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	<title>Felipe Arruda &#187; Uncategorized</title>
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	<description>Astronomia, literatura, viagens e outros hobbies e interesses</description>
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		<title>Oi, eu acho que sou um PC</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Jul 2009 17:40:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>felipe</dc:creator>
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		<category><![CDATA[politicamente correto]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Certa vez, em um evento de divulgação do vegetarianismo, eu fiquei encarregado do sorteio de alguns brindes. Corri até em casa, peguei um saquinho de pano e as peças de um tabuleiro de <em>Go</em>. De volta no auditório, expliquei: neste saco tem peças brancas e pretas. As pretas são predominantes. Se você tirar uma peça branca, ganha um brinde.</p>
<p>Tudo corria bem. Alguns ganharam brindes, muitos não ganharam nada. Entre alguns &#8220;que pena!&#8221; e poucos &#8220;oba!&#8221;, um sujeito me interrompe:</p>
<p>- Mas que racismo! Por que a peça preta é a ruim?</p>
<p>É claro que ele não tinha ganhado nada. Fingi que não escutei e prossegui com o sorteio. Depois do evento, o pessoal da organização concordou que aquele cara era meio esquisito. Eu diria paranóico, mas vou adotar esquisito por questões diplomáticas.</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>Quando eu era pequeno um amigo mais velho me mostrou uma edição da revista <em>Casseta Popular</em>. O nome dele era Everton, mas nós o chamávamos de Eto. Através dele conheci também a <em>Chiclete com Banana</em>, o <em>Geraldão</em> e muitas outras revistas e personagens que foram essenciais para a minha formação.</p>
<p>Para quem estava crescendo com a <em>Turma da Mônica</em> e <em>Marvel Comics, </em>aquilo era o paraíso. Nudismo, palavrões, ataques aos costumes familiares, <em>porralouquice</em> das boas. Eu tinha meus 10 ou 11 anos e às vezes interrompia a leitura de Geraldão para constranger o meu pai, perguntando o que significava algumas expressões que os personagens usavam. Normalmente eram metáforas para masturbação, mas meu pai sempre fugia de uma resposta objetiva para isso.</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>Durante o <em>ginásio</em> e o <em>segundo grau</em>, tive contato com muito material considerado politicamente incorreto.A começar pela dupla <em>Beavis &amp; Butthead</em>, que não economizavam em palavrões, violência e atitudes que podem ser consideradas de moral duvidosa. Para mim era um prato cheio, ainda mais que eles passavam o dia no sofá assistindo vídeoclipes de bandas de rock que eu também gostava.</p>
<p>Nesta época tinha também o RPG. Uma categoria de jogos que provavelmente ajudou muito no desenvolvimento da criatividade de muita gente. Invocávamos criaturas, demônios, elementais, descíamos o sarrafo em todo mundo nas partidas de D&amp;D. E claro, ficávamos indignados quando líamos nas revistas especializadas que algumas organizações religiosas e familiares eram contra o jogo e gostariam de proibi-lo.</p>
<p>Outro marco desta minha fase dos 11 aos 18 anos foi o primeiro disco do Planet Hemp. Eu nunca fumei maconha. Nem mesmo ao estilo Bill Clinton, sem tragar. Mas eu adorava aquele disco e aquelas letras e a condição marginalizada que ele tinha. Tocava em todas as festas do pessoal da escola. Junto com este disco também tocavam outros de bandas de punk rock, com letras contra a igreja, contra o consumismo, celebrando a liberdade, xingando políticos. Enfim, contra o sistema, cara!</p>
<p>Eu pirava nessas coisas, para o desespero dos meus pais. E até hoje gosto, só que prefiro letras e idéias mais refinadas.</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>Na empresa onde eu trabalhava, uma vez recebemos uma piada na lista off-topic. Não lembro bem como era, mas falava de uma mãe negra amamentando seu filho com uma banana e do menino erguendo os braços quando ela dizia &#8220;Arrota, filho! Arrota&#8221;, frase foneticamente parecida com &#8220;A <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/ROTA">ROTA</a> filho, a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/ROTA">ROTA</a>!&#8221;.</p>
<p>Lembro que eu respondi criticando a piada, dizendo que era sem graça e preconceituosa. Hoje eu vejo que até gosto da parte da ROTA, mas o lance da banana ainda me incomoda. Algumas pessoas defenderam a mulher que repassou o e-mail, outras criticaram e então a dicussão morreu, como todas as threads inúteis que acontecem no mundo virtual</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>Agora tá rolando um bafafá com um comediante brasileiro, o Danilo Gentili. Ele comparou o King Kong com jogadores de futebol, que segundo o humorista são <em>macacos que vão para a cidade, ficam famosos e daí querem agarrar uma loira gostosa</em>. Neste contexto, ficou subentendida a comparação de negros com macacos, por causa de vários fatores que eu tenho a maior preguiça de citar agora.</p>
<p>Para resumir, ele está sendo investigado sob a acusação de racismo. Nesta novela toda, destacam-se dois tipos de telespectadores: os que defendem o Gentili e os que acusam ele de preconceito.</p>
<p>Quem acusa, é claro, acusa de racismo. Chamar um negro de macaco sempre foi uma atitude racista. Desde os meus tempos de menino eu sei disso. Na terceira série do primário eu lembro muito bem de um amigo que sempre ficava sem par nas apresentações de danças folclóricas da escola. Misteriosamente, ele era pobre e negro.</p>
<p>Aqueles que defendem Gentili acusam o mundo de onda paranóica e insuportável do pensamento politicamente correto. Se você viu preconceito na piada, o problema é com você, que é politicamente correto (PC) ou então racista mesmo, como o Gentili escreveu em sua própria defesa.</p>
<p>Eu confesso que não achei graça na piada do Gentili. Mas no geral eu não vejo graça nas piadas dele e nem desta leva de humoristas brasileiros que resolveram retomar o<em> stand up comedy</em> com um <em>lag</em> considerável. Tudo bem que estamos acostumados a ter acesso às novidades só depois de muito tempo do lançamento delas em países como os EUA e o Japão, mas não imaginava que este atraso pudesse chegar a tanto.</p>
<p>Também acho que não foi a intenção dele ser preconceituoso. Poucas pessoas teriam culhões para sair publicamente se declarando racista. Mas independente da qualidade questionável do humorista, tem uma coisa que está martelando a minha cabeça: eu tenho a impressão de que o politicamente correto é o novo ser mitológico da galera, uma mistura de bode expiatório com Satã. Algo demoníaco e que justifica o comportamento de muita gente; um encosto!</p>
<p>Mas será que qualquer demonstração de simpatia pelo politicamente correto é mesmo ruim? Digo, normalmente eu não acho graça em piadas sobre gays, gordos e negros, porque a maior parte delas serve para reforçar o <em>status quo</em>. Mas é claro que tem casos que fogem à regra. Eu adoro ver <em>South Park</em>, <em>Monty Python</em> e filmes escrachados e esteriotipados como a <em>A Espaçonave das Loucas</em>, <em>Borat</em> e, em breve, <em>Brüno</em>. E eu não me sinto ofendido quando assisto essas coisas. Mas basta cinco minutos de Zorra Total para eu ver uma forma de humor que poderia ser engraçada no tempo dos meus avós, mas que agora está defasada e pode sim ser considerada preconceituosa (homofóbica, misógina, racista, etc).</p>
<p>Os tempos mudaram, as coisas evoluem. Será que qualquer manifestação em defesa destas mudanças é mesmo ruim? Porque se for, eu sou um PC. Eu apóio a linguagem inclusiva, muito bem apresentada para nós pelas nossas irmãs feministas, como disse o Richard Dawkins na <a href="http://flip.org.br">FLIP</a> deste ano. Eu não gosto de piadas onde negros são comparados com macacos ou gordos com elefantes. Além de não ver graça, eu realmente não gosto. Acho que o humor pode ser feito de forma bem mais inteligente, como nossos amigos norte-americanos fazem muito bem e por isso dominam a indústria do entretenimento. Aliás, diga-se de passagem que Gentili não se safaria de uma tremenda confusão com uma piada destas nos EUA.</p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p>O que eu queria mesmo, era perguntar:</p>
<ul>
<li>Por que é ruim criticar uma piada de mau gosto?</li>
<li>Por que é ruim mudar nossa forma de nos expressar em relação aos nossos semelhantes?</li>
<li>Por que a culpa é do politicamente correto e não do Gentili?</li>
<li>Existem piadas preconceituosas? Ou é tudo uma conspiração do povo politicamente correto?</li>
<li>Qual é a linha que separa o humor politicamente incorreto do humor preconceituoso?</li>
<li>Por que pessoas como eu não se ofendem com Robert Crumb e South Park, mas se ofendem com Zorra Total?</li>
<li>Se tudo é culpa do politicamente correto, então vale qualquer coisa?</li>
</ul>
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