apareciam repentinamente na minha calça.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Quanto mais eu sangrava, mais a multidão se juntava e batia em mim com as próprias mãos. Seixos e pedras pequenas começaram a rebater em minhas cabeças e ombros. Por quanto tempo, eu lembro que pensei, isso poderia prosseguir? A minha cabeça, de repente, foi atingida por pedras nos dois lados ao mesmo tempo — não foram pedras arremessadas, mas seguradas com as palmas das mãos dos homens que estavam usando elas para tentarem quebrar a minha cabeça. Então um soco atingiu o meu rosto, estilhaçando os meus óculos no meu nariz, outra mão agarrou o par de óculos sobressalentes que estava pendurado em meu pescoço e arrancou do cordão a caixa de couro onde eles estavam guardados.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu acho que neste ponto eu deveria agradecer ao Líbano. Durante 25 anos eu cobri as guerras do Líbano e os libaneses costumavam me ensinar, inúmeras vezes, como permanecer vivo: tome uma decisão — qualquer decisão — mas não fique sem fazer nada.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então eu puxei minha bolsa de volta das mãos de um rapaz que a estava segurando.  Ele recuou. Então eu me virei para o homem à minha direita, aquele que estava segurando a pedra ensanguentada na mão e soquei com força a boca dele. Eu não conseguia enxergar muito — meus olhos não estavam apenas míopes sem os meus óculos, estavam também cobertos por uma névoa vermelha — mas eu vi o homem meio que tossindo e um dente cair dos seu lábio e então ele caiu de costas nas estrada. Por um segundo a multidão parou. Então eu parti em cima do outro homem, agarrando a minha bolsa debaixo do meu braço e esmurrando o nariz dele com o meu punho. Ele berrou de raiva e de repente o nariz dele ficou todo vermelho. Eu errei um soco em outro homem, acertei a cara de mais um, e corri.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu estava de volta no meio da estrada, mas não conseguia enxergar. Eu levei minhas mãos até os meus olhos e eles estavam cheios de sangue e com os meus dedos eu tentei remover aquela gosma deles. Fez um barulho de sucção, eu comecei a enxergar de novo e percebi que eu estava chorando e que as lágrimas estavam limpando o sangue dos meus olhos. O que eu tinha feito, eu ficava me perguntando? Eu tinha socado e atacado refugiados afegãos, o povo sobre o qual eu estava escrevendo a respeito por tanto tempo, o povo pobre e mutilado que o meu próprio país — entre outros — estava matando, com o Taliban, logo depois da fronteira. Deus me livre, eu pensei. Na verdade, eu acho que falei isso. Os homens cujas famílias nossos bombardeiros estavam matando agora era meus inimigos também.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então aconteceu algo inesquecível. Um homem andou até mim, muito calmamente, e me pegou pelo braço. Eu não consegui vê-lo muito bem por causa de todo aquele sangue que escorria pelos meus olhos, mas ele estava vestido numa espécie de túnica e usava um turbante e tinha uma barba grisalha. E ele me levou para longe da multidão. Eu olhei por cima do meu ombro. Tinha cem homens atrás de mim e algumas pedras jogadas de leve, mas que não tinham o objetivo de me acertar — presumivelmente para evitar que acertassem o desconhecido. Ele era como uma figura do Velho Testamento ou de alguma história bíblica, o Bom Samaritano, um homem muçulmano — talvez um mulá da vila — que estava tentando salvar a minha vida.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ele me empurrou para a parte de trás de uma caminhonete da polícia. Mas o policial não se mexeu. Eles estavam aterrorizados. “Me ajude”, eu continuava a gritar pela janela pequena da cabine deles, o sangue das minhas mãos escorrendo pelo vidro. Eles dirigiram por alguns metros e pararam até que o homem alto falou com eles novamente. Depois eles dirigiram por mais 300 metros.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E lá, ao lado da estrada, estava o comboio da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/International_Red_Cross_and_Red_Crescent_Movement"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Cruz Vermelha-Crescente Vermelho</span></a>. A multidão ainda estava atrás de nós. Dois dos atendentes médicos me puxaram pra parte de trás de um dos veículos deles, derramaram água sobre as minhas mãos e sobre o meu rosto e começaram a colocar ataduras na minha cabeça, no meu rosto e na minha nuca. “Deite aí e nós vamos te cobrir com uma manta, assim eles não vão conseguir te ver”, disse um deles. Eles eram muçulmanos, de Bangladesh e os nomes deles deveriam ficar registrados, porque são homens bons e honestos: Mohamed Abdul Halim e Sikder Mokaddes Ahmed. Eu estava deitado no chão, gemendo, consciente de que eu poderia viver.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O Justin chegou em alguns minutos. Ele havia sido protegido por um soldado enorme das tropas do Baluchistão — verdadeiro fantasma do Império Britânico que, com um único rifle, manteve a multidão afastada do carro em que o Justin estava sentado. Eu segurei firme a minha bolsa. Eles não conseguiram tomá-la de mim. Eu fica repetindo isso pra mim mesmo, como se meu passaporte e meus cartões de crédito fossem uma espécie de Cálice Sagrado. Mas eles tinham quebrado o meu último par reserva de óculos — eu estava cego sem eles — e meu telefone celular também tinha sumido, assim como minha agenda de contatos com 25 anos de números telefônicos de todo o Oriente Médio. O que eu poderia fazer? Pedir para todo mundo que me conheceu alguma vez na vida me enviar de volta seu número de telefone?</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Droga, eu disse e tentei socar ao meu lado até que eu percebi que estava sangrando por causa de um corte grande no pulso — a marca do dente que eu tinha tirado da boca daquele homem, um homem que era inocente de qualquer crime exceto de ser a vítima do mundo.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu passei mais de duas décadas e meia relatando a humilhação e a miséria do mundo muçulmano e agora a raiva deles também tinha me alcançado. Será? Havia Mohamed e Sikder do Crescente Vermelho e Fayyaz que foram incansáveis no nosso tratamento e Amanullah que nos convidou para irmos até a casa dele para o tratamento médico. E teve o santo muçulmano que me pegou pelo braço.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E — eu percebi — tinha todos aqueles homens e meninos afegãos que me atacaram, que nunca deveriam ter feito isto mas cuja brutalidade era completamente o produto dos outros, de nós  — de nós que armamos a luta deles contra os russos e ignoramos a dor deles e rimos da guerra civil deles e depois armamos e pagamos eles de novo para a “Guerra pela Civilização” algumas milhas longe dali e depois bombardeamos os seus lares e devastamos suas famílias e demos a tudo isso o nome de “dano colateral”.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então eu pensei que deveria escrever sobre o que aconteceu conosco neste incidente pequeno, sangrento, estúpido, assustador. Eu tinha medo que outras versões pudessem produzir uma narrativa diferente, de como um jornalista britânico foi “espancado por uma multidão de refugiados afegãos”</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E é claro, isso é o que importa. As pessoas que foram agredidas foram os afegãos, as cicatrizes foram causadas por nós — pelos B-52s, não por eles. E vou dizer novamente. Se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, eu teria feito exatamente o que eles fizeram. Eu teria atacado o Robert Fisk. Ou qualquer outro ocidental que eu tivesse encontrado.</span></p>
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