
Imagem da primeira edição da História de Gândavo
Tenho lido um livro que, apesar de importante, parece pouco conhecido do brasileiro. Se trata de História da província de Santa Cruz, relato de Pero de Magalhães de Gândavo, escrito 76 anos após a chegada de Cabral em nossa terra.
O fato de ser uma obra quinhentista já a torna rara, mas a idade não é só o que conta. Esse é considerado o livro que “inaugurou a historiografia e a geografia brasileira”. Claro que existem relatos anteriores a esse, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, mas Gândavo foi o primeiro a escrever com a visão de um historiador.
Porém, não é à toa que o texto é pouco conhecido. Depois de ter sido publicado, em 1576, por Antônio Gonçalves — primeiro editor de Os Lusíadas —, o livro foi convenientemente esquecido pela política de segredo da coroa portuguesa. A ideia era evitar que estrangeiros tivessem acesso às informações valiosas sobre a nova província.

Capa da edição da Jorge Zahar Editor, que estou lendo
Foi só em 1837, com a publicação da tradução francesa do historiador Henri Ternaux, que o texto voltou a ser popular, tornando raros os exemplares de 1576, que logo foram adquiridos por bibliófilos.
A edição que tenho em mãos, e que conheci nessas horas matadas dentro da Biblioteca Pública do Paraná, é de 2004 e foi publicada pela Jorge Zahar. Além das notas e da introdução à obra, o texto passou por uma adaptação para os leitores de hoje, feita por Sheila Moura Hue e Ronaldo Menegaz.
E a leitura tem rendido pesquisas paralelas bem divertidas. Depois de passar pela história do descobrimento e de descrever a geografia, as capitanias e os governos de então, Gândavo trata das plantas e dos animais da província. E é aí que a leitura fica divertida. Pelo menos para um leigo como eu.
Plantas e frutas

A mandioca, domesticada pelos índios, abre o capítulo sobre as plantas
Obviamente, o capítulo é aberto com a raiz que aqui “se come em lugar de pão”: a mandioca. O autor fala da domesticação da planta pelos índios e ressalta diversas formas de preparo do tubérculo, mesmo das espécies “peçonhentas”.
Depois, ressalta que aqui temos uma planta que acreditava ter vindo de São Tomé e que muitas pessoas se sustentam da fruta que ela dá. “É mui tenra e não muito alta, não tem ramos, senão umas folhas que terão seis ou sete palmos de comprido”. É a banana, que Gândavo diz ter “feição de pepinos e criam-se em cachos”.

Yes, we have banana!
Na nota aprendi o nome tupi: pacova, que significa “folha de enrolar”. Aliás, as folhas ganham destaque nos relatos de outros autores da época, que alegam serem tão frescas que servem para acalmar a febre de doentes que se deitam sobre elas.
E o capítulo prossegue. São descritas castanhas, cajús, algumas árvores, os cheirosos ananases (abacaxis), que nascem como alcachofras e cheiram muito bem (“em tupi, nanã, cheira-cheira”), e termina falando da dormideira, por causa da característica curiosa de fechar as folhas sempre que alguém toca nela.
Os animais ou A parte em que cito Pokémon

Aaawwnn!
Para começar, algo que eu desconhecia: o único bicho domesticado pelos índios foi o pato-do-mato. Cavalos e gados foram trazidos de Cabo Verde, pelos portugueses. E depois de falar sobre animais de carne saborosa, como a capivara, Gândavo cai em um dos bichos mais legais: a anta, conhecida em tupi como tapir.
(Tentarei não mencionar dados sobre o pênis do animal, que vi quando era criança, num passeio ao zoológico de Curitiba. Enfim, foco!)
O que me chamou a atenção foi a etimologia da palavra anta, que uma nota diz ser de origem árabe. Eu tentei rastrear pela internet, mas o mais perto que cheguei foi da palavra “Lamt”, indicada pelo blog Origem da Palavra. Procurei no dicionário Hans Wehr, mas não encontrei nada parecido. Problema de transliteração, talvez. Para piorar, o artigo árabe da Wikipedia se refere ao animal como “tabirat”, que parece uma variação de “tapir”. Se alguém souber de uma referência mais concreta, me conte, por favor.

Drowzee, o comedor de sonhos
Lendo mais sobre a anta, aprendi que no folclore japonês elas possuem a habilidade de comer o sonho das pessoas. Portanto, como sagazmente percebeu a querida Bruna Fujie, não é à toa que o pokémon Drowzee se alimenta dessa forma.
Depois de alguns elogios às carnes da paca, da cutia e do tatu, de afirmar que a onça é um tigre e de tirar sarro da preguiça (“ainda que ande quinze dias aturados, não vence a distância de um tiro de pedra”), Gândavo também fala do tamanduá e de algumas espécies de macacos. Inclusive, conta que os micos-leões-dourados morrem durante a viagem quando tentam levá-los para fora do Brasil.
O autor também fala das cobras, inclusive com dados fantásticos sobre algumas delas, que teriam grandes asas ou a capacidade de se regenerar. Mas a grande revelação vem da descrição dos “lagartos mui grandes” que, provavelmente, seriam os jacarés.
Gândavo conta que os testículos desses bichos “cheiram melhor que almíscar, e a qualquer roupa que os chegam fica o cheiro pegado por muito dias”. Para mim, o fato é inédito. O Pe. Fernão Cardim vai além e diz que o esterco do bicho também é bom para manchas oculares.
As aves (extintas) de Santa Cruz
No capítulo sobre as aves, achei curiosa a citação dos galos do Peru, que com o passar do tempo passaram a ser chamados apenas de perus.
Mas o que entristece é tomar conhecimento dos anapurus. Eram papagaios grandes, de muitas cores e que viviam no sertão. Se acostumavam tanto ao ambiente doméstico que chegavam a se reproduzir sem problemas em cativeiro. Cada exemplar de anapuru valia de dois a três escravos. E, por tudo isso, a espécie foi extinta e o pássaro multicolorido nunca foi identificado pelos pesquisadores modernos.
Bestas dos mares

O monstro morto na capitania de São Vicente
Gândavo também fala dos peixes de Santa Cruz, dando especial atenção a um mamífero aquático, o peixe-boi. Engraçado saber que eles comiam o animal nos dia em que a igreja determinava ser para se alimentar de peixes. Elogiavam a carne, diziam que se parecia tanto com a da vaca que até causava algum desconforto moral comê-la nesses dias santos.
Agora, começarei o capítulo em que ele descreve um monstro marinho morto na capitania de São Vicente, em 1564. É o bicho da imagem aí de cima. Mas como o livro é pequeno, com cerca de 180 páginas, não entrarei em detalhes para não tirar a graça da leitura que você pode querer fazer.










