Brasil Colônia, Pokémon e testículo de jacaré

Imagem da primeira edição do livro

Imagem da primeira edição da História de Gândavo

Tenho lido um livro que, apesar de importante, parece pouco conhecido do brasileiro. Se trata de História da província de Santa Cruz, relato de Pero de Magalhães de Gândavo, escrito 76 anos após a chegada de Cabral em nossa terra.

O fato de ser uma obra quinhentista já a torna rara, mas a idade não é só o que conta. Esse é considerado o livro que “inaugurou a historiografia e a geografia brasileira”. Claro que existem relatos anteriores a esse, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, mas Gândavo foi o primeiro a escrever com a visão de um historiador.

Porém, não é à toa que o texto é pouco conhecido. Depois de ter sido publicado, em 1576, por Antônio Gonçalves — primeiro editor de Os Lusíadas —, o livro foi convenientemente esquecido pela política de segredo da coroa portuguesa. A ideia era evitar que estrangeiros tivessem acesso às informações valiosas sobre a nova província.

Capa da edição da Jorge Zahar Editor, que estou lendo

Capa da edição da Jorge Zahar Editor, que estou lendo

Foi só em 1837, com a publicação da tradução francesa do historiador Henri Ternaux, que o texto voltou a ser popular, tornando raros os exemplares de 1576, que logo foram adquiridos por bibliófilos.

A edição que tenho em mãos, e que conheci nessas horas matadas dentro da Biblioteca Pública do Paraná, é de 2004 e foi publicada pela Jorge Zahar. Além das notas e da introdução à obra, o texto passou por uma adaptação para os leitores de hoje, feita por Sheila Moura Hue e Ronaldo Menegaz.

E a leitura tem rendido pesquisas paralelas bem divertidas. Depois de passar pela história do descobrimento e de descrever a geografia, as capitanias e os governos de então, Gândavo trata das plantas e dos animais da província. E é aí que a leitura fica divertida. Pelo menos para um leigo como eu.

Plantas e frutas

A mandioca, domesticada pelos índios, abre o capítulo sobre as plantas

A mandioca, domesticada pelos índios, abre o capítulo sobre as plantas

Obviamente, o capítulo é aberto com a raiz que aqui “se come em lugar de pão”: a mandioca. O autor fala da domesticação da planta pelos índios e ressalta diversas formas de preparo do tubérculo, mesmo das espécies “peçonhentas”.

Depois, ressalta que aqui temos uma planta que acreditava ter vindo de São Tomé e que muitas pessoas se sustentam da fruta que ela dá. “É mui tenra e não muito alta, não tem ramos, senão umas folhas que terão seis ou sete palmos de comprido”. É a banana, que Gândavo diz ter “feição de pepinos e criam-se em cachos”.

Yes, we have banana!

Yes, we have banana!

Na nota aprendi o nome tupi: pacova, que significa “folha de enrolar”. Aliás, as folhas ganham destaque nos relatos de outros autores da época, que alegam serem tão frescas que servem para acalmar a febre de doentes que se deitam sobre elas.

E o capítulo prossegue. São descritas castanhas, cajús,  algumas árvores, os cheirosos ananases (abacaxis), que nascem como alcachofras e cheiram muito bem (“em tupi, nanã, cheira-cheira”), e termina falando da dormideira, por causa da característica curiosa de fechar as folhas sempre que alguém toca nela.

Os animais ou A parte em que cito Pokémon

Aaawwnn!

Aaawwnn!

Para começar, algo que eu desconhecia: o único bicho domesticado pelos índios foi o pato-do-mato. Cavalos e gados foram trazidos de Cabo Verde, pelos portugueses. E depois de falar sobre animais de carne saborosa, como a capivara, Gândavo cai em um dos bichos mais legais: a anta, conhecida em tupi como tapir.

(Tentarei não mencionar dados sobre o pênis do animal, que vi quando era criança, num passeio ao zoológico de Curitiba. Enfim, foco!)

O que me chamou a atenção foi a etimologia da palavra anta, que uma nota diz ser de origem árabe. Eu tentei rastrear pela internet, mas o mais perto que cheguei foi da palavra “Lamt”, indicada pelo blog Origem da Palavra. Procurei no dicionário Hans Wehr, mas não encontrei nada parecido. Problema de transliteração, talvez. Para piorar, o artigo árabe da Wikipedia se refere ao animal como “tabirat”, que parece uma variação de “tapir”. Se alguém souber de uma referência mais concreta, me conte, por favor.

Drowzee, o comedor de sonhos

Drowzee, o comedor de sonhos

Lendo mais sobre a anta, aprendi que no folclore japonês elas possuem a habilidade de comer o sonho das pessoas. Portanto, como sagazmente percebeu a querida Bruna Fujie, não é à toa que o pokémon Drowzee se alimenta dessa forma.

Depois de alguns elogios às carnes da paca, da cutia e do tatu, de afirmar que a onça é um tigre e de tirar sarro da preguiça (“ainda que ande quinze dias aturados, não vence a distância de um tiro de pedra”), Gândavo também fala do tamanduá e de algumas espécies de macacos. Inclusive, conta que os micos-leões-dourados morrem durante a viagem quando tentam levá-los para fora do Brasil.

O autor também fala das cobras, inclusive com dados fantásticos sobre algumas delas, que teriam grandes asas ou a capacidade de se regenerar. Mas a grande revelação vem da descrição dos “lagartos mui grandes” que, provavelmente, seriam os jacarés.

Gândavo conta que os testículos desses bichos “cheiram melhor que almíscar, e a qualquer roupa que os chegam fica o cheiro pegado por muito dias”. Para mim, o fato é inédito. O Pe. Fernão Cardim vai além e diz que o esterco do bicho também é bom para manchas oculares.

As aves (extintas) de Santa Cruz

No capítulo sobre as aves, achei curiosa a citação dos galos do Peru, que com o passar do tempo passaram a ser chamados apenas de perus.

Mas o que entristece é tomar conhecimento dos anapurus. Eram papagaios grandes, de muitas cores e que viviam no sertão. Se acostumavam tanto ao ambiente doméstico que chegavam a se reproduzir sem problemas em cativeiro. Cada exemplar de anapuru valia de dois a três escravos. E, por tudo isso, a espécie foi extinta e o pássaro multicolorido nunca foi identificado pelos pesquisadores modernos.

Bestas dos mares

O monstro morto na capitania de São Vicente

O monstro morto na capitania de São Vicente

Gândavo também fala dos peixes de Santa Cruz, dando especial atenção a um mamífero aquático, o peixe-boi. Engraçado saber que eles comiam o animal nos dia em que a igreja determinava ser para se alimentar de peixes. Elogiavam a carne, diziam que se parecia tanto com a da vaca que até causava algum desconforto moral comê-la nesses dias santos.

Agora, começarei o capítulo em que ele descreve um monstro marinho morto na capitania de São Vicente, em 1564. É o bicho da imagem aí de cima. Mas como o livro é pequeno, com cerca de 180 páginas, não entrarei em detalhes para não tirar a graça da leitura que você pode querer fazer.

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Tentativa de podcast: Geek Out!

Já faz alguns meses que alguns amigos e eu resolvemos começar um podcast com temática geek/nerd. Na verdade, até parece mais um bate-papo público, com direito a muita falação de bobagens e piadinhas infames. De qualquer forma, este post é para avisar que, depois de alguns contratempos, conseguimos, finalmente, publicar um segundo episódio Beta.

Ainda estamos pegando o jeito, tentando melhorar a qualidade do áudio e da forma como abordamos os assuntos, mas acho que já está, pelo menos, minimamente aceitável. Porém, como disse, o Geek Out! ainda está em fase Beta. Então, se por acaso você acabar escutando esses 40 minutos de falatório, deixe um comentário dizendo o que achou e o que poderia ser melhorado.

Nós agradecemos!

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It’s Bloomsday!

ReJoyce!

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Consumo geek de baixo orçamento

Quatro coisas chegaram aqui em casa nos últimos meses. A primeira delas foi o ZTE X850 (Racer), um dos celulares mais baratos com Android do mercado brasileiro. Talvez o mais barato. Custou R$ 299, com a possibilidade de parcelar em 12 vezes sem juros.

Serei justo: o touchscreen resistivo é ruim, como era de se esperar. É preciso uma certa pressão ou, então, o uso da stylus. Mas não é de todo ruim. O problema é que as iCoisas dos amigos me deixaram mal acostumado.

Outros contras são a câmera e o áudio: bem fracos. Nada de usar o X850 para ouvir funk no ônibus sem fone de ouvido. O volume máximo é um pouco baixo, mesmo com fone.

Mas estou satisfeito. Não sou exigente em questão de celulares. Meus últimos aparelhos foram um Motorola F3, um Nokia 1111 e um LG GS107b. Uso mais por obrigação do que por gosto. E deixo claro: meu dou o direito de desligar e não atender ligações quando eu bem quiser.

De qualquer forma, o ZTE X850 também tem suas vantagens: Wi-Fi, GPS, acelerômetro, Android 2.1, Backgammon Free. O processamento dele é bom, melhor do que eu esperava. 600 MHz. Porém, a memória principal é baixa. Acho que sobram uns 160 MB livres para o usuário. Achei inviável usar o Whatsapp, por exemplo.

Junto com o aparelho vem uma capa de couro sintético, uma stylus extra, cabo para transferência de dados e carregador de bateria. Se você puder gastar uns 100 reais a mais, acho que é melhor pegar um Galaxy 5. Mas se quiser algo só para twittar, jogar gamão e enviar SMS, pode ser uma boa.

Uma besteirinha bacana que veio da China foi o chaveiro espião. Comprado pelo meu irmão por um centavo de dólar no eBay. Contudo, o frete custou US$ 19,99, o que me faz pensar que deve ter alguma falcatrua implícita nesses valores.

Bom, o brinquedo se parece com um chaveiro de alarme de carro, com dois botões. Um que liga a câmera e a deixa em stand by, e outro que pode ser pressionado para tirar fotos ou gravar vídeos com áudio. Para o tamanho e preço do dispositivo, a qualidade de gravação é boa. É modelo é praticamente igual ao do vídeo acima, então você pode ter uma ideia de como funciona.

Depois de uns cinco minutos com ele nas mãos, fiquei paranóico: hoje qualquer zé mané pode sair por aí, gravando tudo o que quiser, sem que ninguém saiba. Somos todos vigilantes e vigiados.

A terceira maravilha consumista desse ano foi um Kindle, trazido diretamente de NY na bagagem do casal alfanumérico. Esse valeu cada centavo. Comprei o segundo modelo mais barato, sem 3G e sem anúncios. Vai ajudar na minha meta de ler mais livros em inglês.

Tenho muitos elogios: gostei da integração com o dicionário Oxford, do display de e-ink, do acervo da Kindle Store e das funçõezinhas extras, como captura de screenshot e joguinhos escondidos. A bateria dura bastante. Mas também existem alguns poréns. O browser não é dos melhores, embora seja um bom quebra-galho para situações de emergência. O MP3 Player é bem tosco. Basicamente, o usuário pode apenas pausar e pular para a próxima faixa. Nada de interface, só teclas de atalho.

Baixei samples que pudessem indicar algum problema de diagramação, como poesia e livros técnicos, mas não encontrei nada muito grave. Livros técnicos são perfeitos: fonte monoespaçada para comandos e trechos de código, legendas para imagens, boxes com cor de fundo diferenciada para informações relevantes. Como uma apostila impressa.

Entretanto, ainda tenho meus receios quanto aos e-books de poesia. No geral, achei que a página deixa pouco espaço de folga para os poemas, eles parecem um tanto “socados” na tela. Tentei encontrar algo que abusasse mais da forma, como e.e. cummings, mas tudo o que encontrei dele eram cartas e poemas visualmente bem comportados. Não sei se o Kindle comportaria r-p-o-p-h-e-s-s-a-g-r, por exemplo.

Para terminar, nesta semana chegou em minhas mãos o microscópio de bolso. Custa pouco mais de 10 dólares na Deal Extreme, e eu aproveitei o pedido do Renan para inserir essa ferramenta indispensável no pacote. Amplia de 60 a 100 vezes, tem a construção um pouco fraca, mas é um ótimo brinquedo.

Bacana para ver insetos e para separar impressões em pontos CMYK. Também serve para observar fibras entrelaçadas de tecidos, pelos e cabelos, grãos de açúcar, areia, detalhes de selos e cédulas, estrutura maluca de espumas e outras porcarias minúsculas.

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Kindle: como vencer sempre no GoMoku

O Kindle possui dois joguinhos escondidos: Minesweeper (Campo Minado) e GoMoku. Para jogar, basta pressionar Alt + Shift + M. A informação é amplamente divulgada na internet. A novidade é que, sem querer, descobri uma jogada invencível no GoMoku:

Você pode repetir quantas vezes quiser, até cansar. Procurando na internet, encontrei uma versão em 12 passos de outra jogada que o Kindle não consegue barrar. A minha tem sete etapas. Alguém consegue com menos?

Os screenshots foram capturados com a combinação Alt + Shift + G, e o GIF animado construído com o Picasion, um site bem feio, mas que funciona bem.

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Pronto, arrumei!

Eu evito acessar o There, I Fixed It. Fico nervoso, inquieto. Cada “conserto” daquele site parece ter sido feito pelo meu pai.

É impossível não me lembrar de quando eu era pequeno e ele chegou com um guarda-roupa novo para um dos quartos. Estava tudo ótimo, até começar a montar o móvel e perceber que não caberia naquele cômodo. Mas, ele deu um jeito: serrou parte do guarda-roupa.

Também teve aquela vez em que ele apareceu em casa com uma peça horrível, um Cristo entalhado em madeira. Eu era católico na minha infância, mas mesmo assim eu detestava aquele toco em forma de santo. Classificar aquilo como kitsch seria elogio.

Minha mãe gostava da peça, mas achava grande demais. Meu pai, obviamente, resolveu a situação: serrou parte do trabalho artístico de algum artesão anônimo do litoral paranaense.

Os “consertos” do meu pai nunca foram bem vistos por nós. Especialmente por minha mãe. Mas o casamento é uma coisa mágica. A convivência transforma cada uma das partes envolvidas.

Dia desses, enquanto escovava os dentes, percebi o que foi que minha mãe herdou de meu pai nesses 30 anos em que estiveram juntos:

Pronto, arrumei!

Tudo bem. Talvez a culpa tenha sido de quem construiu este apartamento. Não sei porque diabos a tomada/interruptor do banheiro fica tão perto assim daquele canto da parede. Mas não há como negar o fator “There, I fixed it!”.

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Sobre sexo, gênero e homofobia

A homofobia está na capa dos principais sites e jornais. Um caso diferente a cada semana. Se duvidar, a cada dia. Eu gosto disso. Fico contente em saber que algo relevante e há muito ignorado começou a ser discutido. Porém, tanta exposição do assunto acaba gerando um volume enorme de bobagens. Tanto de um lado quanto de outro, com as devidas proporções, claro. No geral, Bolsô e sua turma me irritam muito mais.

De qualquer forma, existem alguns pontos recorrentes nessa história toda. Alguns comentários e confusões já circulam há muito tempo, bem antes de Jajá começar a militar (tudum-pá) por aí.

Portanto, seguindo o conselho de usar qualquer sentimento como força motivadora para escrever — o que também inclui raiva e falta de paciência —, aqui vai uma lista de questões que eu considero relevantes e que, gostaria eu, já tivessem sido superadas antes desse debate.

Sexo vs. Gênero

A distinção entre sexo e gênero parece ainda causar muita confusão na cabeça de alguns. Para outros, essa distinção nem mesmo existe. Portanto, aqui vai uma regra bastante clara: sexo é o fator biológico do seu corpo, seu pênis, sua vagina, o animal macho e fêmea da nossa espécie. Já o gênero é algo construído e diz respeito ao seu “papel”, ao seu comportamento, à forma com que você “deveria” agir de acordo com o seu sexo.

Isso explica o fato de que não existe um consenso bem definido sobre o que é ser homem e o que é ser mulher. Pessoas do sexo masculino podem ter comportamentos que os mais conservadores atribuem às mulheres, e vice-versa. A forma do meu avô ser homem era diferente da forma do meu pai ser homem e que, por sua vez, é diferente da minha forma de ser homem. O mesmo acontece com as mulheres.

Por causa disso, é comum, por exemplo, a turma do “Bolsô” fazer graça sobre o assunto. Já que a nossa língua distingue o gênero, eles alegam não saber se devem tratar a pessoa no masculino ou no feminino. Pois bem, aqui está a resposta: use o gênero adotado pela pessoa. Ao falar da Luísa Marilac, por exemplo, empregue o feminino. Para falar com Buck Angel, empregue o masculino. Trate a pessoa pelo gênero com o qual ela se identifica.

Esqueça o binarismo!

Cara ou coroa, zero ou um, ligado ou desligado, isso ou (xor) aquilo. Nunca os dois ao mesmo tempo. Pois bem, esse binarismo deve ser esquecido quando o assunto é gênero ou sexo. A nossa biologia não se resume apenas a indivíduos machos e fêmeas. Existem indivíduos que possuem características biológicas dos dois sexos ao mesmo tempo: homens com dois cromossomos X e mulheres com cromossomo Y, por exemplo. É a chamada intersexualidade. Com base nisso, fica fácil imaginar uma escala: em uma extremo o macho, no outro a fêmea e, no meio, o intersexo.

Com o gênero isso é ainda mais claro. Se de um lado está o masculino/homem e de outro o feminino/mulher, existe uma infinidade de combinações entre eles. No meio desse intervalo fica o intergênero ou genderqueer, indo muito além do binarismo. Aliás, ele inclui até mesmo pessoas que não se identificam com gênero algum ou que transitam por essa escala livremente.

Um bom exemplo da flexibilidade de gênero é o cartunista Laerte Coutinho, que desde 2009 passou a se travestir e a defender publicamente a transgeridade. E ele tem a noção de que está em uma posição privilegiada, por ser artista e famoso. Esse respeito e tolerância não é dado à travesti que sai logo cedo para procurar emprego. Acho que vale a pena assistir à entrevista que o Laerte deu para o Provocações, na TV Cultura.

Resumindo: considere outras formas de gênero que vão além do masculino e do feminino, do homem e da mulher. E, melhor ainda, questione o seu próprio gênero. Você, como homem, faz alguma coisa que poderia ser considerada “feminina”? E você, mulher, age de alguma forma tida como “masculina”?

Orientação sexual

Bom, já que sexo e gênero são coisas distintas e não binárias, fica fácil entender porque diabos existem homens que gostam de homens, mulheres que gostam de mulheres, pessoas que gostam dos dois e até pessoas que não gostam de nenhum. A orientação sexual não está atrelada ao seu sexo ou ao seu gênero.

Aliás, um adendo: atualmente, é preferível usar o termo “orientação sexual” em vez de “opção sexual”. O motivo é o fato de que “opção” indica que a pessoa pôde escolher o seu desejo sexual, o que muitos consideram impossível. Para ter uma ideia de como esse termo pode ser incômodo, basta perguntar a um heterossexual se ele escolheu ser dessa forma ou quando foi que ele decidiu sentir atração pelo sexo oposto.

Muitas das igrejas que tentam converter gays em heteros, por exemplo, acreditam que a sexualidade é uma opção (ou, pior ainda, um “vício”), uma característica que pode ser “revertida”. Alguns terapeutas também insistem nessa ideia, mesmo sabendo que não há evidências da possibilidade de transformar alguém em “ex-gay”.

E mesmo que isso fosse “uma fase” ou “uma escolha” não justificaria o estupro mental que esses grupos praticam.

A escala Kinsey

Se você ainda não assistiu a Kinsey, sugiro que o faça. O filme mostra um pouco da vida do pai da sexologia moderna que, durante as suas pesquisas, percebeu que a orientação sexual também não é binária e, mais bacana ainda, que é comum ver pessoas que mudavam suas preferências sexuais ao longo da vida.

Com base nisso foi definida uma escala que vai de zero a seis, sendo zero alguém completamente heterossexual e seis alguém exclusivamente homossexual. Aqui está a relação completa:

  • 0 Exclusivamente heterossexual
  • 1 Predominantemente heterossexual, apenas eventualmente homossexual
  • 2 Predominantemente heterossexual, embora homossexual com frequência
  • 3 Igualmente heterossexual e homossexual
  • 4 Predominantemente homossexual, embora heterossexual com frequência
  • 5 Predominantemente homossexual, apenas eventualmente heterossexual
  • 6 Exclusivamente homossexual
  • X Assexuado

Kinsey também percebeu que boa parte das pessoas não era monogâmica e ele próprio experimentou um relacionamento aberto. Mas isso é assunto para outro post.

“Agora tudo é homofobia!”

— Só por que eu não quero ter um filho gay, eu sou homofóbico?

— Só por que eu não quero ver homens se beijando na minha frente, eu sou homofóbico?

— Tudo bem se o cara quiser ser gay, mas que seja longe de mim… sou homofóbico?

— Nada contra as lésbicas, mas acho gays nojentos. E aí? Agora sou homofóbico?

A resposta para todas essas perguntas é “sim”. E caso alguém se encaixe na última questão, eu diria que além de homofóbica a pessoa também é sexista (“Vaginas em dobro, wow!”). Mas a resposta é sim porque todas elas denunciam preconceito. Até mesmo a primeira. Afinal, é bem esquisito gostar mais da orientação sexual do filho do que dele próprio.

Heterofobia

Normalmente, as pessoas que se dizem vítimas de “heterofobia” são as mesmas que acham absurdo não existir “Parada Hetero” e camisetas “100% branco” à venda. Se você está se sentindo discriminado por ser hetero ou branco, você provavelmente não aguentaria viver por dois dias na pele de um negro ou de um homossexual. Pense um pouco a respeito disso e pratique alguns exercícios de empatia.

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Kuduro

Parece que um dos ritmos mais populares de Angola está finalmente desembarcando com força no Brasil. Hoje de tarde, no programa da Xuxa, angolanos ensinavam alguns passos de dança. Agora de noite, em um tweet do Wikerson, fiquei sabendo que Velozes e Furiosos 5 termina embalado por um kuduro.

Eu ainda me lembro de quando comecei a ouvir as músicas do CD do Aurelho — era assim que o nome estava tatuado no braço dele — o motorista que nos levava e trazia do trabalho em Luanda. Enquanto rolava o “tô doido, tô doidô!“, ele acelerava, buzinava, desviava, brecava, reclamava e vencia, aos poucos, o engarrafamento inevitável de todos os dias.

Bônus: eu fonhonho e ela fonhonho.

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Stop blowing up shit!

Cada vez mais apaixonado por Athens Boys Choir, pela poesia, pelo ritmo, pela performance e pelo spoken word à la jazz poetry.

I’m a MoFo Genius Because I’ve Got the Answer to World Peace Piece

I wanna write about politics
See I wanna write about politics
but to tell you the truth I can’t even watch let alone keep up with the news
those crimson hews gets alluded in living rooms too far removed
so you see I wanna watch the news
but images of blown up kids have lost their shock value
and when you can see those pictures and not cry
suffice it to say you’ve been desensitized
suffice it to say I’ve been desensitized
see my grandma wished on falling starts
to see the end of falling bombs
and at just 26, well at just 26,
I’ve already witnessed two wars in the Middle East
that mysterious place overseas
over seen are we, those that disagree
and at not yet 30, well at not yet 30,
yes, at not yet 30,
I’m a mother fucking genius
’cause at not yet 30, I got the answer to world peace
and you know what?
it’s beautiful in its simplicity
it’s as easy as this. . .
stop blowing up shit
that’s it.
stop blowing up shit
stop pulling the trigger that triggers more fingers on buttons of destruction
’cause you see,
the same stories been spun since histories begun
and we need evolution in these revolutions
what we need is to stop blowing up shit
Hell, I know Jesus didn’t arise after being crucified for smart bombs
ain’t nothing genius or clean about TNT
doesn’t take a prodigy to count civilian casualties
and I ain’t that quick
but I know enough to say
we gotta stop blowing up shit
hell
we’re already in danger of apocalypse of the human spirit
and we are more alike than we are different
more resilient than we know
and more fragile than we care to admit
so that’s it
stop blowing up shit
stop shooting up villages
stop killin’ kids
and if you must have war
if you gotta, need it, have it now
a war
well then hell,
that’s what virtual reality is for
(Mario Bros. music)
alright check this out
in the same what that Dance Dance Revolution is this kick ass cardio work out
we’ll set up computer scenarios and set up platoons of Luigis and Marios
Donkey Kong can be in charge of missiles and bombs
and all the Ms. Pacmans will join hands
and finally bring that front line a mother fucking feminine side
and I know it sounds silly
but it’s no more silly than blowing up buildings
so we can feel all good about rebuilding them buildings
right?
we have the technology to fight this war on computer screens
the same way we have the language skills to write up them peace treaties
so that soldier’s mothers don’t have to be afraid of the phone
so that shell-shocked citizens don’t really in reality loose their homes
so we don’t have to identify bodies by DNA and dentals
so the death toll is just a number
a computer code
see, sometimes I find myself wishing on shooting stars
to see the end of shooting guns
and the beginning of something different

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Rock cristão: pequei ao contrário

“Entre rock cristão e um lugar ruim, eu prefiro o lugar ruim”. Lembro vagamente de uma música que dizia algo assim. Bem, tanto faz. Rock cristão me deixa um pouco irritado. Parece que não combina. Alegria e confiança demais. Mas pode ser eu, já que o rock, no geral, também tem me deixado meio irritado. E isso também pode ser culpa minha, já que estou mais acostumado com o modelo punk/hardcore. Que ultimamente também tem me deixado irritado. OK, vendo dessa forma, o problema está mesmo em mim.

Mas voltando ao rock cristão, já faz alguns anos que conheci uma banda que se tornou a exceção da minha regra. E também o meu guilty pleasure, já que sou um desses ateístas céticos e completamente materialistas, que rejeita qualquer proposta metafísica ou pseudo-científica, incluindo homeopatia, mediunismo, deuses, chakras, terapias alternativas, simpatia para espantar visita e roupa branca no réveillon.

Bom, com mewithoutYou, a coisa é diferente. Eu tolero a pregação e não me importo com as bobagens proféticas cantadas, do tipo “um dia a água vai lavar tudo isso” etc. E eu até que respeito a grafia do nome, com o Y maiúsculo. Mas deixo claro: é pela arte!

mewithoutYou

A musicalidade da banda me agrada demais. Sem falar da maneira de cantar do vocalista, Aaron Weiss, da humildade dele nas poucas entrevistas a que assisti e, principalmente, das letras. Explico: não do caráter religioso das letras, mas do caráter poético mesmo. Como em “Wolf am I“, em que ele admite ser mais a ausência de algo do que algo propriamente dito (“as I’m not something more like the absence of something”).

Ou então na quinta faixa do mesmo disco: “We went from Portugal and Spain/And in her mind the entire time it rained!/A glass can only spill what it contains!”. De repente chegou mesmo a chover durante a viagem, mas isso não atrapalhou o humor da maioria, porque “um copo só derrama aquilo que contém“.

Também gosto quando o Aaron, descendente de judeus, canta trechos das músicas em árabe, reunindo assim elementos das três principais religiões monoteístas de uma maneira praticamente ecumênica. “ya Halim, ya Qahhar/ya Muntaqim, ya Ghaffar!/la Ilaha ilallahu, Allahu Akbar!”.

E depois de ter ouvido muito o “Brother, Sister”, de 2006, eu já estava enjoado e começando a repensar essa minha falha ateísta, quando os caras lançaram, em 2009, o “It’s All Crazy! It’s All False! It’s All A Dream! It’s Alright”. E então eu ouvi a luz novamente, por causa das letras novas, que nesse disco misturam elementos fabulosos, como animais e frutas se comportando como humanos.

Apesar da pregação chatíssima da faixa de abertura, a música seguinte, “The Fox, The Crow And The Cookie“, é uma das minhas favoritas e possui trechos que eu gostaria muito de ter escrito. Um deles é a parte em que o padeiro ofende o corvo com “most unfriendly words that the village children had not yet heard”: “You rotten wooden mixing spoon!/Why, you midnight winged raccoon!/You’d better bring those pastries back, you no good, burnt-black-macaroon!”. O clipe também é muito bacana.

Outra desse disco que se tornou uma das faixas mais executadas por aqui é “Bullet To Binary (pt. Two)“, que começa com “Let us die, let us die!” e, na metade, canta “Lettuce grows, lettuce grows”, já que a fábula, desta vez, se passa em uma horta: colhemos aquilo que plantamos.

Eu sei, todos os exemplos foram piegas e podem não justificar o meu guilty pleasure, mas é a forma como “a mensagem” é exposta que me faz continuar ouvindo a banda. Acho que é por causa da POESIA! Sem falar da musicalidade em si, que também é muito própria. Imagino que um cristão bem versado nas escrituras possa aproveitar melhor as músicas, pelo menos tomando como exemplo as poucas tentativas de interpretações das letras que li por aí.

Enfim, é com vergonha que eu digo: fica a dica!

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