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	<title>Felipe Arruda &#187; Jornalismo</title>
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	<description>Astronomia, literatura, viagens e outros hobbies e interesses</description>
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		<title>O ordálio de Fisk</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 23:33:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em 2001 o jornalista britânico Robert Fisk, provavelmente o principal e mais respeitado correpondente do Oriente Médio, foi espancado por refugiados afegãos. Para evitar que a história fosse contada por terceiros, o próprio Fisk resolveu escrever um relato sobre o &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/12/um-artigo-do-fisk/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 2001 o jornalista britânico Robert Fisk, provavelmente o principal e mais respeitado correpondente do Oriente Médio, foi espancado por refugiados afegãos. Para evitar que a história fosse contada por terceiros, o próprio Fisk resolveu escrever um relato sobre o episódio. Na época o artigo causou um certo furor e até deu origem à uma nova gíria: <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Fisking">fisking, to fisk</a>.</p>
<p>Volta e meia eu me lembro deste artigo, em diversas situações. Acho que a mais comum é quando escuto alguém querendo quebrar a cara de algum pivete ou trombadinha. Já que nunca encontrei este artigo em português, resolvi traduzir e colocar online. A tradução foi feita meio às pressas e sem a revisão do meu <a href="http://caio.ueberalles.net/log/">parceiro</a> de assuntos textuais, literários e linguísticos. Então, se notar alguma coisa esquisita e, por ventura, comparar com o <a href="http://www.commondreams.org/views01/1209-07.htm">original</a>, deixe sua sugestão nos comentários. Afinal, colaboração é um dos pilares da internet.</p>
<p>Por último, já que o ano está acabando e todo mundo fica meio meloso nesta época, acho que o artigo também serve como uma boa lição de tolerância e de percepção. Espero que tenha uma boa leitura!</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 21.0px 0.0px; font: 32.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"><strong>A surra que levei dos refugiados é um símbolo do ódio e da fúria desta guerra suja</strong></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 19.0px 0.0px; font: 24.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"><strong>Relato de Robert Fisk em Kila Abdullah depois do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordália">ordálio</a> na fronteira afegã</strong></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 21.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"><strong>10 de dezembro de 2001</strong></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eles começaram nos cumprimentando. Nós dissemos “Salaam aleikum” — que a paz esteja convosco — e então o primeiro <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Seixo_(rocha)"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">seixo</span></a> passou perto do meu rosto. Um menino pequeno tentou pegar a minha bolsa. Depois outro. Então alguém deu um murro nas minhas costas. Depois rapazes quebraram os meus óculos, começaram a bater com pedras na minha cara e na minha cabeça. Eu não conseguia enxergar por causa do sangue que caía da minha testa e inundava os meus olhos. E mesmo assim, eu entendi. Eu não podia culpá-los pelo o que eles estavam fazendo. Na verdade, se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, perto da fronteira Afeganistão-Paquistão, eu teria feito a mesma coisa com o Robert Fisk. Ou qualquer outro ocidental que eu encontrasse.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então pra quê registrar meus poucos minutos de terror e desgosto durante o assalto perto da fronteira afegã, sangrando e chorando como um animal, quando centenas — vamos ser francos e dizer milhares —de civis inocentes estão morrendo no Afeganistão por causa dos ataques aéreos americanos, quando a “Guerra pela Civilização” está queimando e mutilando os <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pashtuns"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Pashtuns</span></a> de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Kandahar"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Kandahar</span></a> e destruindo as casas deles porque o “bem” deve triunfar sobre “mal”?</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Alguns dos afegãos nesta pequena vila estão ali há anos, outros chegaram — desesperados e com raiva e lamentando seus queridos parentes que foram assassinados — nas últimas duas semanas. Era um péssimo lugar para o carro quebrar. Uma péssima hora, um pouco antes do Iftar, o fim do jejum diário do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ramad%C3%A3"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Ramadã</span></a>. Mas o que aconteceu conosco foi simbólico em relação ao ódio e fúria e hipocrisia desta guerra suja, um grupo crescente de homens afegãos pobres, jovens e velhos, que viram estrangeiros — inimigos — no meio deles e tentaram acabar com pelo menos um.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Muitos desses afegãos, nós viemos a saber, estavam indignados com o que eles viram na televisão sobre o <a href="http://www.youtube.com/watch?v=iXx5td6_IqM"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">massacre</span></a> de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Mazari_Sharif"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Mazar-i-Sharif</span></a>, os prisioneiros mortos com as mãos amarradas pra trás. Mais tarde um aldeão contou para um de nossos motoristas que eles tinham visto as fitas de vídeo dos oficiais da CIA, “Mike” e “Dave”, ameaçando de morte um prisioneiro ajoelhado em Mazar. Eles não eram educados — eu dúvido que muitos deles pudessem ler — mas você não precisa ter escolaridade para reagir à morte de pessoas queridas debaixo das bombas de B-52. A um certo momento um adolescente que berrava virou para o meu motorista e perguntou, com sinceridade: “Aquele é o Mr. Bush?”</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Devia ser quase 16:30h quando chegamos em Kila Abdullah, metade do caminho entre a cidade paquistanesa de Quetta e a cidade fronteiriça de Chaman; Amanullah, nosso motorista, Fayyaz Ahmed, nosso tradutor, Justin Huggler do The Independent — que tinha acabado de cobrir o massacre de Mazar — e eu.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Nós percebemos que algo estava errado quando o carro parou no meio da rua estreita e cheia de gente. Uma camada de vapor branco subia do capô do jeep, um grito constante de buzinas de carros e ônibus e caminhões e riquixás protestando contra o bloqueio que criamos na estrada. Nós quatro saímos do carro e o empurramos para fora da estrada.<span style="white-space: pre;"> </span>Eu murmurei algo para o Justin sobre este ser “um péssimo lugar pro carro quebrar”. Kila Abdullah era lar para milhares de afegãos refugiados, uma grande massa de pessoas pobres produzida pela guerra no Paquistão.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Amanullah foi procurar um outro carro — só tem uma coisa pior que uma multidão de homens enraivecidos e é uma multidão de homens enraivecidos após o anoitecer — e Justin e eu sorrimos para a multidão inicialmente amigável que já tinha se aglomerado em volta do veículo que fervia. Eu apertei muitas mãos — talvez eu tenha pensado no Mr. Bush — e disse muitos “Salaam aleikums”. Eu sabia o que aconteceria se os sorrisos parassem.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A multidão aumentou e eu sugeri ao Justin que fôssemos pra longe do jeep, andássemos na estrada aberta. Uma criança relou os dedos no meu pulso e eu me convenci de que foi um acidente, um momento infantil de desprezo. Então um seixo passou pelo meu rosto e bateu no ombro do Justin. O Justin se virou. Os olhos dele expressavam preocupação e eu me lembro com eu respirei fundo. Por favor, eu pensava, seja só uma brincadeira. Então outra criança tentou agarrar a minha bolsa. Nela estava meu passaporte, meus cartões de crédito, dinheiro, diário, agenda de contatos, telefone celular. Eu puxei ela de volta e coloquei a alça em volta do meu ombro. O Justin e eu cruzamos a rua e alguém esmurrou as minhas costas.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Como você sai de um sonho quando os personagens começam a ficar hostis? Eu vi um dos homens que era todo sorriso quando nós nos cumprimentamos. Ele não estava sorrindo agora. Alguns dos meninos pequenos ainda estavam gargalhando, mas agora os risos deles estavam se transformando em alguma outra coisa. O estrangeiro respeitado — o homem que era só “salaam aleikum” alguns minutos atrás — estava preocupado, assustado, fugindo. O ocidente estava vindo abaixo. Justin estava sendo empurado e, no meio da estrada, nós notamos um motorista de ônibus chamando nós para entrarmos no veículo dele. Fayyaz, ainda no carro, sem entender porque nós saímos de lá, não conseguia mais nos ver. Justin alcançou o ônibus e subiu. Assim que eu coloquei meu pé no ônibus, três homens agarraram a alça da minha bolsa e me puxaram de volta para a estrada. “Agarra firme”, ele gritou. Eu agarrei.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Foi aí que a primeira porrada atingiu a minha cabeça. Eu quase caí, meus ouvidos zuniram com o impacto. Eu estava esperando aquilo, mas não tão dolorido ou tão forte, nem tão imediato. A mensagem daquilo era horrível. Alguém me odiava a ponto de me machucar. Houve mais duas porradas, uma na parte de trás do meu ombro, um soco forte que me mandou direto contra a lateral do ônibus enquanto eu ainda agarrava a mão do Justin. Os passageiros olhavam pra mim e pro Justin. Mas eles não se mexiam. Ninguém queria ajudar.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu gritei “Me ajuda, Justin”, e o Justin — que estava fazendo mais do que qualquer humano podia fazer, me segurando firmemente enquanto eu perdia a força — me perguntou o que eu queria que ele fizesse. Então eu percebi. Eu não podia escutar somente ele. Sim, eles estavam gritando. Será que eu ouvi a palavra “kaffir” — infiel? Talvez eu estivesse enganado. Neste momento eu fui arrastado para longe de Justin.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Houve mais duas pancadas na minha cabeça, uma de cada lado e por alguma razão estranha, parte da minha memória — algum estalo no meu cérebro — registrou um momento na escola, na escola primária chamada the Cedars em Maidstone mais de 50 anos atrás, quando um menino alto construindo castelos de areia no parquinho me acertou na cabeça. Eu tinha uma lembrança do <em>cheiro</em> da porrada, como se ela tivesse afetado o meu nariz. A próxima pancada veio de um homem que eu vi carregando uma pedra enorme na mão direita. Ele sentou a pedra com uma força enorme na minha testa e alguma coisa quente e líquida escorreu pela meus rosto e lábios e queixo. Eu fui chutado. Nas costas, nas canelas, na minha coxa direita. Outro adolescente agarrou a minha bolsa mais uma vez e mais uma vez eu segurei a alça, olhando pra todo lado, e percebendo que deveria ter cerca de 60 homens na minha frente, gritando. Estranhamente, não foi medo que eu senti, mas uma espécie de assombro. Então é assim que acontece. Eu sabia que precisava reagir. Ou, concluí naquele atordoamento, eu morreria.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A única coisa que me chocou foi o meu próprio senso físico do colapso, a minha consciência crescente do líquido que começava a me cobrir. Eu acho que nunca tinha visto tanto sangue antes. Por um segundo eu vislumbrei algo terrível, um rosto aterrorizante —o meu próprio rosto — refletido na janela do ônibus, cheio de sangue, as minhas mãos encharcadas daquilo como as de Lady Macbeth, o sangue escorrendo pelo meu pullover e pela gola da minha camisa até as minhas costas ficarem molhadas e minha bolsa pingar gotas vermelhas que apareciam repentinamente na minha calça.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Quanto mais eu sangrava, mais a multidão se juntava e batia em mim com as próprias mãos. Seixos e pedras pequenas começaram a rebater em minhas cabeças e ombros. Por quanto tempo, eu lembro que pensei, isso poderia prosseguir? A minha cabeça, de repente, foi atingida por pedras nos dois lados ao mesmo tempo — não foram pedras arremessadas, mas seguradas com as palmas das mãos dos homens que estavam usando elas para tentarem quebrar a minha cabeça. Então um soco atingiu o meu rosto, estilhaçando os meus óculos no meu nariz, outra mão agarrou o par de óculos sobressalentes que estava pendurado em meu pescoço e arrancou do cordão a caixa de couro onde eles estavam guardados.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu acho que neste ponto eu deveria agradecer ao Líbano. Durante 25 anos eu cobri as guerras do Líbano e os libaneses costumavam me ensinar, inúmeras vezes, como permanecer vivo: tome uma decisão — qualquer decisão — mas não fique sem fazer nada.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então eu puxei minha bolsa de volta das mãos de um rapaz que a estava segurando.  Ele recuou. Então eu me virei para o homem à minha direita, aquele que estava segurando a pedra ensanguentada na mão e soquei com força a boca dele. Eu não conseguia enxergar muito — meus olhos não estavam apenas míopes sem os meus óculos, estavam também cobertos por uma névoa vermelha — mas eu vi o homem meio que tossindo e um dente cair dos seu lábio e então ele caiu de costas nas estrada. Por um segundo a multidão parou. Então eu parti em cima do outro homem, agarrando a minha bolsa debaixo do meu braço e esmurrando o nariz dele com o meu punho. Ele berrou de raiva e de repente o nariz dele ficou todo vermelho. Eu errei um soco em outro homem, acertei a cara de mais um, e corri.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu estava de volta no meio da estrada, mas não conseguia enxergar. Eu levei minhas mãos até os meus olhos e eles estavam cheios de sangue e com os meus dedos eu tentei remover aquela gosma deles. Fez um barulho de sucção, eu comecei a enxergar de novo e percebi que eu estava chorando e que as lágrimas estavam limpando o sangue dos meus olhos. O que eu tinha feito, eu ficava me perguntando? Eu tinha socado e atacado refugiados afegãos, o povo sobre o qual eu estava escrevendo a respeito por tanto tempo, o povo pobre e mutilado que o meu próprio país — entre outros — estava matando, com o Taliban, logo depois da fronteira. Deus me livre, eu pensei. Na verdade, eu acho que falei isso. Os homens cujas famílias nossos bombardeiros estavam matando agora era meus inimigos também.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então aconteceu algo inesquecível. Um homem andou até mim, muito calmamente, e me pegou pelo braço. Eu não consegui vê-lo muito bem por causa de todo aquele sangue que escorria pelos meus olhos, mas ele estava vestido numa espécie de túnica e usava um turbante e tinha uma barba grisalha. E ele me levou para longe da multidão. Eu olhei por cima do meu ombro. Tinha cem homens atrás de mim e algumas pedras jogadas de leve, mas que não tinham o objetivo de me acertar — presumivelmente para evitar que acertassem o desconhecido. Ele era como uma figura do Velho Testamento ou de alguma história bíblica, o Bom Samaritano, um homem muçulmano — talvez um mulá da vila — que estava tentando salvar a minha vida.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ele me empurrou para a parte de trás de uma caminhonete da polícia. Mas o policial não se mexeu. Eles estavam aterrorizados. “Me ajude”, eu continuava a gritar pela janela pequena da cabine deles, o sangue das minhas mãos escorrendo pelo vidro. Eles dirigiram por alguns metros e pararam até que o homem alto falou com eles novamente. Depois eles dirigiram por mais 300 metros.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E lá, ao lado da estrada, estava o comboio da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/International_Red_Cross_and_Red_Crescent_Movement"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Cruz Vermelha-Crescente Vermelho</span></a>. A multidão ainda estava atrás de nós. Dois dos atendentes médicos me puxaram pra parte de trás de um dos veículos deles, derramaram água sobre as minhas mãos e sobre o meu rosto e começaram a colocar ataduras na minha cabeça, no meu rosto e na minha nuca. “Deite aí e nós vamos te cobrir com uma manta, assim eles não vão conseguir te ver”, disse um deles. Eles eram muçulmanos, de Bangladesh e os nomes deles deveriam ficar registrados, porque são homens bons e honestos: Mohamed Abdul Halim e Sikder Mokaddes Ahmed. Eu estava deitado no chão, gemendo, consciente de que eu poderia viver.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O Justin chegou em alguns minutos. Ele havia sido protegido por um soldado enorme das tropas do Baluchistão — verdadeiro fantasma do Império Britânico que, com um único rifle, manteve a multidão afastada do carro em que o Justin estava sentado. Eu segurei firme a minha bolsa. Eles não conseguiram tomá-la de mim. Eu fica repetindo isso pra mim mesmo, como se meu passaporte e meus cartões de crédito fossem uma espécie de Cálice Sagrado. Mas eles tinham quebrado o meu último par reserva de óculos — eu estava cego sem eles — e meu telefone celular também tinha sumido, assim como minha agenda de contatos com 25 anos de números telefônicos de todo o Oriente Médio. O que eu poderia fazer? Pedir para todo mundo que me conheceu alguma vez na vida me enviar de volta seu número de telefone?</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Droga, eu disse e tentei socar ao meu lado até que eu percebi que estava sangrando por causa de um corte grande no pulso — a marca do dente que eu tinha tirado da boca daquele homem, um homem que era inocente de qualquer crime exceto de ser a vítima do mundo.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu passei mais de duas décadas e meia relatando a humilhação e a miséria do mundo muçulmano e agora a raiva deles também tinha me alcançado. Será? Havia Mohamed e Sikder do Crescente Vermelho e Fayyaz que foram incansáveis no nosso tratamento e Amanullah que nos convidou para irmos até a casa dele para o tratamento médico. E teve o santo muçulmano que me pegou pelo braço.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E — eu percebi — tinha todos aqueles homens e meninos afegãos que me atacaram, que nunca deveriam ter feito isto mas cuja brutalidade era completamente o produto dos outros, de nós  — de nós que armamos a luta deles contra os russos e ignoramos a dor deles e rimos da guerra civil deles e depois armamos e pagamos eles de novo para a “Guerra pela Civilização” algumas milhas longe dali e depois bombardeamos os seus lares e devastamos suas famílias e demos a tudo isso o nome de “dano colateral”.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então eu pensei que deveria escrever sobre o que aconteceu conosco neste incidente pequeno, sangrento, estúpido, assustador. Eu tinha medo que outras versões pudessem produzir uma narrativa diferente, de como um jornalista britânico foi “espancado por uma multidão de refugiados afegãos”</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E é claro, isso é o que importa. As pessoas que foram agredidas foram os afegãos, as cicatrizes foram causadas por nós — pelos B-52s, não por eles. E vou dizer novamente. Se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, eu teria feito exatamente o que eles fizeram. Eu teria atacado o Robert Fisk. Ou qualquer outro ocidental que eu tivesse encontrado.</span></p>
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		<title>Bando de Pirralhos</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Mar 2009 16:04:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  A capa aí de cima é de Brat Pack, história em quadrinhos de Rick Veitch sobre um grupo de heróis coadjuvantes e desajustados que vive em Slumburg. Tem herói homossexual, viciado em drogas, bêbado, uma velhinha pervertida e sacana &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/03/bando-de-pirralhos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p><center><div id="attachment_293" class="wp-caption aligncenter" style="width: 260px"><img class="size-full wp-image-293" title="Brat Pack" src="http://www.felipearruda.com/blog/wp-content/uploads/2009/03/200810070250.jpg" alt="Brat Pack" width="250" height="368" /><p class="wp-caption-text">Brat Pack</p></div></center></p>
<p>A capa aí de cima é de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Bratpack_(comics)">Brat Pack,</a> história em quadrinhos de <a href="http://www.rickveitch.com/">Rick Veitch</a> sobre um grupo de heróis coadjuvantes e desajustados que vive em Slumburg. Tem herói homossexual, viciado em drogas, bêbado, uma velhinha pervertida e sacana e tem também um outro mais linha dura, quase nazista e que toma esteróides. Em comum todos têm a característica de esbanjar violência com sadismo e sarcasmo.</p>
<p>A história começa com a morte do grupo original e o recrutamento de novas pessoas para substituírem os finados. O fedelho da capa, depilando a perna, é o Chippy, uma espécie de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Robin_(comics)">Robin</a>: pequeno, um pouco frágil e sempre zoado por todo mundo. O padrinho dele no grupo é o Doninha, um herói que <em>&#8220;</em><em>saiu do armário e foi para as ruas, ansioso para agarrar os perpetradores do crime e do preconceito pelos pentelhos!</em><em>&#8220;</em>.</p>
<p>Toda esta subversão dentro do mundo dos super-heróis não é por acaso. Quando ainda era roteirista do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Swamp_Thing">Monstro do Pântano</a> na <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dc_comics">DC Comics</a>, <a href="http://www.rickveitch.com/">Rick Veitch</a> fez uma história onde o Monstro se encontrava com <a href="http://www.flickr.com/photos/30949808@N02/3307522383/in/set-72157614407337698/">Jesus Cristo</a>. A HQ já estava em produção e a editora resolveu cancelar por considerá-la potencialmente ofensiva.</p>
<p>Depois deste episódio Veitch começou a repensar sua posição e resolveu pedir demissão. Começou a desenhar e produzir as suas próprias HQs, sem precisar da aprovação de ninguém. A própria morte do <em>Bando de Pirralhos</em>, logo nas primeiras páginas, pode ser encarada como uma crítica à DC por ter matado o parceiro do Batman depois de uma votação onde os fãs decidiram pela morte do menino prodígio.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>**********</strong></p>
<p></p>
<p><center><div id="attachment_295" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-295" title="Salman Rushdie" src="http://www.felipearruda.com/blog/wp-content/uploads/2009/03/rushdie460-300x195.jpg" alt="Salman Rushdie" width="300" height="195" /><p class="wp-caption-text">Salman Rushdie</p></div></center></p>
<p>Outra confusão que envolve liberdade de expressão, publicação e religião (mas esta com mais destaque na mídia) são os vinte anos da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Fatwā">fatwa</a> contra<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Salman_rushdie"> Salman Rushdie</a> por causa do polêmico <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Satanic_Verses">Os Versos Satânicos</a>. Na época da publicação do livro houve protestos da comunidade islâmica em todo canto do mundo, com direito a queima de livros e tradutor japonês assassinado.</p>
<p>Mês passado, a edição de 22 de fevereiro da Folha de São Paulo trouxe a tradução de uma entrevista de duas páginas que Rushdie concedeu para o jornal El País. Este trecho do texto introdutório à entrevista parece digno de ser citado:</p>
<blockquote><p>O egípcio Naguib Mahfouz, Nobel de Literatura em 1988, reagiu à fatwa ditada contra Rushdie acusando Khomeini de terrorismo intelectual, mas, mais tarde, observou que ninguém tem o direito de ofender as crenças dos demais.</p>
<p>A visão de Rushdie é diametralmente oposta: &#8220;Sem o direito de ofender&#8221;, observou em certa ocasião, &#8220;não é possível falar em liberdade de expressão&#8221;. E: &#8220;Não há nada mais fácil do que impedir que um livro nos ofenda. Basta fechá-lo&#8221;.</p></blockquote>
<p>Em fevereiro também teve o relato do <a href="http://www.guardian.co.uk/books/2009/feb/16/rushdie-mcewan-fatwa-books">o escritor Ian McEwan para a revista The New Yorker</a> sobre a experiência de abrigar Rushdie quando até o Hezzbollah pedia a cabeça do autor. Além disso, o The Guardian disponibilizou um vídeo de oito minutos sobre os 20 anos da fatwa contra Rushdie. Se tiver um tempinho, <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/video/2009/feb/11/satanic-verses-rushdie-fatwa-khomeini">assista</a>.</p>
<p>Eu comecei a ler Os Versos Satânicos há pouco tempo e estou meio enrolado com a leitura, mas posso dizer que discordo de alguns comentários que li no <a href="http://books.livingsocial.com/">Living Social</a>, onde algumas pessoas disseram que o livro não tem nada de ofensivo. Se o leitor conhece um pouco sobre o Islã ele provavelmente vai perceber várias ofensas já na segunda parte do livro, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Mahound">Mahound</a>. O livro possui uma narração toda fragmentada e está <a href="http://www.wsu.edu/~brians/anglophone/satanic_verses/">cheio de referências</a>.</p>
<p>Aliás, José Saramago também causou uma certa indignação na igreja católica quando escreveu <em>O Evangelho Segundo Jesus Cristo</em>, mas nada comparável com o tumulto causado pelos <em>Versos Satânicos</em>. É até curioso, porque quando li o <em>Evangelho</em> achei legal Cristo pedir perdão para os homens pelos atos de Deus. Mas no caso da fatwa contra Rushdie parece que o contrário ainda é necessário: <em>perdoe-os, eles não sabem o que fazem</em>.</p>
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		<title>Contra uma Linguagem Sexista</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Oct 2008 00:11:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há alguns anos, quando eu participava de um coletivo de jornalismo independente, tínhamos a preocupação de usar, sempre que possível, uma linguagem inclusiva: ao escrever um texto nós evitávamos escrever para pessoas de um determinado gênero. Assumíamos que nossos leitores &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2008/10/contra-uma-linguagem-sexista/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há alguns anos, quando eu participava de um coletivo de jornalismo independente, tínhamos a preocupação de usar, sempre que possível, uma linguagem inclusiva: ao escrever um texto nós evitávamos escrever para pessoas de um determinado gênero. Assumíamos que nossos leitores poderiam ser de qualquer gênero (feminino ou masculino) e, por isso, não poderíamos excluir ou privilegiar apenas um.</p>
<p>Anos depois, já afastado do coletivo (por vontade própria e por falta de tempo), eu tropeço no mesmo assunto, só que desta vez foi no terceiro capítulo de <em><a href="http://www.amazon.com/First-Style-Guide-Computer-Industry/dp/0131428993">Read Me First!</a></em>, um livro sobre escrita técnica editado pela <em>Sun Technical Publications</em>.</p>
<p>A seção, intitulada <em>Avoid Sexist Language</em>, traz a seguinte dica:</p>
<blockquote><p>In many cultures, language has developed so that &#8220;men&#8221; often refers to &#8220;men and women&#8221;, and &#8220;he&#8221;, &#8220;him&#8221; and &#8220;his&#8221; are regarded as gender-neutral words. In decades past, this sentence might have been perfectly acceptable:</p>
<p>Ask your system administrator for his advice.</p>
<p>Today, this usage of &#8220;he&#8221; and &#8220;his&#8221; is far less acceptable. These pronouns assume too much about the gender of an individual. Writers who defend the use of such pronouns must contemplate the following: Many readers could interpret a writer&#8217;s intentions negatively and could consciously or subconsciously reject the work.</p></blockquote>
<p>Mas nem sempre é fácil. No coletivo usávamos uma grafia bem menos formal para escrever um texto. Era comum trocar a vogal que definia o gênero de um nome por um símbolo como @ ou <em>underline,</em> deixando a interpretação do gênero para quem estava lendo o artigo. Assim, em vez de escrever garoto (ou garota), escrevíamos <em>garot@</em>, <em>garot_</em>, <em>garotx</em>, etc.</p>
<p>Deixando de lado toda a discussão sobre a estética de um texto onde algumas letras são substituídas por símbolos de arroba, posso dizer que esta forma servia bem para os propósitos dos textos, que eram vinculados na internet e sem nenhum compromisso corporativo ou acadêmico.</p>
<p>Na mesma época eu já trabalhava na Revista do Linux (<em>R.I.P.</em>) e fazia o possível para evitar direcionar um artigo a &#8220;um administrador de sistemas&#8221;, &#8220;um programador&#8221; ou &#8220;um usuário&#8221;. Mas como nossa língua é bastante dependente de gênero, eu sempre acabava optando pelo plural masculino como gênero &#8220;neutro&#8221;: &#8220;administradores&#8221;, &#8220;usuários&#8221;, &#8220;programadores&#8221;.</p>
<p>Eu fico sempre na dúvida sobre esta neutralidade. Eu ainda não sei, e também não sei se alguém sabe (urgh!), como esta regra foi definida. Porque se foi definida socialmente e naturalmente, pode ser que tenha sido com base em valores antigos, em uma época onde só o homem ocupava determinadas posições na sociedade.</p>
<p>Por outro lado, eu detesto ter que repetir alguns substantivos nos dois gêneros (&#8220;os usuários e as usuárias&#8221;, por exemplo) e acho a forma &#8220;usuários(as)&#8221; tão feia quanto &#8220;usuári@s&#8221;.</p>
<p>Para ter uma idéia do que estou falando, no inglês eu resolveria o exemplo do livro apenas removendo o adjetivo possessivo (<em>Ask your system administrator for <span style="-webkit-text-decorations-in-effect: line-through; text-decoration: line-through;">his</span> advice</em>). Já esta mesma frase, em português, daria mais trabalho para ser &#8220;consertada&#8221;. Eu provavelmente acabaria cedendo ao gênero masculino e faria alguma administradora de sistema bufar de raiva ou cansaço.</p>
<p>Enfim, eu não sou lingüista e nem estudo Letras, então não sei o quanto disso é besteira e, em caso negativo, o quanto é solucionável. Para mim, a preocupação parece pertinente. Principalmente a dica de não tentar assumir mais do que devemos sobre as pessoas que vão ler os nossos textos.</p>
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		<title>Ciao, mangiapane!</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Sep 2008 02:25:08 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Estou lendo Máfia, livro de Michele Pantaleone que conta a origem e história da máfia siciliana. O livro é de 1962 e o seu título original é Mafia e Politica. Porém, eu não sei de quando é esta tradução que tenho &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2008/09/ciao-mangiapane/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou lendo <em>Máfia</em>, livro de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Michele_Pantaleone">Michele Pantaleone</a> que conta a origem e história da máfia siciliana. O livro é de 1962 e o seu título original é <em>Mafia e Politica.</em> Porém, eu não sei de quando é esta tradução que tenho aqui, publicada pela Editora Nova Fronteira. Só sei que o livro é um pouco velho, daqueles que abusam do <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Acento_circunflexo">chapéuzinho do vovô</a></em> e acentuam palavras como &#8220;sôbre&#8221;, &#8220;bôlso&#8221; e &#8220;têrmo&#8221;.</p>
<p>Ainda estou no começo da leitura, mas achei engraçado como algumas coisas estão relacionadas e eu nem fazia idéia disto. Já que os Fenícios foram um dos tantos povos que ocuparam <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Palermo">Palermo</a> na antiguidade, acabei aprendendo que existe uma pequena influência da civilização árabe por lá também, pois a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fenícia">Fenícia</a> ficava onde hoje é o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Líbano">Líbano</a>.</p>
<p>Talvez por isso uma das teorias para a origem do termo <em>mafiusu</em>, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Mafia#Etymology">segundo a Wikipedia</a>, é a derivação das palavras árabes <em>mahyas</em> (alguém que se gaba demais) ou <em>marfud</em> (rejeitado). Nesta semana vou tentar confirmar o significado destas palavras com a minha professora de árabe.</p>
<p>Mas uma parte do livro que realmente cativa o leitor (e os amigos dele) é o vocabulário de termos sicilianos usados pelos &#8220;homens de honra&#8221;. Em alguns instantes você terá piadas parecidas com aquelas da época em que <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tropa_de_Elite_(filme)">Tropa de Elite</a></em> era novidade. Seja isso ruim ou não, aqui vão alguns dos termos presentes no livro:</p>
<ul>
<li><em>&#8216;ncarugnutu</em> (que virou carniça): alguém que recua frente aos deveres da máfia</li>
<li>astutaturi (aquele que paga): assassino</li>
<li><em>rifardu</em> (falso): estrangeiro</li>
<li><em>canna de stenniri</em> (haste de vime): fuzil militar</li>
<li><em>maredda</em> (papel usado para envolver açúcar): moça</li>
<li><em>villutu</em> (veludo): amante</li>
<li><em>minera</em> (mina): esposa</li>
<li><em>pizzu</em> (bico): quota fixa para a proteção da máfia</li>
<li><em>vagnare lu pizzu</em> (molhar o bico): pagar o pizzu; gratificação para homens da máfia</li>
<li><em>speranzari</em> (ter esperança): fugir para o exterior</li>
<li><em>scrusci-scrusci</em> (que faz barulho): alguém de confiança, que é mandado a frente em tropa de vanguarda</li>
<li><em>piciuciu</em>: que não é digno de consideração</li>
<li><em>spirtu</em>: astuto</li>
<li><em>astutatu</em> (apagado): assassinado</li>
<li><em>spisusu</em> ( que faz as despesas): rico</li>
<li><em>a cavaddu</em> (a cavalo): armado com fuzil</li>
<li><em>vacanti</em> (vazio): desarmado</li>
<li><em>malacarni</em> (carne de animal morto de repente): pessoa audaz, capaz de qualquer ação delituosa</li>
<li><em>spingularu</em> (recolhe pontas de cigarros com alfinete): ladrão de galinhas</li>
<li><em>sparaciu</em> (aspargo): carcereiro em serviço</li>
<li><em>lampiuni</em> (lampião): carcereiro na guarita</li>
<li><em>parracu grani</em> (pároco grande): prefeito</li>
<li><em>vicariu</em> (vigário): delegado de polícia</li>
<li><em>pizzicatu</em> (beliscado): preso pela polícia</li>
<li><em>amicu</em>: advogado da máfia</li>
<li><em>di panza</em>: homem que fala pouco e que resiste aos interrogatórios</li>
<li><em>cocciu di tacca</em> (jovem de fogo): jovem audaz</li>
<li><em>caggiu</em>: jovem de boa família</li>
<li><em>pizipinturru</em>: brigão, rixoso</li>
<li><em>bardascia</em>: fanfarrão</li>
</ul>
<p>Pesquisando pelos termos na internet também encontrei este <a href="http://www.edulab.it/roma/prodotti/classeL/glossario.htm">glossário siciliano-italiano</a>. Pode ser útil para outros que estejam lendo o mesmo livro.</p>
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		<title>Sabra e Chatila &#8211; 25 anos</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Sep 2007 00:23:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na manhã do dia 11 de setembro de 2001 eu liguei a TV para assistir alguma coisa enquanto tomava a minha dose matinal de cafeína. Eu demorei alguns minutos para perceber o que estava acontecendo e lembro de ter ficado &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2007/09/sabra-e-shatila-25-anos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na manhã do dia 11 de setembro de 2001 eu liguei a TV para assistir alguma coisa enquanto tomava a minha dose matinal de cafeína. Eu demorei alguns minutos para perceber o que estava acontecendo e lembro de ter ficado bastante espantado com as <a href="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/d/d4/Story.crash.sequence.jpg">imagens que via</a>.</p>
<p>Escrevi um bilhete para meu irmão e deixei em cima da mesa antes de sair de casa: “Um avião se chocou contra o World Trade Center. Há suspeitas de Terrorismo. Terceira Guerra?”</p>
<p>Ao longo do dia acompanhamos as notícias pela internet, perplexos. Dois aviões contra as torres, um contra o Pentágono e outro que não chegou a atingir o seu alvo. Pessoas desesperadas se atirando do WTC.</p>
<p>Muitas palavras ficaram populares desde então, e a maioria delas começavam com o artigo definido <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Al-"><em>al</em></a>. Ninguém vai esquecer o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/September_11%2C_2001_attacks">11/09</a>. Foi triste, brutal e um marco na história. Eu mal consigo imaginar as proporções desses ataques. E ainda hoje há seqüelas deste dia, como os bombeiros que agora sofrem de doenças respiratórias depois de terem trabalhado nos escombros.</p>
<p>Da mesma forma, um outro dia deste mês deveria ser lembrado: o 16 de setembro.</p>
<p>Dois dias depois do assassinato do presidente <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Bachir_Gemayel">Bachir Gemayel</a> (eleito em 23 de agosto de 1982, bastante popular entre os cristãos maronitas e morto em 14 de setembro com uma bomba), os campos de refugiados palestinos <a href="http://electronicintifada.net/bytopic/145.shtml">Sabra e Chatila</a> (Beirute &#8211; Líbano) foram invadidos, com o apoio do exército israelense, pela Falange (milícia cristã).</p>
<p>Muitos civis de nacionalidade árabe foram mortos. A maior parte das vítimas era palestina e em sua maioria mulheres, crianças e idosos. Por causa das dificuldades e condições do massacre, o número de vítimas varia de acordo com a fonte, indo de 700 a 3500.</p>
<p>No livro <a href="http://www.akpress.org/2002/items/pitythenation">Pity The Nation &#8211; The Abduction of Lebanon</a>, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Fisk">Robert Fisk</a> conta como foi a cobertura do massacre, no dia 18 de setembro. Só o começo já assusta:</p>
<blockquote><p><em>It was the flies that told us. There were millions of them, their hum almost as eloquent as the smell. (…) If we stood still, writing in our notebooks, they would settle like an army &#8211; legions of them &#8211; on the white surface of our notebooks, hands, arms, faces, always congregating around our eyes and mouths, moving from body to body, from the many dead to the few living, from corpse to reporter, their small green bodies panting with excitement as they found new flesh upon which to settle and feast.</em></p>
<p><em>(…)</em></p>
<p><em>The murderers &#8211; the Christian militiamen whom Israel had let into the camps to ‘flush out terrorists’ &#8211; had only just left. In some cases, the blood was still wet on the ground. When we had seen a hundred bodies, we stopped counting. Down every alleyway, there were corpses &#8211; women, young men, babies and grandparents &#8211; lying together in lazy and terrible profusion when they had been knifed or machine-gunned to death.</em></p></blockquote>
<p>O 11 de setembro de 2001 e o 16 de setembro de 1982 não estão diretamente ligados. Mas em ambas as datas as grandes vítimas foram os civis. E assim como não existe uma cultura mais importante que outra, também não existe uma baixa civil mais triste ou dolorida do que outra. Lembrar o 16/09/82 é tão politicamente/humanamente importante quanto lembrar o 11/09/01. Principalmente porque o massacre de Sabra e Chatila está caindo no esquecimento e, consequentemente, na impunidade.</p>
<p>Como diz o escritor israelense <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Amos_Oz">Amos Oz</a>, não somos ilhas. Nós não vivemos isolados. A capacidade de poder se imaginar no lugar do outro, de poder imaginar a dor do outro, já é uma defesa contra o fanatismo.</p>
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