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	<title>Felipe Arruda &#187; Oriente Médio</title>
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	<description>Astronomia, literatura, viagens e outros hobbies e interesses</description>
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		<title>Algumas leituras de 2010 &#8211; parte II</title>
		<link>http://www.felipearruda.com/blog/2010/12/algumas-leituras-de-2010-parte-ii/</link>
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		<pubDate>Fri, 31 Dec 2010 17:18:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como prometido no post anterior, continuo a segunda parte das leituras deste ano. (Des)Orientando-me Orientalismo é o trabalho mais conhecido do intelectual palestino Edward W. Said, que infelizmente faleceu em 2003. Foi uma das melhores leituras de 2010 e é &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2010/12/algumas-leituras-de-2010-parte-ii/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como prometido no <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2010/12/algumas-leituras-de-2010-parte-i/" target="_blank">post anterior</a>, continuo a segunda parte das <a href="http://www.felipearruda.com/blog/leituras/leituras2010/" target="_blank">leituras deste ano</a>.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>(Des)Orientando-me</strong></h2>
<p style="text-align: justify;"><strong><img class="alignright" style="margin: 2px; border: 0px initial initial;" title="Orientalismo, de Edward W. Said" src="http://felipearruda.com/orientalismo.jpg" alt="" />Orientalismo</strong> é o trabalho mais conhecido do intelectual palestino Edward W. Said, que infelizmente faleceu em 2003. Foi uma das melhores leituras de 2010 e é um livro que precisarei reler. O subtítulo já diz muito: o oriente como invenção do ocidente. Já no prefácio o autor enfatiza que “nem o termo “Oriente” nem o conceito de “Ocidente” têm estabilidade ontológica; ambos são constituídos de esforço humano — parte afirmação, parte identificação do Outro”.</p>
<p style="text-align: justify;">Said segue analisando textos de orientalistas europeus do século XVIII aos dias de hoje, mostrando como países europeus moldaram os países orientais de acordo com os seus interesses e preconceitos, muitas vezes sem nem mesmo ter conhecimento sobre a língua estrangeira ou dar atenção ao que os próprios “orientais” falavam.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft" style="margin: 2px; border: 0px initial initial;" title="Cultura e Resistência" src="http://felipearruda.com/edsaid.jpg" alt="" />Li também <strong>Cultura e Resistência</strong>, uma série de entrevistas de Edward W. Said ao jornalista David Barsamian, do <a href="http://www.alternativeradio.org/" target="_blank">Alternativa Radio</a>. As entrevistas falam muito sobre a situação da Palestina, desde o fracassado Acordo de Oslo até o pós-11/9. Outros assuntos também são abordados, como os discutidos em Orientalismo e o papel da cultura em relação à resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade esse livro faz parte de uma coleção que teve três volumes lançados aqui no Brasil. Além desse, também é possível encontrar em sebos um volume com entrevistas do escritor paquistanês Tariq Ali e outro com o grande Noam Chomsky.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viagem à Palestina</strong> completa esta seção. Em 2002 uma delegação do Parlamento Internacional dos Escritores viajou para a Palestina com o intuito de visitar o poeta Mahmoud Darwish, que não podia deixar a sua terra natal. Entre eles estava o prêmio nobel José Saramago, que causou uma espécie de incômodo diplomático logo no começo da viagem.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/u-HXm_cx-LU?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="480" height="385" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/u-HXm_cx-LU?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<p style="text-align: justify;">Essa viagem rendeu um documentário muito bacana, chamado <strong><a href="http://electronicintifada.net/v2/article2835.shtml" target="_blank">Writers on the borders</a></strong>, e esse livro, com textos de membros da delegação, como Bei Dao, Breyten Breytenbach, Christian Salmon, Wole Soyinka e outros. O livro termina com uma mensagem de Jacques Derrida e Hélène Cixous. Leitura muitíssimo recomendada!</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>U, S and A</strong></h2>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="David Foster Wallace" src="http://felipearruda.com/dfw.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;">David Foster Wallace. Por enquanto, o único livro do autor que ganhou uma versão brasileira foi <strong>Breves Entrevistas com Homens Hediondos</strong>. Mas alguns meses atrás soube que mais duas traduções estão em andamento. Mal posso esperar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ano passado o livro foi adaptado para o cinema pelo John Krasinski, o Jim, de The Office. É bacana ver alguns personagens ganhando vida na tela, mas achei o filme um tanto decepcionante. Talvez eu estivesse com expectativas muito altas. O trailer está no <a href="http://www.youtube.com/watch?v=URCMDgdKMWk" target="_blank">YouTube</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro é espetacular. Tem contos curtos, como <em>Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial</em>, e contos longos com notas de rodapé que invadem mais da metade da página e te deixam tão desorientado quanto <em>A pessoa deprimida</em>, narradora do texto. Sem falar das “breves entrevistas”, que abordam relacionamentos, práticas sexuais, conflitos familiares e outros assuntos da vida dos entrevistados.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, tenho até medo de tentar escrever qualquer coisa sobre o grande gênio literário dos últimos tempos. Compre ou empreste o livro, leia e descubra a quantidade de metaliteratura e trechos enciclopédicos que você consegue tolerar em um texto. O meu limite foi Octeto, 12º conto do livro. Mas isso significa apenas que sofri, não que desgostei.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="Cthulhu (via http://www.alanbaxteronline.com/)" src="http://felipearruda.com/cthulhu.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;">Por falar em escritores cultuados, eu passei tempo demais ignorando H.P. Lovecraft. Então aproveitei uma promoção da Editora Hedra e comprei O chamado de Cthulhu e outros contos. Gostei muito. Há muito tempo não lia livros de terror, ficção científica ou fantasia, então Lovecraft foi uma espécie de quebra de jejum. E depois de ler é possível perceber porque o grande deus alienígena é tão cultuado internet e mundo afora.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://logorreia.com.br/cummings-campos.jpg"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="Original e tradução" src="http://felipearruda.com/cummings-campos.jpg" alt="" width="619" height="314" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Nas minhas andanças pela Biblioteca Pública do Paraná também encontrei <strong>40 POEM(A)S</strong>, e. e. cummings traduzido por ninguém menos do que augusto de campos, tudo em minúsculo, como manda a capa do livro. Eu ainda não tinha lido cummings e simplesmente pirei quando o fiz. Cheguei até a importunar meus amigos com emails falando sobre os poemas. Várias vezes.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>Genuinamente brasileiro</strong></h2>
<p style="text-align: left;"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="Meu destino é ser onça" src="http://felipearruda.com/mussa.jpg" alt="" />Eu não sei quanto a você, mas o que eu aprendi sobre os índios brasileiros na escola foi ridículo. Acho que por isso gostei tanto de <strong>Meu Destino é Ser Onça</strong>. Nesse livro, Alberto Mussa tenta reconstruir um mito tupinambá de acordo com anotações feitas por europeus durante o período de colonização do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é um texto que conta desde a criação do mundo e dos homens até o “apocalipse”. Para ficar melhor ainda, o livro também traz a tradução de todos os fragmentos consultados por Mussa e uma explicação de quais fontes foram ou não levadas em conta durante a reconstrução.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu diria que esse livro deveria ser em sala de aula, para resgatar um pouco da cultura indígena e lembrar de onde viemos, já que 99,9% dos brasileiros tem um pouco de sangue indígena, de acordo com o prefácio do livro.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>De origem controlada</strong></h2>
<p style="text-align: justify;">Conheci <strong>Viagem à Roda do Meu Quarto</strong> em uma semana de Letras na UFPR, e quando encontrei o livro em um sebo, logo comprei. O autor, Xavier de Maistre, foi uma das influências de Machado de Assis, que cita o francês em Memórias Póstumas de Brás Cubas.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance de Xavier de Maistre foi publicado em 1794 e traz o relato de uma viagem de 42 dias feita pelo autor sem sair do próprio quarto, onde está cumprindo pena de prisão domiciliar. No livro também está Expedição Noturna à Roda do Meu Quarto, continuação publicada 31 anos depois.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="border: 0px initial initial;" title="Jean Genet" src="http://felipearruda.com/genet.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;">Eu gosto dos franceses, mas especialmente de Jean Genet. Li <strong>Diário de um Ladrão</strong> no começo do ano, e pôrra, que livro! Romance autobiográfico do escritor que completaria <a href="http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4848" target="_blank">100 anos em 2010</a>. Está tudo ali: a vida como mendigo nas ruas, os piolhos compartilhados com os namorados, as traições, roubos e outras artimanhas que Genet usou antes de se tornar um dos grandes nomes da França.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro que li na mesma época foi Quase a Mesma Coisa, um livro sobre tradução escrito por Umberto Eco. Nele Eco analisa diversas traduções, incluindo as dos próprios livros. Muito bacana ver a relação que ele mantém com os tradutores dos livros dele. Muito indicado para quem se interessa pelo assunto.</p>
<h1 style="text-align: center;"><strong>· · · · ·</strong></h1>
<p style="text-align: justify;">E chega! Por enquanto é só! 2010 acaba hoje, à meia-noite. Portanto, feliz ano novo!</p>
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		<title>E se Londres estivesse ocupada?</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Nov 2010 13:13:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Oriente Médio]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Dia internacional de solidariedade com o povo palestino]]></category>
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		<description><![CDATA[Caso o vídeo não apareça no seu leitor de feed, assista no YouTube.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><center>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/dYamviV7ZSY?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/dYamviV7ZSY?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></center></p>
<p>Caso o vídeo não apareça no seu leitor de feed, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=dYamviV7ZSY">assista no YouTube</a>.</p>
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		<title>Rodapé</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Mar 2010 19:21:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Poetry is what gets lost in translation - Robert Frost Antes a tradução da tradução de uma tradução do que a ausência de tradução. Eu acho.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><em>Poetry</em> is what gets lost in <em>translation -</em> <em>Robert Frost</em></p>
<p><BR><BR></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://felipearruda.com/images/nota-traducao.jpg"><img class="aligncenter" title="Nota sobre a tradução" src="http://felipearruda.com/images/nota-traducao.jpg" alt="" width="465" height="77" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Antes a <em>tradução da tradução de uma tradução</em> do que a ausência de tradução. Eu acho.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O ordálio de Fisk</title>
		<link>http://www.felipearruda.com/blog/2009/12/um-artigo-do-fisk/</link>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 23:33:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em 2001 o jornalista britânico Robert Fisk, provavelmente o principal e mais respeitado correpondente do Oriente Médio, foi espancado por refugiados afegãos. Para evitar que a história fosse contada por terceiros, o próprio Fisk resolveu escrever um relato sobre o &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/12/um-artigo-do-fisk/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 2001 o jornalista britânico Robert Fisk, provavelmente o principal e mais respeitado correpondente do Oriente Médio, foi espancado por refugiados afegãos. Para evitar que a história fosse contada por terceiros, o próprio Fisk resolveu escrever um relato sobre o episódio. Na época o artigo causou um certo furor e até deu origem à uma nova gíria: <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Fisking">fisking, to fisk</a>.</p>
<p>Volta e meia eu me lembro deste artigo, em diversas situações. Acho que a mais comum é quando escuto alguém querendo quebrar a cara de algum pivete ou trombadinha. Já que nunca encontrei este artigo em português, resolvi traduzir e colocar online. A tradução foi feita meio às pressas e sem a revisão do meu <a href="http://caio.ueberalles.net/log/">parceiro</a> de assuntos textuais, literários e linguísticos. Então, se notar alguma coisa esquisita e, por ventura, comparar com o <a href="http://www.commondreams.org/views01/1209-07.htm">original</a>, deixe sua sugestão nos comentários. Afinal, colaboração é um dos pilares da internet.</p>
<p>Por último, já que o ano está acabando e todo mundo fica meio meloso nesta época, acho que o artigo também serve como uma boa lição de tolerância e de percepção. Espero que tenha uma boa leitura!</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 21.0px 0.0px; font: 32.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"><strong>A surra que levei dos refugiados é um símbolo do ódio e da fúria desta guerra suja</strong></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 19.0px 0.0px; font: 24.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"><strong>Relato de Robert Fisk em Kila Abdullah depois do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordália">ordálio</a> na fronteira afegã</strong></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 21.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"><strong>10 de dezembro de 2001</strong></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eles começaram nos cumprimentando. Nós dissemos “Salaam aleikum” — que a paz esteja convosco — e então o primeiro <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Seixo_(rocha)"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">seixo</span></a> passou perto do meu rosto. Um menino pequeno tentou pegar a minha bolsa. Depois outro. Então alguém deu um murro nas minhas costas. Depois rapazes quebraram os meus óculos, começaram a bater com pedras na minha cara e na minha cabeça. Eu não conseguia enxergar por causa do sangue que caía da minha testa e inundava os meus olhos. E mesmo assim, eu entendi. Eu não podia culpá-los pelo o que eles estavam fazendo. Na verdade, se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, perto da fronteira Afeganistão-Paquistão, eu teria feito a mesma coisa com o Robert Fisk. Ou qualquer outro ocidental que eu encontrasse.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então pra quê registrar meus poucos minutos de terror e desgosto durante o assalto perto da fronteira afegã, sangrando e chorando como um animal, quando centenas — vamos ser francos e dizer milhares —de civis inocentes estão morrendo no Afeganistão por causa dos ataques aéreos americanos, quando a “Guerra pela Civilização” está queimando e mutilando os <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pashtuns"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Pashtuns</span></a> de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Kandahar"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Kandahar</span></a> e destruindo as casas deles porque o “bem” deve triunfar sobre “mal”?</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Alguns dos afegãos nesta pequena vila estão ali há anos, outros chegaram — desesperados e com raiva e lamentando seus queridos parentes que foram assassinados — nas últimas duas semanas. Era um péssimo lugar para o carro quebrar. Uma péssima hora, um pouco antes do Iftar, o fim do jejum diário do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ramad%C3%A3"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Ramadã</span></a>. Mas o que aconteceu conosco foi simbólico em relação ao ódio e fúria e hipocrisia desta guerra suja, um grupo crescente de homens afegãos pobres, jovens e velhos, que viram estrangeiros — inimigos — no meio deles e tentaram acabar com pelo menos um.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Muitos desses afegãos, nós viemos a saber, estavam indignados com o que eles viram na televisão sobre o <a href="http://www.youtube.com/watch?v=iXx5td6_IqM"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">massacre</span></a> de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Mazari_Sharif"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Mazar-i-Sharif</span></a>, os prisioneiros mortos com as mãos amarradas pra trás. Mais tarde um aldeão contou para um de nossos motoristas que eles tinham visto as fitas de vídeo dos oficiais da CIA, “Mike” e “Dave”, ameaçando de morte um prisioneiro ajoelhado em Mazar. Eles não eram educados — eu dúvido que muitos deles pudessem ler — mas você não precisa ter escolaridade para reagir à morte de pessoas queridas debaixo das bombas de B-52. A um certo momento um adolescente que berrava virou para o meu motorista e perguntou, com sinceridade: “Aquele é o Mr. Bush?”</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Devia ser quase 16:30h quando chegamos em Kila Abdullah, metade do caminho entre a cidade paquistanesa de Quetta e a cidade fronteiriça de Chaman; Amanullah, nosso motorista, Fayyaz Ahmed, nosso tradutor, Justin Huggler do The Independent — que tinha acabado de cobrir o massacre de Mazar — e eu.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Nós percebemos que algo estava errado quando o carro parou no meio da rua estreita e cheia de gente. Uma camada de vapor branco subia do capô do jeep, um grito constante de buzinas de carros e ônibus e caminhões e riquixás protestando contra o bloqueio que criamos na estrada. Nós quatro saímos do carro e o empurramos para fora da estrada.<span style="white-space: pre;"> </span>Eu murmurei algo para o Justin sobre este ser “um péssimo lugar pro carro quebrar”. Kila Abdullah era lar para milhares de afegãos refugiados, uma grande massa de pessoas pobres produzida pela guerra no Paquistão.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Amanullah foi procurar um outro carro — só tem uma coisa pior que uma multidão de homens enraivecidos e é uma multidão de homens enraivecidos após o anoitecer — e Justin e eu sorrimos para a multidão inicialmente amigável que já tinha se aglomerado em volta do veículo que fervia. Eu apertei muitas mãos — talvez eu tenha pensado no Mr. Bush — e disse muitos “Salaam aleikums”. Eu sabia o que aconteceria se os sorrisos parassem.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A multidão aumentou e eu sugeri ao Justin que fôssemos pra longe do jeep, andássemos na estrada aberta. Uma criança relou os dedos no meu pulso e eu me convenci de que foi um acidente, um momento infantil de desprezo. Então um seixo passou pelo meu rosto e bateu no ombro do Justin. O Justin se virou. Os olhos dele expressavam preocupação e eu me lembro com eu respirei fundo. Por favor, eu pensava, seja só uma brincadeira. Então outra criança tentou agarrar a minha bolsa. Nela estava meu passaporte, meus cartões de crédito, dinheiro, diário, agenda de contatos, telefone celular. Eu puxei ela de volta e coloquei a alça em volta do meu ombro. O Justin e eu cruzamos a rua e alguém esmurrou as minhas costas.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Como você sai de um sonho quando os personagens começam a ficar hostis? Eu vi um dos homens que era todo sorriso quando nós nos cumprimentamos. Ele não estava sorrindo agora. Alguns dos meninos pequenos ainda estavam gargalhando, mas agora os risos deles estavam se transformando em alguma outra coisa. O estrangeiro respeitado — o homem que era só “salaam aleikum” alguns minutos atrás — estava preocupado, assustado, fugindo. O ocidente estava vindo abaixo. Justin estava sendo empurado e, no meio da estrada, nós notamos um motorista de ônibus chamando nós para entrarmos no veículo dele. Fayyaz, ainda no carro, sem entender porque nós saímos de lá, não conseguia mais nos ver. Justin alcançou o ônibus e subiu. Assim que eu coloquei meu pé no ônibus, três homens agarraram a alça da minha bolsa e me puxaram de volta para a estrada. “Agarra firme”, ele gritou. Eu agarrei.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Foi aí que a primeira porrada atingiu a minha cabeça. Eu quase caí, meus ouvidos zuniram com o impacto. Eu estava esperando aquilo, mas não tão dolorido ou tão forte, nem tão imediato. A mensagem daquilo era horrível. Alguém me odiava a ponto de me machucar. Houve mais duas porradas, uma na parte de trás do meu ombro, um soco forte que me mandou direto contra a lateral do ônibus enquanto eu ainda agarrava a mão do Justin. Os passageiros olhavam pra mim e pro Justin. Mas eles não se mexiam. Ninguém queria ajudar.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu gritei “Me ajuda, Justin”, e o Justin — que estava fazendo mais do que qualquer humano podia fazer, me segurando firmemente enquanto eu perdia a força — me perguntou o que eu queria que ele fizesse. Então eu percebi. Eu não podia escutar somente ele. Sim, eles estavam gritando. Será que eu ouvi a palavra “kaffir” — infiel? Talvez eu estivesse enganado. Neste momento eu fui arrastado para longe de Justin.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Houve mais duas pancadas na minha cabeça, uma de cada lado e por alguma razão estranha, parte da minha memória — algum estalo no meu cérebro — registrou um momento na escola, na escola primária chamada the Cedars em Maidstone mais de 50 anos atrás, quando um menino alto construindo castelos de areia no parquinho me acertou na cabeça. Eu tinha uma lembrança do <em>cheiro</em> da porrada, como se ela tivesse afetado o meu nariz. A próxima pancada veio de um homem que eu vi carregando uma pedra enorme na mão direita. Ele sentou a pedra com uma força enorme na minha testa e alguma coisa quente e líquida escorreu pela meus rosto e lábios e queixo. Eu fui chutado. Nas costas, nas canelas, na minha coxa direita. Outro adolescente agarrou a minha bolsa mais uma vez e mais uma vez eu segurei a alça, olhando pra todo lado, e percebendo que deveria ter cerca de 60 homens na minha frente, gritando. Estranhamente, não foi medo que eu senti, mas uma espécie de assombro. Então é assim que acontece. Eu sabia que precisava reagir. Ou, concluí naquele atordoamento, eu morreria.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A única coisa que me chocou foi o meu próprio senso físico do colapso, a minha consciência crescente do líquido que começava a me cobrir. Eu acho que nunca tinha visto tanto sangue antes. Por um segundo eu vislumbrei algo terrível, um rosto aterrorizante —o meu próprio rosto — refletido na janela do ônibus, cheio de sangue, as minhas mãos encharcadas daquilo como as de Lady Macbeth, o sangue escorrendo pelo meu pullover e pela gola da minha camisa até as minhas costas ficarem molhadas e minha bolsa pingar gotas vermelhas que apareciam repentinamente na minha calça.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Quanto mais eu sangrava, mais a multidão se juntava e batia em mim com as próprias mãos. Seixos e pedras pequenas começaram a rebater em minhas cabeças e ombros. Por quanto tempo, eu lembro que pensei, isso poderia prosseguir? A minha cabeça, de repente, foi atingida por pedras nos dois lados ao mesmo tempo — não foram pedras arremessadas, mas seguradas com as palmas das mãos dos homens que estavam usando elas para tentarem quebrar a minha cabeça. Então um soco atingiu o meu rosto, estilhaçando os meus óculos no meu nariz, outra mão agarrou o par de óculos sobressalentes que estava pendurado em meu pescoço e arrancou do cordão a caixa de couro onde eles estavam guardados.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu acho que neste ponto eu deveria agradecer ao Líbano. Durante 25 anos eu cobri as guerras do Líbano e os libaneses costumavam me ensinar, inúmeras vezes, como permanecer vivo: tome uma decisão — qualquer decisão — mas não fique sem fazer nada.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então eu puxei minha bolsa de volta das mãos de um rapaz que a estava segurando.  Ele recuou. Então eu me virei para o homem à minha direita, aquele que estava segurando a pedra ensanguentada na mão e soquei com força a boca dele. Eu não conseguia enxergar muito — meus olhos não estavam apenas míopes sem os meus óculos, estavam também cobertos por uma névoa vermelha — mas eu vi o homem meio que tossindo e um dente cair dos seu lábio e então ele caiu de costas nas estrada. Por um segundo a multidão parou. Então eu parti em cima do outro homem, agarrando a minha bolsa debaixo do meu braço e esmurrando o nariz dele com o meu punho. Ele berrou de raiva e de repente o nariz dele ficou todo vermelho. Eu errei um soco em outro homem, acertei a cara de mais um, e corri.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu estava de volta no meio da estrada, mas não conseguia enxergar. Eu levei minhas mãos até os meus olhos e eles estavam cheios de sangue e com os meus dedos eu tentei remover aquela gosma deles. Fez um barulho de sucção, eu comecei a enxergar de novo e percebi que eu estava chorando e que as lágrimas estavam limpando o sangue dos meus olhos. O que eu tinha feito, eu ficava me perguntando? Eu tinha socado e atacado refugiados afegãos, o povo sobre o qual eu estava escrevendo a respeito por tanto tempo, o povo pobre e mutilado que o meu próprio país — entre outros — estava matando, com o Taliban, logo depois da fronteira. Deus me livre, eu pensei. Na verdade, eu acho que falei isso. Os homens cujas famílias nossos bombardeiros estavam matando agora era meus inimigos também.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então aconteceu algo inesquecível. Um homem andou até mim, muito calmamente, e me pegou pelo braço. Eu não consegui vê-lo muito bem por causa de todo aquele sangue que escorria pelos meus olhos, mas ele estava vestido numa espécie de túnica e usava um turbante e tinha uma barba grisalha. E ele me levou para longe da multidão. Eu olhei por cima do meu ombro. Tinha cem homens atrás de mim e algumas pedras jogadas de leve, mas que não tinham o objetivo de me acertar — presumivelmente para evitar que acertassem o desconhecido. Ele era como uma figura do Velho Testamento ou de alguma história bíblica, o Bom Samaritano, um homem muçulmano — talvez um mulá da vila — que estava tentando salvar a minha vida.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ele me empurrou para a parte de trás de uma caminhonete da polícia. Mas o policial não se mexeu. Eles estavam aterrorizados. “Me ajude”, eu continuava a gritar pela janela pequena da cabine deles, o sangue das minhas mãos escorrendo pelo vidro. Eles dirigiram por alguns metros e pararam até que o homem alto falou com eles novamente. Depois eles dirigiram por mais 300 metros.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E lá, ao lado da estrada, estava o comboio da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/International_Red_Cross_and_Red_Crescent_Movement"><span style="font: normal normal normal 16px/normal Times; text-decoration: underline;">Cruz Vermelha-Crescente Vermelho</span></a>. A multidão ainda estava atrás de nós. Dois dos atendentes médicos me puxaram pra parte de trás de um dos veículos deles, derramaram água sobre as minhas mãos e sobre o meu rosto e começaram a colocar ataduras na minha cabeça, no meu rosto e na minha nuca. “Deite aí e nós vamos te cobrir com uma manta, assim eles não vão conseguir te ver”, disse um deles. Eles eram muçulmanos, de Bangladesh e os nomes deles deveriam ficar registrados, porque são homens bons e honestos: Mohamed Abdul Halim e Sikder Mokaddes Ahmed. Eu estava deitado no chão, gemendo, consciente de que eu poderia viver.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O Justin chegou em alguns minutos. Ele havia sido protegido por um soldado enorme das tropas do Baluchistão — verdadeiro fantasma do Império Britânico que, com um único rifle, manteve a multidão afastada do carro em que o Justin estava sentado. Eu segurei firme a minha bolsa. Eles não conseguiram tomá-la de mim. Eu fica repetindo isso pra mim mesmo, como se meu passaporte e meus cartões de crédito fossem uma espécie de Cálice Sagrado. Mas eles tinham quebrado o meu último par reserva de óculos — eu estava cego sem eles — e meu telefone celular também tinha sumido, assim como minha agenda de contatos com 25 anos de números telefônicos de todo o Oriente Médio. O que eu poderia fazer? Pedir para todo mundo que me conheceu alguma vez na vida me enviar de volta seu número de telefone?</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Droga, eu disse e tentei socar ao meu lado até que eu percebi que estava sangrando por causa de um corte grande no pulso — a marca do dente que eu tinha tirado da boca daquele homem, um homem que era inocente de qualquer crime exceto de ser a vítima do mundo.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Eu passei mais de duas décadas e meia relatando a humilhação e a miséria do mundo muçulmano e agora a raiva deles também tinha me alcançado. Será? Havia Mohamed e Sikder do Crescente Vermelho e Fayyaz que foram incansáveis no nosso tratamento e Amanullah que nos convidou para irmos até a casa dele para o tratamento médico. E teve o santo muçulmano que me pegou pelo braço.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E — eu percebi — tinha todos aqueles homens e meninos afegãos que me atacaram, que nunca deveriam ter feito isto mas cuja brutalidade era completamente o produto dos outros, de nós  — de nós que armamos a luta deles contra os russos e ignoramos a dor deles e rimos da guerra civil deles e depois armamos e pagamos eles de novo para a “Guerra pela Civilização” algumas milhas longe dali e depois bombardeamos os seus lares e devastamos suas famílias e demos a tudo isso o nome de “dano colateral”.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Então eu pensei que deveria escrever sobre o que aconteceu conosco neste incidente pequeno, sangrento, estúpido, assustador. Eu tinha medo que outras versões pudessem produzir uma narrativa diferente, de como um jornalista britânico foi “espancado por uma multidão de refugiados afegãos”</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 16.0px 0.0px; font: 16.0px Times;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E é claro, isso é o que importa. As pessoas que foram agredidas foram os afegãos, as cicatrizes foram causadas por nós — pelos B-52s, não por eles. E vou dizer novamente. Se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, eu teria feito exatamente o que eles fizeram. Eu teria atacado o Robert Fisk. Ou qualquer outro ocidental que eu tivesse encontrado.</span></p>
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		<title>Omã, futebol e filatelia</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Nov 2009 03:05:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há alguns anos eu resolvi colecionar selos. A empolgação não durou muito tempo, mas serviu para eu descobrir que filatelia ou numismática ensinam História por tabela. Uma vez comprei na feira do Largo da Ordem um pacote com 150 selos &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/11/oma-futebol-e-filatelia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há alguns anos eu resolvi colecionar selos. A empolgação não durou muito tempo, mas serviu para eu descobrir que filatelia ou numismática ensinam História por tabela.</p>
<p>Uma vez comprei na feira do Largo da Ordem um pacote com 150 selos de &#8220;países árabes&#8221;. Voltei pra casa extasiado. Espalhei todos os selos na mesa e descobri que eram todos de um único país do qual eu nunca tinha ouvido falar: Dhufar.</p>
<p>Hoje a seleção brasileira marcou dois gols contra o time de Omã. A pergunta que eu mais ouvi foi &#8220;onde diabos fica Omã?&#8221;. Eu chutei que ficava perto da Líbia, e não poderia ter errado mais. Omã faz fronteira com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Iêmen.</p>
<p>Por causa deste jogo eu lembrei de novo dos selos: eles não valem nada. Na verdade nem são considerados selos, propriamente dito. São <em>bogus</em>, <em><a href="http://www.danstopicals.com/dhufar.htm">cinderelas</a></em>. Estampas que se parecem com selos, mas que não são. A história é um pouco confusa e está incompleta no <a href="http://www.oman.org/phil85.htm">único site</a> com informações de verdade sobre o assunto, mas vou me arriscar a fazer um resumo mesmo assim.</p>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border: 0px initial initial;" title="selos" src="http://www.felipearruda.com/blog/wp-content/uploads/2009/11/selos-300x158.jpg" alt="selos" width="300" height="158" /></p>
<p><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dhofar">Dhufar</a> — ظفار, em árabe — é uma das principais regiões do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Omã">Sultanato de Omã</a> (سلطانة عمان). A província fica no sul do país e tem traços culturais diferentes do resto do sultanato. Nesta região, por exemplo, há línguas que não são faladas nas outras regiões de Omã.</p>
<p>Durante o reinado do sultão Sa&#8217;id bin Taimur (1932 &#8211; 1970), Dhufar era administrada como uma espécie de propriedade particular do sultão, que preferia Dhufar à <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Masqat">Mascate</a>. Ele até chegou a morar em Salalah, a capital da província, no fim dos anos 50.</p>
<p>Por estas diferenças culturais e por ser uma região privilegiada pelo <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Khareef">Khareef</a>, a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Monção">monção</a> que ocorre em Dhufar entre os meses de junho à setembro, a província sempre foi explorada. Alguns habitantes da região, por não falarem árabe, também tinham mais restrições que o restante da população do país. Esta situação levou à criação da Dhufar Liberation Front (DLF), um movimento separatista formado por jovens comunistas em 1965. A DLF foi derrotado depois de uma tentativa de assassinato promovida contra o sultão Taimur em 1966.</p>
<p>Em 1968 a DLF começa a receber ajuda do Iêmen e, em um congresso,  surge um novo movimento separatista, o <a style="text-decoration: underline; color: #002bb8; background-image: none; background-repeat: initial; background-attachment: initial; -webkit-background-clip: initial; -webkit-background-origin: initial; background-color: initial; background-position: initial initial;" title="Popular Front for the Liberation of the Occupied Arabian Gulf" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Popular_Front_for_the_Liberation_of_the_Occupied_Arabian_Gulf">Popular Front for the Liberation of the Occupied Arabian Gulf</a> (PFLOAG). O PFLOAG foi apoiado pela China e pela Rússia, com fornecimento de armas e treinamento militar. As armas eram enviadas pela China para a PFLOAG através de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Aden">Aden</a>, com a permissão do govermo do Iêmen. Com isso já dá pra deduzir a fórmula: separatistas + armamento = confusão das bravas.</p>
<p>Enquanto o exército do sultão tinha armas velhas da Segunda Guerra, a PFLOAG e o DLF tinham armas modernas, como AK-47. Para acalorar ainda mais a situação, outro movimento revolucionário surge em Omã, mas desta vez ao norte: a National Democratic Front for the Liberation of Oman and the Arabian Gulf<strong> </strong>(NDFLOAG).</p>
<p>Em 23 de julho de 1970 o sultão Said bin Taimur foi deposto e exilado em Londres, sendo substituído pelo seu filho Qaboos bin Said Al Said, que reina até hoje como sultão de Omã. É neste momento, com o sultão deposto e uma possível vitória dos movimentos separatistas, que a confusão dos selos começa.</p>
<p>O <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Imame">imã</a> deposto, que gerenciava a cidade de Mascate durante o reinado de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Taimur_bin_Faisal">Taimur bin Faisal</a>, antes do reinado de <a style="text-decoration: none; color: #5a3696; background-image: none; background-repeat: initial; background-attachment: initial; -webkit-background-clip: initial; -webkit-background-origin: initial; background-color: initial; background-position: initial initial;" title="Said bin Taimur" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Said_bin_Taimur">Said bin Taimur</a>, resolveu apoiar os rebeldes separatistas, como uma tentativa frustrada de voltar ao poder. Frustrada porque os rebeldes nunca tiveram simpatia pelo imã. Eles eram contra o imã tanto quanto eram contra o sultão.</p>
<p>Mas neste meio tempo, um libanês esperto chamado Youssef Salim Tadros, que era amigo do imã e responsável pela impressão de selos de Omã até então, percebeu a situação otimista da rebelião, resolveu sair na frente e fazer selos para Dhufar, o país que estava sendo criado. Não se sabe se ele chegou a consultar o imã ou algum outro líder exilado antes de tomar esta posição, mas para ele pouco importava. Com tantas notícias sobre a guerra em Omã circulando pelo mundo, ficaria fácil fazer os selos serem aceitos por filatelistas como provenientes das regiões ocupadas. A comunidade internacional, como sempre sabendo pouco sobre os problemas deste canto do mundo, não perceberia que os seguidores do Imã exilado e a PFLOAG eram entidades completamente diferentes.</p>
<p>Entretanto, com o apoio da Inglaterra, os rebeldes foram derrotados e o sultanato de Omã acabou sendo restabelecido e reconhecido pelos outros países árabes. Com este reconhecimento, Omã pôde fazer parte, em 1971, da União Postal Árabe, da União Postal Universal, da Liga dos Estados Árabes e das Nações Unidas. Os planos de separação de Dhufar tinham falhado, e com a ascensão de Omã à União Postal Árabe, os selos impressos por Tadros já não tinham mais validade.</p>
<p>Por alguma razão misteriosa, Damasco ainda aceitou os selos de Tadros até junho de 1972, o que permitiu que o espertalhão permanecesse no negócio por mais um tempo. Especula-se que tenha sido pelos bons contatos que Tadros deveria ter enquanto fornecia selos oficiais para vários países árabes e a tradição do governo sírio de abrigar diversos líderes de oposição do Oriente Médio.</p>
<p>Hoje estes <em>selos</em> não valem nada. Você pode comprar eles pela internet a um preço ridículo, já que eles nunca tiveram o status oficial de selo postal.</p>
<p>Se por um lado eu acho legal ter selos de uma tentativa frustrada de golpe, por outro eu reconheço que eles não devem valer mais do que um selo criado por mim, por exemplo, para algum país da minha imaginação. Ninguém nunca vai considerar minha criação como comprovante de pagamento de serviços postais.</p>
<p>Mas não posso negar que estes selos serviram para que eu fosse atrás de um pedacinho da história de Omã, o país que não conseguiu vencer o Brasil, mas que segundo o locutor do jogo, abriga muitos trabalhadores brasileiros.</p>
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		<title>Oi, eu acho que sou um PC</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Jul 2009 17:40:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Certa vez, em um evento de divulgação do vegetarianismo, eu fiquei encarregado do sorteio de alguns brindes. Corri até em casa, peguei um saquinho de pano e as peças de um tabuleiro de Go. De volta no auditório, expliquei: neste &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/07/oi-eu-acho-que-sou-um-pc/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Certa vez, em um evento de divulgação do vegetarianismo, eu fiquei encarregado do sorteio de alguns brindes. Corri até em casa, peguei um saquinho de pano e as peças de um tabuleiro de <em>Go</em>. De volta no auditório, expliquei: neste saco tem peças brancas e pretas. As pretas são predominantes. Se você tirar uma peça branca, ganha um brinde.</p>
<p>Tudo corria bem. Alguns ganharam brindes, muitos não ganharam nada. Entre alguns &#8220;que pena!&#8221; e poucos &#8220;oba!&#8221;, um sujeito me interrompe:</p>
<p>- Mas que racismo! Por que a peça preta é a ruim?</p>
<p>É claro que ele não tinha ganhado nada. Fingi que não escutei e prossegui com o sorteio. Depois do evento, o pessoal da organização concordou que aquele cara era meio esquisito. Eu diria paranóico, mas vou adotar esquisito por questões diplomáticas.</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>Quando eu era pequeno um amigo mais velho me mostrou uma edição da revista <em>Casseta Popular</em>. O nome dele era Everton, mas nós o chamávamos de Eto. Através dele conheci também a <em>Chiclete com Banana</em>, o <em>Geraldão</em> e muitas outras revistas e personagens que foram essenciais para a minha formação.</p>
<p>Para quem estava crescendo com a <em>Turma da Mônica</em> e <em>Marvel Comics, </em>aquilo era o paraíso. Nudismo, palavrões, ataques aos costumes familiares, <em>porralouquice</em> das boas. Eu tinha meus 10 ou 11 anos e às vezes interrompia a leitura de Geraldão para constranger o meu pai, perguntando o que significava algumas expressões que os personagens usavam. Normalmente eram metáforas para masturbação, mas meu pai sempre fugia de uma resposta objetiva para isso.</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>Durante o <em>ginásio</em> e o <em>segundo grau</em>, tive contato com muito material considerado politicamente incorreto.A começar pela dupla <em>Beavis &amp; Butthead</em>, que não economizavam em palavrões, violência e atitudes que podem ser consideradas de moral duvidosa. Para mim era um prato cheio, ainda mais que eles passavam o dia no sofá assistindo vídeoclipes de bandas de rock que eu também gostava.</p>
<p>Nesta época tinha também o RPG. Uma categoria de jogos que provavelmente ajudou muito no desenvolvimento da criatividade de muita gente. Invocávamos criaturas, demônios, elementais, descíamos o sarrafo em todo mundo nas partidas de D&amp;D. E claro, ficávamos indignados quando líamos nas revistas especializadas que algumas organizações religiosas e familiares eram contra o jogo e gostariam de proibi-lo.</p>
<p>Outro marco desta minha fase dos 11 aos 18 anos foi o primeiro disco do Planet Hemp. Eu nunca fumei maconha. Nem mesmo ao estilo Bill Clinton, sem tragar. Mas eu adorava aquele disco e aquelas letras e a condição marginalizada que ele tinha. Tocava em todas as festas do pessoal da escola. Junto com este disco também tocavam outros de bandas de punk rock, com letras contra a igreja, contra o consumismo, celebrando a liberdade, xingando políticos. Enfim, contra o sistema, cara!</p>
<p>Eu pirava nessas coisas, para o desespero dos meus pais. E até hoje gosto, só que prefiro letras e idéias mais refinadas.</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>Na empresa onde eu trabalhava, uma vez recebemos uma piada na lista off-topic. Não lembro bem como era, mas falava de uma mãe negra amamentando seu filho com uma banana e do menino erguendo os braços quando ela dizia &#8220;Arrota, filho! Arrota&#8221;, frase foneticamente parecida com &#8220;A <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/ROTA">ROTA</a> filho, a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/ROTA">ROTA</a>!&#8221;.</p>
<p>Lembro que eu respondi criticando a piada, dizendo que era sem graça e preconceituosa. Hoje eu vejo que até gosto da parte da ROTA, mas o lance da banana ainda me incomoda. Algumas pessoas defenderam a mulher que repassou o e-mail, outras criticaram e então a dicussão morreu, como todas as threads inúteis que acontecem no mundo virtual</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>Agora tá rolando um bafafá com um comediante brasileiro, o Danilo Gentili. Ele comparou o King Kong com jogadores de futebol, que segundo o humorista são <em>macacos que vão para a cidade, ficam famosos e daí querem agarrar uma loira gostosa</em>. Neste contexto, ficou subentendida a comparação de negros com macacos, por causa de vários fatores que eu tenho a maior preguiça de citar agora.</p>
<p>Para resumir, ele está sendo investigado sob a acusação de racismo. Nesta novela toda, destacam-se dois tipos de telespectadores: os que defendem o Gentili e os que acusam ele de preconceito.</p>
<p>Quem acusa, é claro, acusa de racismo. Chamar um negro de macaco sempre foi uma atitude racista. Desde os meus tempos de menino eu sei disso. Na terceira série do primário eu lembro muito bem de um amigo que sempre ficava sem par nas apresentações de danças folclóricas da escola. Misteriosamente, ele era pobre e negro.</p>
<p>Aqueles que defendem Gentili acusam o mundo de onda paranóica e insuportável do pensamento politicamente correto. Se você viu preconceito na piada, o problema é com você, que é politicamente correto (PC) ou então racista mesmo, como o Gentili escreveu em sua própria defesa.</p>
<p>Eu confesso que não achei graça na piada do Gentili. Mas no geral eu não vejo graça nas piadas dele e nem desta leva de humoristas brasileiros que resolveram retomar o<em> stand up comedy</em> com um <em>lag</em> considerável. Tudo bem que estamos acostumados a ter acesso às novidades só depois de muito tempo do lançamento delas em países como os EUA e o Japão, mas não imaginava que este atraso pudesse chegar a tanto.</p>
<p>Também acho que não foi a intenção dele ser preconceituoso. Poucas pessoas teriam culhões para sair publicamente se declarando racista. Mas independente da qualidade questionável do humorista, tem uma coisa que está martelando a minha cabeça: eu tenho a impressão de que o politicamente correto é o novo ser mitológico da galera, uma mistura de bode expiatório com Satã. Algo demoníaco e que justifica o comportamento de muita gente; um encosto!</p>
<p>Mas será que qualquer demonstração de simpatia pelo politicamente correto é mesmo ruim? Digo, normalmente eu não acho graça em piadas sobre gays, gordos e negros, porque a maior parte delas serve para reforçar o <em>status quo</em>. Mas é claro que tem casos que fogem à regra. Eu adoro ver <em>South Park</em>, <em>Monty Python</em> e filmes escrachados e esteriotipados como a <em>A Espaçonave das Loucas</em>, <em>Borat</em> e, em breve, <em>Brüno</em>. E eu não me sinto ofendido quando assisto essas coisas. Mas basta cinco minutos de Zorra Total para eu ver uma forma de humor que poderia ser engraçada no tempo dos meus avós, mas que agora está defasada e pode sim ser considerada preconceituosa (homofóbica, misógina, racista, etc).</p>
<p>Os tempos mudaram, as coisas evoluem. Será que qualquer manifestação em defesa destas mudanças é mesmo ruim? Porque se for, eu sou um PC. Eu apóio a linguagem inclusiva, muito bem apresentada para nós pelas nossas irmãs feministas, como disse o Richard Dawkins na <a href="http://flip.org.br">FLIP</a> deste ano. Eu não gosto de piadas onde negros são comparados com macacos ou gordos com elefantes. Além de não ver graça, eu realmente não gosto. Acho que o humor pode ser feito de forma bem mais inteligente, como nossos amigos norte-americanos fazem muito bem e por isso dominam a indústria do entretenimento. Aliás, diga-se de passagem que Gentili não se safaria de uma tremenda confusão com uma piada destas nos EUA.</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>O que eu queria mesmo, era perguntar:</p>
<ul>
<li>Por que é ruim criticar uma piada de mau gosto?</li>
<li>Por que é ruim mudar nossa forma de nos expressar em relação aos nossos semelhantes?</li>
<li>Por que a culpa é do politicamente correto e não do Gentili?</li>
<li>Existem piadas preconceituosas? Ou é tudo uma conspiração do povo politicamente correto?</li>
<li>Qual é a linha que separa o humor politicamente incorreto do humor preconceituoso?</li>
<li>Por que pessoas como eu não se ofendem com Robert Crumb e South Park, mas se ofendem com Zorra Total?</li>
<li>Se tudo é culpa do politicamente correto, então vale qualquer coisa?</li>
</ul>
]]></content:encoded>
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		<title>Bando de Pirralhos</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Mar 2009 16:04:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
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		<description><![CDATA[  A capa aí de cima é de Brat Pack, história em quadrinhos de Rick Veitch sobre um grupo de heróis coadjuvantes e desajustados que vive em Slumburg. Tem herói homossexual, viciado em drogas, bêbado, uma velhinha pervertida e sacana &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/03/bando-de-pirralhos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p><center><div id="attachment_293" class="wp-caption aligncenter" style="width: 260px"><img class="size-full wp-image-293" title="Brat Pack" src="http://www.felipearruda.com/blog/wp-content/uploads/2009/03/200810070250.jpg" alt="Brat Pack" width="250" height="368" /><p class="wp-caption-text">Brat Pack</p></div></center></p>
<p>A capa aí de cima é de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Bratpack_(comics)">Brat Pack,</a> história em quadrinhos de <a href="http://www.rickveitch.com/">Rick Veitch</a> sobre um grupo de heróis coadjuvantes e desajustados que vive em Slumburg. Tem herói homossexual, viciado em drogas, bêbado, uma velhinha pervertida e sacana e tem também um outro mais linha dura, quase nazista e que toma esteróides. Em comum todos têm a característica de esbanjar violência com sadismo e sarcasmo.</p>
<p>A história começa com a morte do grupo original e o recrutamento de novas pessoas para substituírem os finados. O fedelho da capa, depilando a perna, é o Chippy, uma espécie de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Robin_(comics)">Robin</a>: pequeno, um pouco frágil e sempre zoado por todo mundo. O padrinho dele no grupo é o Doninha, um herói que <em>&#8220;</em><em>saiu do armário e foi para as ruas, ansioso para agarrar os perpetradores do crime e do preconceito pelos pentelhos!</em><em>&#8220;</em>.</p>
<p>Toda esta subversão dentro do mundo dos super-heróis não é por acaso. Quando ainda era roteirista do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Swamp_Thing">Monstro do Pântano</a> na <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dc_comics">DC Comics</a>, <a href="http://www.rickveitch.com/">Rick Veitch</a> fez uma história onde o Monstro se encontrava com <a href="http://www.flickr.com/photos/30949808@N02/3307522383/in/set-72157614407337698/">Jesus Cristo</a>. A HQ já estava em produção e a editora resolveu cancelar por considerá-la potencialmente ofensiva.</p>
<p>Depois deste episódio Veitch começou a repensar sua posição e resolveu pedir demissão. Começou a desenhar e produzir as suas próprias HQs, sem precisar da aprovação de ninguém. A própria morte do <em>Bando de Pirralhos</em>, logo nas primeiras páginas, pode ser encarada como uma crítica à DC por ter matado o parceiro do Batman depois de uma votação onde os fãs decidiram pela morte do menino prodígio.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>**********</strong></p>
<p></p>
<p><center><div id="attachment_295" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-295" title="Salman Rushdie" src="http://www.felipearruda.com/blog/wp-content/uploads/2009/03/rushdie460-300x195.jpg" alt="Salman Rushdie" width="300" height="195" /><p class="wp-caption-text">Salman Rushdie</p></div></center></p>
<p>Outra confusão que envolve liberdade de expressão, publicação e religião (mas esta com mais destaque na mídia) são os vinte anos da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Fatwā">fatwa</a> contra<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Salman_rushdie"> Salman Rushdie</a> por causa do polêmico <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Satanic_Verses">Os Versos Satânicos</a>. Na época da publicação do livro houve protestos da comunidade islâmica em todo canto do mundo, com direito a queima de livros e tradutor japonês assassinado.</p>
<p>Mês passado, a edição de 22 de fevereiro da Folha de São Paulo trouxe a tradução de uma entrevista de duas páginas que Rushdie concedeu para o jornal El País. Este trecho do texto introdutório à entrevista parece digno de ser citado:</p>
<blockquote><p>O egípcio Naguib Mahfouz, Nobel de Literatura em 1988, reagiu à fatwa ditada contra Rushdie acusando Khomeini de terrorismo intelectual, mas, mais tarde, observou que ninguém tem o direito de ofender as crenças dos demais.</p>
<p>A visão de Rushdie é diametralmente oposta: &#8220;Sem o direito de ofender&#8221;, observou em certa ocasião, &#8220;não é possível falar em liberdade de expressão&#8221;. E: &#8220;Não há nada mais fácil do que impedir que um livro nos ofenda. Basta fechá-lo&#8221;.</p></blockquote>
<p>Em fevereiro também teve o relato do <a href="http://www.guardian.co.uk/books/2009/feb/16/rushdie-mcewan-fatwa-books">o escritor Ian McEwan para a revista The New Yorker</a> sobre a experiência de abrigar Rushdie quando até o Hezzbollah pedia a cabeça do autor. Além disso, o The Guardian disponibilizou um vídeo de oito minutos sobre os 20 anos da fatwa contra Rushdie. Se tiver um tempinho, <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/video/2009/feb/11/satanic-verses-rushdie-fatwa-khomeini">assista</a>.</p>
<p>Eu comecei a ler Os Versos Satânicos há pouco tempo e estou meio enrolado com a leitura, mas posso dizer que discordo de alguns comentários que li no <a href="http://books.livingsocial.com/">Living Social</a>, onde algumas pessoas disseram que o livro não tem nada de ofensivo. Se o leitor conhece um pouco sobre o Islã ele provavelmente vai perceber várias ofensas já na segunda parte do livro, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Mahound">Mahound</a>. O livro possui uma narração toda fragmentada e está <a href="http://www.wsu.edu/~brians/anglophone/satanic_verses/">cheio de referências</a>.</p>
<p>Aliás, José Saramago também causou uma certa indignação na igreja católica quando escreveu <em>O Evangelho Segundo Jesus Cristo</em>, mas nada comparável com o tumulto causado pelos <em>Versos Satânicos</em>. É até curioso, porque quando li o <em>Evangelho</em> achei legal Cristo pedir perdão para os homens pelos atos de Deus. Mas no caso da fatwa contra Rushdie parece que o contrário ainda é necessário: <em>perdoe-os, eles não sabem o que fazem</em>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Kedma</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Jan 2009 09:36:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Desde que emprestei Kedma do Capitulino, filme do diretor israelense Amos Gitai que mostra a chegada de um grupo de judeus europeus na Palestina em 1948, teve um trecho que me marcou bastante. As palavras do aldeão palestino, no fim da primeira parte, nunca &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/01/kedma/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Desde que emprestei <a href="http://www.imdb.com/title/tt0304267/"><strong>Kedma</strong></a> do <a href="http://blog.cpu.eti.br/">Capitulino</a>, filme do diretor israelense <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Amos_Gitai">Amos Gitai</a> que mostra a chegada de um grupo de judeus europeus na Palestina em 1948, teve um trecho que me marcou bastante. As palavras do aldeão palestino, no fim da primeira parte, nunca saíram da minha cabeça:</p>
<blockquote><p><em>Aqui permaneceremos, apesar de vocês, como uma muralha! Lavaremos pratos! Encheremos as taças dos senhores! Limparemos a cozinha para roubar de suas garras terríveis pães para os nossos filhos. Mas aqui permaneceremos, apesar de vocês, como uma muralha. Passaremos fome e vestiremos trapos! Mas nós os desafiaremos! Aqui permaneceremos, como uma muralha! Escreveremos poemas! Encheremos as taças! Nosso orgulho vai encher as prisões! Criaremos gerações de filhos rebeldes! Aqui permaneceremos, apesar de vocês, como uma muralha!</em></p></blockquote>
<p>Hoje descobri que isso é um poema. Ou pelo menos é fortemente inspirado no poema Não Iremos Embora, do poeta palestino Tawfik Az-Zayad. Uma pena que esta tradução, publicada no livro Poesia Palestina de Combate (Ed. Achiamé) foi feita do original castelhano publicado em Cuba, que por sua vez foi feito através da a tradução em castellano, que por sua vez é tradução do francês. Se poesia é aquilo que se perde ao traduzir, não estamos nada bem. De qualquer forma, segue o poema em português:</p>
<blockquote><p>NÃO IREMOS EMBORA</p>
<p>Aqui<br />
sobre vossos peitos<br />
persistimos<br />
como uma muralha<br />
em vossas goelas<br />
como cacos de vidro<br />
imperturbáveis<br />
e em vossos olhos<br />
como tempestades de fogo</p>
<p>Aqui<br />
sobre vossos peitos<br />
persistimos<br />
como uma muralha.<br />
em lavar os pratos em vossas cabanas<br />
em encher os copos dos senhores<br />
em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas<br />
para arrancar<br />
a comida de nossos filhos<br />
de vossas presas azuis</p>
<p>Aqui<br />
sobre vossos peitos<br />
persistimos<br />
como uma muralha<br />
famintos<br />
nus<br />
provocadores<br />
declamando poemas</p>
<p>Somos os guardiões da sombra<br />
das laranjeiras e das oliveiras<br />
semeamos ideais como fermento na massa<br />
Nossos nervos são de gelo<br />
mas nossos corações vomitam fogo<br />
quando tivermos sede<br />
espremeremos as pedras<br />
e comeremos terra<br />
quando estivermos famintos<br />
Mas não iremos embora<br />
e não seremos avarentos com nosso sangue</p>
<p>Aqui<br />
temos um passado<br />
e um presente<br />
Aqui<br />
está nosso futuro</p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Curitiba &#8211; 09/01/09</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jan 2009 00:47:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Hobbies]]></category>
		<category><![CDATA[Oriente Médio]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[curitiba]]></category>
		<category><![CDATA[Filme Cromo]]></category>
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		<category><![CDATA[israel]]></category>
		<category><![CDATA[Manifestação]]></category>
		<category><![CDATA[palestina]]></category>

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		<description><![CDATA[Coloquei no Flickr cinco fotos tiradas durante a passeata do dia 09/janeiro. Usei a Holga 120N com filme cromo vencido em 2004. Eu não sei o motivo, mas a Ticcolor fez cópia de apenas 5 fotos e o negativo tem &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2009/01/curitiba-090109/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Coloquei no <a href="http://www.flickr.com/photos/felipemiguel/tags/palestina/">Flickr</a> cinco fotos tiradas durante a passeata do dia 09/janeiro. Usei a Holga 120N com filme cromo vencido em 2004.</p>
<p>Eu não sei o motivo, mas a Ticcolor fez cópia de apenas 5 fotos e o negativo tem pelo menos mais cinco. Quando questionei a atendente, ela disse que foi porque a &#8220;máquina não conseguiu ler as outras fotos&#8221;.</p>
<p><strong>Update -</strong> O Murilo, gerente comercial da <a href="http://ticcolor.com.br/">Ticcolor</a>, deixou hoje um comentário explicando o que aconteceu:<em> A questão é que muitas vezes pelo fato da super exposição o leitor (scanner) das máquinas de impressão realmente não consegue fazer a leitura do fotograma, a mesma coisa que acontece com os processos de viragem. Na viragem tb existe um outro problema: cada vez que ela lê o fotograma essa leitura será diferente da anterior, tornando quase impossível fazer duas cópias iguais.</em></p>
<table border="0">
<tbody>
<tr>
<td><a href="http://www.flickr.com/photos/felipemiguel/3192984264/"><img class="size-full wp-image-260 alignnone" title="Passeata pró-Palestina, Curitiba." src="http://www.felipearruda.com/blog/wp-content/uploads/2009/01/3192984264_81021a7c1d_m.jpg" alt="" width="240" height="240" /></a></td>
<td><a href="http://www.flickr.com/photos/felipemiguel/3192984276/"><img class="alignnone size-full wp-image-261" title="Passeata pró-Palestina, Curitiba." src="http://www.felipearruda.com/blog/wp-content/uploads/2009/01/3192984276_7ea52837e9_m.jpg" alt="" width="240" height="238" /></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p> <br />
<span style="text-decoration: line-through;"> Vou levar o negativo na Ibiza para ver se conseguem imprimir as outras fotos.</span></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Natal sem pães em Gaza</title>
		<link>http://www.felipearruda.com/blog/2008/12/natal-sem-paes-em-gaza/</link>
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		<pubDate>Thu, 25 Dec 2008 20:57:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Oriente Médio]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<category><![CDATA[Natal]]></category>
		<category><![CDATA[palestina]]></category>

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		<description><![CDATA[O artigo a seguir foi traduzido, sem autorização, do The Electronic Intifada, um importante portal de notícias sobre o conflito Israel-Palestina. se você preferir, leia o artigo original, em inglês. A Faixa de Gaza, lar de mais de 1.5 milhões &#8230; <a href="http://www.felipearruda.com/blog/2008/12/natal-sem-paes-em-gaza/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><span style="color: #800000;">O artigo a seguir foi traduzido, <strike>sem autorização</strike>, do </span><a href="http://electronicintifada.net/"><span style="color: #000000;"><span style="color: #800000;">The Electronic Intifada</span></span></a><span style="color: #800000;">, um importante portal de notícias sobre o conflito Israel-Palestina. se você preferir, leia o artigo </span><a href="http://electronicintifada.net/v2/article10054.shtml"><span style="color: #000000;"><span style="color: #800000;">original</span></span></a><span style="color: #800000;">, em inglês.</span></em></p>
<blockquote>
<p align="justify">A Faixa de Gaza, lar de mais de 1.5 milhões de palestinos, logo ficará sem um dos seus produtos mais essenciais: o pão. Enquanto as famílias no mundo todo celebram o natal, reunindo-se ao redor de uma mesa farta, os pais de Gaza, como eu, não poderão oferecer pão para os seus filhos, a não ser que Israel abra as barreiras comerciais.</p>
<p align="justify">Ontem, depois de terminar minha palestra em uma das universidades de Gaza, minha esposa me pediu para comprar alguns pães na cidade de Gaza. Todas as panificadoras da nossa área pararam de trabalhar por causa da falta de farinha de trigo e gás de cozinha, graças ao cerco israelense em nosso território que já dura 18 meses.</p>
<p align="justify">Eu dirigi pela cidade de Gaza tentando encontrar alguns pães para as minhas quatro crianças, mas acabei encontrando uma cena miserável. Na volta para minha casa no campo de refugiados Maghazi, que fica no centro da Faixa de Gaza, eu vi dezenas de pessoas fazendo fila para conseguir alguns pães na Padaria al-Yazji. Eu logo percebi que levaria uma ou duas horas até que chegasse a minha vez na fila, e neste tempo o pão já teria acabado. Então eu segui para casa, sem pães.</p>
<p align="justify">&#8220;Pai, nós queremos comer, nós não temos pães,&#8221; reclamou a minha filha mais velha. Eu parei por um instante e então pedi para o meu filho Munir trazer alguns sanduíches de falafel &#8212; nossa fast food &#8212; para podermos preencher rapidamente o espaço vazio em nossos estômagos. Felizmente, depois de um tempo o Munir voltou trazendo os sanduíches, comprados a um preço alto.</p>
<p align="justify">Enquanto comíamos, a minha esposa me pediu para dirigir bem cedo até a cidade de Gaza no dia seguinte para tentar comprar alguns pães. Imagine que hoje em Gaza, comprar um simples pacote de pães envolve ter que acordar de madrugada, comprar um galão de gasolina a um preço muito elevado, já que a gasolina está sendo contrabandeada do Egito, e perder duas ou três horas para conseguir comprar os pães! Claro que este transtorno não torna a minha família especial. Esta é a história de todas as famílias em Gaza que tentam sobreviver no meio desta crise humanitária criada por Israel.</p>
<p align="justify">De acordo com Abdel Naser al-Ajrami, presidente da associação de padeiros em Gaza, mais de 27 panificadoras, de um total de 47 na cidade de Gaza, estão fechadas por causa da falta de gás de cozinha e farinha de trigo, já que as fronteiras comerciais estão fechadas, por ordem de Israel, por quase dois meses agora. Al-Ajrami explicou ontem que uma quantidade suficiente destes produtos será distribuída para as panificadoras nos próximos três dias, adicionando que os oficiais do Hamas têm feito grandes esforços para garantir que a quantidade necessária de gás e farinha de trigo possa ser entregue em Gaza.</p>
<p align="justify">No dia 18 de dezembro, a Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA) parou a distribuição de comida para os 750.000 refugiados em Gaza, incluindo a minha família, porque ficaram sem farinha de trigo em seu estoque. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Israel permite que apenas 16 caminhões com bens por dia entrem em Gaza. Em contraste, 475 caminhões por dia entraram na Faixa de Gaza em maio de 2007 quando a milícia do Hamas tomou o controle da região depois de uma luta com as forças do partido Fatah, do presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas.</p>
<p align="justify">Com a aproximação do Ano Novo, fica incerto o que teremos nos armazéns de Gaza já que um acordo de cessar-fogo de seis meses entre Israel e os grupos de resistência da Palestina terminou no começo desta semana. Em resposta à prisões e mortes extrajudiciais de palestinos pelas forças israelenses, os grupos de resistência de Gaza lançaram novamente foguetes contra o sul de Israel. Com a aproximação das eleições em Israel, o destino de famílias como a minha torna-se interesse da retórica política, cada candidato tentando fazer o seu melhor nas promessas de danos contra as nossas vidas. Gaza continua sendo a maior prisão à céu aberto do mundo. Entretanto, diferente de outras prisões, aqui é permitido que os internos passem fome. Enquanto isto, os carcereiros israelenses continuam sem a devida punição dos Estados Unidos e da União Européia pelos seus crimes.</p>
<p align="justify"><em>Rami Almeghari é contribuidor da The Electronic Intifada, IMEMC.org e Free Speech Radio News. Rami é também tradutor senior de inglês e editor-chefe do centro de notícias internacionais em Gaza do Serviço de Informação Palestino e professor sobre tradução política e midiática na Universidade Islâmica de Gaza. Ele pode ser contatado através do e-mail rami_almeghari A T hotmail D O T com.</em></p>
</blockquote>
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